18 de abril de 2018

Ocasião

Tela: Лунная ночь. Здравнёво. (Moonlight night. Zdravnevo.) - 1896 - Ilya Repin

Em vão o silêncio simula
ter palavra nenhuma.
Pois ela apenas se oculta
numa faixa obscura,
que se julga profunda.

E com outras se acumula
até a hora oportuna
quando algo, ali, se insinua
tal como, do alto, a lua
pondo a mão na água turva.


17 de abril de 2018

À la carte

Tela: Starry Night (1888), Vincent van Gogh

A preferências inalteradas,
o Dia dispõe seu cardápio:
pro verde, a luz de entrada
pra rosa, o jardim marinado
e com uma noite estrelada
o azul quer se ver salpicado.


16 de abril de 2018

Visitinha

Tela: The postman always rings twice (2013),
Jules Grandgagnage

Para H.

A certeza é um consolo
que se recebe com deleite,
pois se ajusta no todo.
"Mas, se inquieta no ambiente!",
nota o anfitrião probo
que ante a partida iminente
abre mão dos engodos
pra quem já está no alpendre.


14 de abril de 2018

Superfícies

Tela: Breakwater, San Sebastian (1918), Joaquín Sorolla y Bastida

Para P. L.

Se disfarça, o oceano,
que leva algo no âmago
as ondulações, no entanto,
revelam muito sob o pano!

De prever, não me ufano,
que um rosto tão lhano
um tumulto tamanho,
ele vinha aplainando.


11 de abril de 2018

Mau gênio

Tela: A má notícia (Bad news) - 1897 - Belmiro de Almeida

Vem de longe a rivalidade
mas o porquê, mal se sabe:
com a crueza de um sabre,
intercepta a felicidade,
o que atende por finidade.


6 de abril de 2018

Fardos

Tela: Paradiesszene (1917), Fritz Wingen

"Muito pouco tem a fazer,
aquele que é tão amado!" -
fica o amante a se condoer
não obstante equivocado:
é que compete ao bem-querer
trazer o Céu pro seu lado.


5 de abril de 2018

Fortuna

Tela: Catalina Island Coast under a Moonlit Sky (1920), Granville Redmond

Traz uma dívida passiva,
todo ser que ama -
custosa de extinguir.

A lua, com poucas divisas,
se põe soberana
a amortizá-la ao reluzir.


4 de abril de 2018

O astro

Tela: Sonnenuntergang (Brüder) oder Abendliche Landschaft mit zwei Männern -
Sunset (Brothers) or Evening landscape with two men - 1830-5 - Caspar David Friedrich

Chega com espalhafato -
um mundo dá notícia.
Mas, ao percurso, aplicado
a tal ponto se refina
que mais tarde, avexado,
sumirá atrás da linha.


3 de abril de 2018

O Sofista

Tela: Anglers on a River Sunset (1817), Arthur Parton

Para H.

A sombra da sua despedida,
ao longo das horas, fica clara.

Porque mostra calor ainda,
acha que a Terra não viu nada.


2 de abril de 2018

Cenários

Tela: Fair Rosamund (1916), John William Waterhouse

De que adianta um quinhão pródigo,
se te cativou um sorriso?
Não tem mais monta o sítio inóspito
com o ir e vir garantido?


1 de abril de 2018

Mecanismo de defesa

Tela: Зонтик (The Umbrella) - 1883 - Marie Bashkirtseff

Para H.

Por vezes, é tão dolorido
à vista que não é turva
se expor ao que não é fino,
que ela se enche de escusas -
como se o anil lá no cimo
(num dia de muita chuva)
só por estar recolhido
escondesse nas dobraduras
um outro tom imprevisto.


28 de março de 2018

O Jogo

Tela: Holsteinischer See, Mondschein (1847), Johann Georg Haeselich

Tão velha, e não dissimula!
Pro entorno todo é fato
que há anos dá as cartas
quem a tem na mão: o lago.

Não aprendeu ainda, a lua
que esconder o jogo é sábio:
se a aposta se esmigalha
em segredo, ajunta os cacos.


26 de março de 2018

Seleto

Tela: Girl with a Platter of Fruit - c. 1555 - Tiziano (Titian)

Para P. L.

Avaliam que ela desperdiça
sem pensar um bocado,
por ofertar tanta iguaria
a quem não está habituado.

Não sabem que se delicia
com um discurso adocicado
guardado na ponta da língua
pro paladar mais apurado.


24 de março de 2018

Descoberta

Tela: Intérieur, Gustave Caillebotte (1848-94)

Ao seguir o vestígio de desdita,
qualquer arremedo de Arqueologia
escava a intenção sob as vistas
na palavra que não vê luz do dia.


