20 de agosto de 2018

Niveal

Tela: Winter (1896), Alfons Mucha

Bate às portas um peregrino
e quem se prontifica a aceitar?

É pouco o que resta de viço
e constrange a compartilhar!

Será que uns pensam consigo
se Deus se põe a zangar,

por deixar quem busca abrigo
sentindo-se "sem lugar"?

De norte a sul, meio perdido,
(mas com hora de ir e voltar)

em trapos, quer ser bem-vindo
- sem nada em troca pra dar.


19 de agosto de 2018

Discrição

Tela: The Butterfly (circa 1870), John Henry Dolph

Para P. L.

É talento raro, a reserva:
a semente já manifesta
o que traz escondido nela.

A poucos, é nato deveras:
nada na lagarta segreda
que pelo céu trocará a terra.


18 de agosto de 2018

O Tecido

Tela: Abend - Melancholie (Evening - Melancholy) - 1891 - Edvard Munch

Começa feito de musselina -
suscetível ao que circunda.
Então, troca a matéria-prima:
vai encorpando, a textura.

Passa do organdi à seda fina;
mais tarde, do linho à juta.

Por fim, tão espesso fica,
que quem lida com ele jura
que algo ali, se expandia,
retraiu-se frio, em ataduras.


16 de agosto de 2018

Grandeza

Imagem: The Cedar Tree (1910) -
Autor: Arthur Sanderson & Sons, Ltd.

Não é sábio mover um dedo
contra algo com estatura:
o que se impõe de todo jeito
torna infrutífera a luta.
Embora imponente, o cedro
diante do outono, recua.


14 de agosto de 2018

Máscaras

Tela: Пьеро - Автопортрет в костюме Пьеро
(Piero - Self-portrait as Piero) - 1911 - Zinaida Serebryakova

Por baixo da tenda de estrelas,
o luar faz mais um de seus bailes:
repleto de vultos e silhuetas -
já que é compulsório, o disfarce.

Lá pelas tantas, a alvorada chega
pé ante pé (com pouco alarde).
Acende a luz e, pra quem queira,
mostra quem é quem na verdade.


13 de agosto de 2018

Lusco-fusco

Tela: Evening by the Lake,
Max Nonnenbruch (1857-1922)

Na hora em que o céu vacila
e fica no ar, em suspensão,
o passo seguinte que daria
saindo, enfim, da indecisão

quantos não prefeririam
que persistisse a situação,
em vez da passada que viria
a qual chamam de Escuridão.


11 de agosto de 2018

Consistente

Tela: Galante Szene (by 1900), Carl Ludwig Becker

Para P. L.

Há coisas que se dão num átimo
e levam a pensar "se foi o caso":
como a luz que some num intervalo,
porque um avião (ou um pássaro)
se impôs entre ela e nós, no espaço.

Porém, se num relance, ao acaso
um gesto de alguém estimado
numa hora dessas, é captado
ainda que bem tênue (de fato),
ganha solidez de chumbo. No ato.


10 de agosto de 2018

O Bailado

Tela: Approaching Storm - Beach near Newport (1861-62),
Martin Johnson Heade

Dança na orla com sua saia
de barra branca de organdi:

ora a recolhe; ora a espraia
numa evolução a um triz

de (Deus nos livre) rasgá-la
e, a nós, passar a cobrir!


8 de agosto de 2018

Os Boêmios

Tela: Two Men Contemplating the Moon (1819-20),
 Caspar David Friedrich

O véu a lhe pender no rosto
não foi uma escolha sua,
mas sim um pudor imposto
do criador para criatura.

Assim, não nota os absortos
que se dão a esta busca
de achar, sem um só esforço,
ó Noite: sua formosura!


6 de agosto de 2018

Víbora

Tela: Höstlandskap i aftonstämning (Autumn Landscape in the Glow of Sunset) -
Per Ekström (1844-1935)

Feito um inofensivo batedor,
pra aplainar o seu caminho,
envia, à frente, A Tardinha.

