15 de janeiro de 2018

Noite

Tela: Natt i St. Cloud - Night in Saint-Cloud (1890), Edvard Munch

Que destreza a da lua
em aumentar as agruras!
Nem o sol manipula
com clareza essa lupa.


O algoz

Tela: Kvinde ved vindue - Waiting By The Window, Carl Holsøe (1863-1935)

O silêncio usa com categoria
esta lâmina que a espera afia:
quanto mais ele se acomprida,
mais no fundo, ela se aninha.

E se incita, na vítima, a fantasia
da voz que volta e cura a ferida,
é aí que exibe sua covardia:
o improvável aumenta a agonia.


Sobre o amor

Tela: Les murmures de l'Amour (1889),
William-Adolphe Bouguereau

Nunca presa, sempre algoz -
já que a memória não captura.
Por ser sutil (mesmo atroz),
recaímos no conto da criatura.


O dono do pedaço

Tela: Saudade (Longing) - 1899 - Almeida Júnior

Ali, onde tanto se comprime
sem que o saiba, ele se posta.
O espaço em que se imprime
vai dilatando e, muito embora,
a todo o resto ser um acinte
pelejar com o que sobra -
assim, no peito, fica firme
quem confortável se demora.


10 de janeiro de 2018

O ciclo

Tela: Ashes - Aske (1895), Edvard Munch

De longe se nota no talhe:
desenvolve o rebento.
Dócil, acompanha a praxe
mesmo sendo pequeno:
nem cedo, nem mais tarde
- conforme seu tempo -
inteiro, e não pela metade
nasce o sentimento.

Se Fracos o põem à parte
e Outros dão fomento,
pra Todos (esta é a verdade)
o amor é um tormento!


O fruto

Tela: Portrait of Ramon Casas (1890s), Santiago Rusinol

Não se sabe como
num tempo oportuno
sucede o outono
no coração de muitos.

E o passante absorto
que perde o prumo
não vê que topou
num amor murcho.


6 de janeiro de 2018

A amante

Tela: Night, Auguste Raynaud (1845-1937)

Seu galanteio, senhora, é indecoroso:
se despe do manto e envolve a todos.
Oferta brilhantes, um broche de ouro,
inda faz juras de eternidade no posto.
Mas, amanhece e se veste de novo;
sai a toda, pra não ser pega por pouco -
como se o sol não manjasse o engodo.


A Estrela

Tela: Solnedgång över havet - Sunset over the sea, Per Ekström (1844-1935)

Ela não deve se estender muito:
se apronta pra tomar outro rumo.
E faz no poente seu aceno último
que mesmo esmaecido, contudo,
consola quem já está no escuro.


Refrigério

Foto de Richard Revel

Esse dente-de-leão
no caminho
ignorado no chão
- num cantinho -
cumprirá sua missão
num instantinho
ao parar numa mão
e num soprinho
apagar num coração
um tantinho
da combustão
que o toma inteirinho.


O camarote

Tela: Sunset on the Coast (between 1865 and 1866), Albert Bierstadt

Se nascentes velam o desgosto
de ter de quem parte só o dorso,
toda espera vale pro lado oposto.
Por ver de frente quem dá gosto,
o ocaso sabe: é o melhor posto.


A Verdade 2

Tela: Nuda Veritas (1899), Gustav Klimt

Desconhece a sutileza:
é abrupta, quando chega.
Nos alija da soberba
e se converte, ela mesma
numa carga de primeira:
vai conosco a vida inteira.


A Verdade

Tela: Sightless (circa 1899-1910), Jan Ciągliński

Como hóspede sem aviso de véspera
sua luz se impõe, acolhida depressa.
Uns poucos não se afetam por ela
e, desses, os anfitriões têm inveja:
os primeiros não tateiam nas trevas,
enquanto os últimos ficam às cegas.


4 de janeiro de 2018

Ocasos

Tela: Sunset on the Nile (1906), Ernst Koerner

Carpir; botar uma pedra e ele, no olvido...
Nada disso é desperdício.
Que fim, de um ritual, não é digno?
O sol encerra com pompa seu serviço.


Remédio

Tela: A Room in the Artist's Home in Strandgade, Copenhagen (1901), Vilhelm Hammershøi

Pra quem foi dá no mesmo
se você o mantém lá fora.
Reforçar a tranca é placebo:
já se sabe que ele não retorna.


Platonismo

Imagem: Excerpt of a single panel from a multi-paneled Mopsy comic
published in TV Teens, Vol. 2, No. 7
 - 1955 - Autora: Gladys Parker

Pior jeito de tê-lo: na imaginação.
Altura só cai bem em santo.
Amor é de joelho e mão no chão –
como convém aos humanos.


Selvagem?

Tela: Sunset over the Marsh (1876-82), Martin Johnson Heade

O sol só reina até a linha do poente;
o fruto se alinha ao script da semente;
a maré se inclina à lua, reverente;
operária não é, com a rainha, negligente.

Nesse mundo, leva-se a praxe seriamente.


Perguntas

Tela: Overpeinzing (1896), Jozef Israëls

Onde se guardam as interrogações?
Na frente, a passagem, dificultam;
nos fundos, perturbam;
acima, soterram; embaixo, entulham.

Umas se solvem sozinhas;
outras, a gente intui.
Muitas, pó, acumulam
e uma grande, pela vida afora, dá agrura.


Paranoia

Tela: Viendra t il? (Will he come? / Why comes he not?)
- between 1860 and 1866 - Jehan Georges Vibert

De tanto esperar lá fora
por quem não vem;
se enfurnou no fundo
- inda cerrou a porta -
pra evitar ver vulto
e perpetrar perjúrio:
"Enfim, meu bem!".