23 de março de 2018

Bárbaro

Tela: The Waning Honeymoon - 1878 - George Henry Boughton

Com a ajuda de um filtro
se passa, em tudo, revista.
Mas chega o dia - benquisto? -
em que uma mão enxerida
deixa o voile recolhido
e o familiar a uma vista
ganha contorno imprevisto.


21 de março de 2018

Indelével

Tela: Faaturuma (Melancholic) - 1891 - Paul Gauguin

Na mão, tem quem nos ponha
um mimo fortuito -
sem que esmolemos.

Se partem, e não retomam
ganha modos de chumbo
(mesmo volátil) com o tempo.


20 de março de 2018

Cavalheirismos

Tela: Sunset over the waves (1890), Mauritz de Haas

Quando dá a sua hora
põe seu intento oculto -
embora esteja de partida,
a onda acena num segundo.

Também, o adeus do dia
não dá margem pra susto:
o hemisfério enfim nota,
mas já é tarde pro luto.


19 de março de 2018

Arredio

Tela: Kornfeld im Mondenschein (circa 1830), Samuel Palmer

Para P. L.

Um uivo, por ele ouvido,
que era o único disposto;
um vulto, tão repentino,
porque se fez de absorto.
Um pretexto e o contíguo
já se afasta de todo -
mas nem no canto sombrio
estrela larga do posto.


29 de janeiro de 2018

Lázaros

Tela: Echo and Narcissus,
Louis-Jean-François Lagrenée (1725-1805)

A privação reserva as suas graças
só às almas que nunca se fartam:
nacos da paisagem que escapam
dos dentes da persiana mal-fechada
e a migalha, que a festim se equipara,
pra habitué de quem não dá nada.


Memorabilia 2

Tela: The Old Letters (1865), Marcus Stone

Na mente, há um museu revisitado
onde as entradas são disputadas
e lembranças vivem lustradas.
Tem ainda um depósito trancado
de coisas esquecidas, intocadas -
onde é um risco, após adentrado,
levar ao museu (mesmo ao acaso)
o que não devia ter vindo à baila.


Delicado

Tela: Cupid and Psyche (circa 1880),
John Roddam Spencer Stanhope

O amor entra pé ante pé
pra não ranger o assoalho
e o cético perceber.

Dispensa outras manhas ou arma:
acha alarmes no off
toda porta escancarada
lençol disposto na cama -

sua ação é tão esperada,
que nunca chega arrombando.


O silêncio

Tela: Lyndra by the Blue Pool, Dorset (1913), Derwent Lees

Dedo a cutucar costelas, pescoço e nuca.
Mãos que cortam o ar -
estripador sem assinatura.
O perigo está em todo lugar:
sala, cozinha e quarto,
onde chega a violar
(de luz apagada, tortura).
Qualquer coisa para contê-lo:
dose, bagulho, encontro às escuras.
A calma não faz companhia
pra quem se enche de falta:
é presença obtusa.
Ao redor, tudo cala:
motor, rojão, abelha miúda.
Só uma coisa toca
sem intervalo, regente nem partitura.
Com notas inaudíveis, porém agudas.


Ichthys

Tela: The Fisherman and the Syren (1856-58),
Frederic Leighton, 1st Baron Leighton

O peixe de que falam, ignoro.
Minha mira captura o que convém:
olhos inquietos,
escamas lanhadas,
barbatanas rudes.
Miúdos que escapam das vistas grossas,
mas que têm seu valor de mercado:
são iguarias também.
O peixe de que falam salta,
rabeia no ar, tem a carne nobre.
Eu preparo isca, anzol e vara
pra um feito de pormenores:
não fartam e me mantêm.


28 de janeiro de 2018

O santo

Tela: Standing male model Carl Frørup (1837),
Christoffer Wilhelm Eckersberg

Conheço alguém com um quê de pluma: paira sem cair.
Retém o pasmo infantil no rosto: lhe passa batido o porvir.
Sempre que o vejo, eu o toco, pra só depois prosseguir -
a hora mais abençoada do dia, a poucos segundos, cingir.


A Súdita

Imagem: Heures à l'usage de Tours (BnF Ms Lat. 1202 086r) David et Béthsabée
Autor: Anonyme, peut-être Maître de Jean Charpentier XVe siècle

Adiante de quem eu amo
vai um tapete desenrolado
e assoberbado ele passa
de segunda a sexta, reinando.

Sobre os cachos, uma coroa
na mão, rijo, um cajado
do ombro um manto se arrasta
e um cortejo o segue, adulando.

Inclinada numa sacada
qual Betsabé a Davi, entediado
me exponho (é tudo ou nada!)
mas ele protela o comando.