É um truque nada amador:
primeiro, de leve, um sorriso
depois o bote. E é o fim do dia.


5 de agosto de 2018

Falso profeta

Foto de Dominicus Johannes Bergsma

Tem um quê de salvador,
porque vem lá de cima
e a cumula de graças.

Mas sabe bem, uma flor,
que promessas vazias
evaporam na alvorada.


3 de agosto de 2018

De boa

Tela: Whitby from Scotch Head, Moonlight on the Esk (1879), John Atkinson Grimshaw

Não é preciso viver aqui
pra saber que a perfeição
não é coisa deste mundo.

A lua releva e vai dormir
à noite, na escuridão
no leito de um rio turvo.


2 de agosto de 2018

Desprendimentos

Foto: Yellow River Delta (China) by NASA

Evoca uma gentileza
da flor no mormaço,
ao sol, quando chega,
ceder o seu orvalho.

Tão bem se assemelha
ao do rio, esse ato:
à maré, mesmo cheia,
ele estende seu braço!


1 de agosto de 2018

Etéreas

Foto de Gabriele Motter nihilist

Para P. L.

Se do amante ganhou mimos,
contradizem as mãos vazias -
e qualquer discussão é vã.

Mas há prendas como o rocio,
que só a mente mantém vivas,
porque se vão pela manhã.


31 de julho de 2018

Esperança

Tela: Hope in a Prison of Despair (1887), Evelyn De Morgan

Sem horário, meta e nenhuma fila,
reparte-se a oferta entre os convivas:
não obstante etérea, é tão nutritiva,
que se alguém, da dieta, a retira
vão-se espinha ereta e cabeça erguida.


27 de julho de 2018

Desvelo

Imagem: Asahi Bridge in Ojiya (1921), Hasui Kawase

Para P. L.

Tudo se ata por um fio -
sobretudo, se vai distante.
O rio corre com jeitinho
e a lua fica a seu alcance.


Afeiçoada

Tela: Salida de la luna (1906), Guillermo Gómez Gil

Para P. L.

De manhã dá no pé:
não tem outro jeito.
Não importa a maré,
ficaria em seu meio!


25 de julho de 2018

Pérolas

Tela: Das Markusbecken und Santa Maria della Salute (1855), Friedrich Nerly

Dá-se a ele, sem reserva, a noite toda
quem de manhã lhe escapa de novo.
E o mar lastima não ter, qual a ostra,
braços firmes pra cativar seu tesouro.


24 de julho de 2018

Evidências

Tela: Strandszene im Nebel (Beach scene in the fog) -
Friedrich Preller the Younger (1838-1901)

Para P. L.

O que se desdobra em velar tudo
lembra o sol durante um nevoeiro:
mesmo encoberto, revela o vulto
e o dia segue dia - do mesmo jeito.


19 de julho de 2018

A artista

Tela: Fishing in Ghent, the evening (between 1860 and 1883),
Egide François Leemans

Quando se tem um leito seguro
(embora oscilante) sob o trapézio,
rodopios no alto não são apuro -
ainda que a lua leve isso a sério.


15 de julho de 2018

RSVP

Tela: Two Owls at Sunset (1859-60), Martin Johnson Heade

Há que se acatar certas recusas:
nem refinamento muda a conjuntura -
mesmo solenes, são inoportunas
as alvoradas todas, pra uma coruja.


13 de julho de 2018

Spleen

Tela: La nuit (circa 1895), Thomas Alexander Harrison

Para P. L.

Se o sol mostra tanta grandeza
ao disfarçar a monotonia
em seu percurso sem riscos;

que criatura (qualquer que seja)
não intui que quem se desvia
também engrandece o caminho?


12 de julho de 2018

Inteligível

Tela: Tranquility at Sunset (1879), John Joseph Enneking

Às vezes o fim é percebido a custo
embora ecoe toda porta batida.
O dia, porém, se vale do crepúsculo
pra se fazer entender na partida -
e, às vistas, esse tom meio obscuro
soa claro que é hora da desdita.


11 de julho de 2018

Posturas

Tela: Soleil couchant sur la seine à Lavacourt, effet d'hiver (1880), Claude Monet

Pena ver o rio brilhar de euforia,
investir em tamanha simpatia
se o horizonte indolente, todavia,
é que ganha a luz no fim do dia.


10 de julho de 2018

Terra

Tela: Autumn Landscape by William Louis Sonntag, Sr. (1822-1900)

Como mulher, ao perdão, é inclinada
e de novo recebe em outra alvorada
aquele que pela noite e a madrugada
a deixou na mão, sem dar as caras.


9 de julho de 2018

Medidas

Tela: Aftenlandskab (Evening landscape) - 1901 - Julius Paulsen

Para P. L.

Pra quem o todo é tudo quanto baste
a postura do rio soa um disparate:
aceita da lua menos que uma parte;
um afago por cima, pra ele, já vale.


6 de julho de 2018

Anoitecer

Tela: Nocturne (circa 1870-77), James Abbott McNeill Whistler

Para H.

A falta do que parte
é algo a que se habitua:
basta ver a agilidade
com que a vista se enluta.


5 de julho de 2018

Liberdade

Imagem: Tsuki no Matsushima (Matsushima in the Moonlight)
- 1919 - Hasui Kawase

Desnorteado, ele às vezes transborda
pois ainda que a embale e suporte
sempre que se achega a aurora
desapegada, a lua escapole.


4 de julho de 2018

Balzaquiana

Tela: Mondaufgang (circa 1900), Hans am Ende

Para P. L.

Porque acende em toda fase,
como parte da rotina;
já não mostra rubor na face -
coisa própria de menina.


3 de julho de 2018

Clímax

Imagem: Setting sun - 1921 - Hasui Kawase

Para P. L.

A luz tem o céu após a jornada -
ao cruzar o meridiano.
Pra ela, ponto alto (a sua paga)
são os braços do oceano.


2 de julho de 2018

Vulnerável

Tela: Stitching the Standard (1911), Edmund Leighton

Bem pouco o que se usa
e em breve se arremata
o sobretudo da ilusão.

Tão frágil, a urdidura
que, dos fatos, uma farpa
deixa o manequim na mão.


1 de julho de 2018

Afeto

Tela: Przy studni (1882), Witold Pruszkowski

Para P. L.

Mantém na penumbra à toa
o que nasce com lume,
pois já mostra o intento.

A casca espessa da ostra
não impede o vislumbre
da pérola ali dentro.


29 de junho de 2018

Verniz

Imagem: Hikaru umi (The sparkling sea) - 1926 -
Hiroshi Yoshida

Para P. L.

O sol só retorna a essas paragens
pelo fulgor que deixam a nu.
Não sabe da polidez da paisagem
que guarda pra si o déjà vu.


28 de junho de 2018

A dádiva

Tela: Ask Me No More (1906), Lawrence Alma-Tadema

Perder é moleza.
O difícil é ganhar:
ajustar a grandeza
do que têm para dar.
Se vence a soberba,
aprendeu a amar!


26 de junho de 2018

Abundância

Foto de AnRo0002

Pra conhecer a face do Divino,
é só olhar pra Primavera
que aos borbotões provê mimos,
mesmo que parte da oferta
encontre no chão seu destino!


Apetites

Tela: Canal in Dordrecht at moonlight - 1875 -
Egide François Leemans

De duas formas bem distintas
o rio costuma ser desejado.
De manhã, a luz fica em cima
até que lhe tira um pedaço.
Já a lua, de longe, se sacia
até com retrato mal-acabado.


22 de junho de 2018

Ingrato

Tela: Cloud Study - 1838 - Knud Baade

Ó céu, quanta desdita
por se ornar de safira
e uns encostos macios,
pra se fazer de abrigo!

A noite já se aproxima
e sem um dedo movido
se pavoneia uma linha,
onde o sol tira o cochilo.


21 de junho de 2018

Ancoradas

Tela: Viento - Ricard Urgell i Carreras (1873-1924)

A corrente que a todos cerca
a alguns, atesta a serventia:
excita palmas; sopra velas
e as folhas do livro da vida,
mal se arrastam do lugar delas.


20 de junho de 2018

Dúvida

Tela: Crepuscolo - 1885-95 - Francesco Danieli

Quando a tarde desce o pano,
põe suspenso seu martírio:
virar noite ou seguir dia?

No rasto dos humanos
- hora turva, e é tão nítido! -
o céu também é outro que vacila.


19 de junho de 2018

Desassossegos

Tela: Закат у моря (Sunset at Sea) - 1864 - Ivan Aivazovsky

Tanto o que não se acomoda
e desponta com ares de partida.
O sol é um: chega na aurora
e não disfarça o ocaso em vista.


18 de junho de 2018

Cena

Foto de Brian Stansberry

Mesmo a luz esperneia na partida:
agarra-se ao céu com mãos aflitas;
arrasta-se e o risca de ametista...
Até, exausta, ceder pro breu à vista.


17 de junho de 2018

Rupturas

Tela: Red Sunset on the Dnieper - 1905 - Arkhip Ivanovich Kuindzhi

É o muito que se junta
ou um ínfimo detalhe
que faz ir, de repente,
uma pareja pelos ares?

Peleja nessa dúvida
todo dia, a paisagem
quando, no poente,
some a contraparte.


16 de junho de 2018

Pas de deux

Tela: Before the Storm (Clouds) - 1866 - Karel Purkyně

Um vendaval é alvissareiro
se não pra todos, para a grama:
ele sopra que o céu inteiro
em seus braços (já, já) se lança.


15 de junho de 2018

A grama

Foto de Nathan O'Nions

Se faz sol ou chove à beça,
se ganha pisada ou flor amarela;
nas alturas, viceja a inveja
dessa constância que paira nela.


14 de junho de 2018

Embaraço

Tela: Seenlandschaft bei Mondschein, Giuseppe Canella the Younger (1837-1913)

Quem vê o rio denodado
arrojar-se no mar bravo
estranha, após o ocaso,
ele tremer, ressabiado,
com a lua em seus braços.


13 de junho de 2018

Oblação

Tela: Quiet moonlight (beyond Catalina Island) - 1907 - Granville Redmond

Na superfície já se nota
que a partículas não toca
deixar uma imensidão plena.

Mas ela insiste e retorna,
pois tenta ser qual a hóstia:
nutrir fundo, mesmo pequena.


12 de junho de 2018

A prova

Tela: Marie Gallén auf der Kuhmoniemi-Brücke (1890), Akseli Gallén-Kallela

Somente um juízo raso
sentencia que é quente:

fazer do nascer ao ocaso
tudo, ao ontem, indiferente

é um indício arrazoado
de que frieza, traz latente.


10 de junho de 2018

Recato

Tela: Morgenlandschaft (Aurora) - circa 1606 - Adam Elsheimer

Para P. L.

Cobriram-na com tanta joia,
que simplesmente assentiu.
À vaidade, se viu exposta -
assim, por horas, se retraiu.
Pra não soar uma incógnita,
ao silêncio, não sucumbiu:
abriu a boca e saiu "Aurora!",
quando todo enfeite sumiu.


O Sentimento

Imagem de Gerhard Munthe (1918) -
Fonte: Nasjonalbiblioteket from Norway

Para P. L.

Um espetáculo acontece
a cortinas cerradas:
começa muito lento
até a hora da catarse,
quando chega o momento
de, então, vir à baila.

É como o que se repete
sempre nas alvoradas
quando a luz vira portento
cheia de afã e classe:
só depois de ir comendo
a noite, pelas beiradas.


8 de junho de 2018

Na madrugada

Tela: Kuutamo (1890), Elin Danielson-Gambogi

O amor é desses bens caros
que muita gente tem herdado
sem por eles pagar vintém.

Com alto valor de mercado,
só o ostentam, desavisados -
atraindo a cobiça de alguém.

Não são como o céu: sensato,
que exibe seu broche dourado
quando se vê quase ninguém.