Disparate

Tela: The Awakening of Adonis (1899-1900),
John William Waterhouse

Quanto mais avanço, menor fica.
Quando saio do encalço, se acomprida.
Que mundo é este:
em vez de esfera, é planta lisa?
Que amor é este?
Não tem fomento, e é sem medida.


O espólio

Tela: Noli me tangere - 17th century -
Daniel Seiter or Simone Cantarini

Olhar em que me risco
e me inflamo às cinzas.
Mãos em que me desfio
até me darem por finda.
Me reduz ao que importa -
e há quem se pergunte
por que permaneço ainda!


Ligada

Foto: U.S. Department of Agriculture U.S. Forest Service/USDA

Queima o lote perto de casa -
e a vista fica embaçada.
Da janela, carros levitam
postes se partem
telhados são chapéus sem cabeça
e árvores ganham uma anágua.
O sol é ofuscado -
quem toma não se bronzeia:
sua luz desce filtrada.
Brancos assim e a tarde passa...
... Carros, postes, telhados e árvores
embarcam nessa lânguida barca.
Queima o lote: o fumo é esparso. Eu não puxo,
mas não posso evitar o barato.


23 de janeiro de 2018

Silêncio

Tela: Jeune fille au papillon, Guillaume Seignac (1870-1924)

Nas suas asas de éter
há um recado de chumbo
(qual a saúva que ergue
mais que seu peso bruto).


Página virada

Tela: Femme se promenant
- Woman Walking in an Exotic Forest
(1905), Henri Rousseau

Esquecimento é mato encristado
que tão logo cobre uma trilha
nunca mais um coração denodado
ousa achar o que descaminha.


Sans-culotte

Foto de Frédérique Voisin-Demery from Grenoble, France

O que é verdade pesa a mão:
não é cheio de dedos, se chega.
Destitui num golpe, da ilusão,
o seu quê passageiro de realeza.


A habilidade

Tela: Never Morning Wore to Evening but Some Heart Did Break (1894),
Walter Langley

Mordaz, o desdém ajusta
sem esforço dois comparsas:
uma verdade nua e crua
e o rosto coberto de lágrimas.


21 de janeiro de 2018

O sítio

Imagem: Mt Fuji Behind a Spider Net. - 19th century -
Katsushika Hokusai

O sonho é de uma trama etérea
e afinidade com uma teia, revela.
Se um revés qualquer a dilacera,
como pode - a aranha interpela -
alguém nele se assentar há eras?


Queda Livre

Tela: Der Luftballon (1926), Paul Klee

Tão sutil, sua urdidura!
Porém, se o gás falta,
depressa perdem altura
um balão e uma alma.


Na casa 33

Tela: Sovekammer - Interior (1890), Vilhelm Hammershøi

Um cabideiro antiquado
semanalmente assistia
a 2 corpos enamorados.
Como convém aos criados
discreto, o papel cumpria
de ser das roupas, amparo.

Porém, sem ser avisado,
nunca mais às tardinhas
viu juntos os corpos ávidos.
E há tempos desocupado
faz fuxico com a mobília:
"Um deles ficou saciado!".


Audaz

Tela: Moonlight (1833-4), Thomas Cole

Com fibra de luar ou sombra,
dele, nenhum forte dá conta:
toda muralha, o amor afronta.


15 de janeiro de 2018

Noite

Tela: Natt i St. Cloud - Night in Saint-Cloud (1890), Edvard Munch

Que destreza a da lua
em aumentar as agruras!
Nem o sol manipula
com clareza essa lupa.


O algoz

Tela: Kvinde ved vindue - Waiting By The Window, Carl Holsøe (1863-1935)

O silêncio usa com categoria
esta lâmina que a espera afia:
quanto mais ele se acomprida,
mais no fundo, ela se aninha.

E se incita, na vítima, a fantasia
da voz que volta e cura a ferida,
é aí que exibe sua covardia:
o improvável aumenta a agonia.


Sobre o amor

Tela: Les murmures de l'Amour (1889),
William-Adolphe Bouguereau

Nunca presa, sempre algoz -
já que a memória não captura.
Por ser sutil (mesmo atroz),
recaímos no conto da criatura.


O dono do pedaço

Tela: Saudade (Longing) - 1899 - Almeida Júnior

Ali, onde tanto se comprime
sem que o saiba, ele se posta.
O espaço em que se imprime
vai dilatando e, muito embora,
a todo o resto ser um acinte
pelejar com o que sobra -
assim, no peito, fica firme
quem confortável se demora.


10 de janeiro de 2018

O ciclo

Tela: Aske - Ashes (1895), Edvard Munch

De longe se nota no talhe:
desenvolve o rebento.
Dócil, acompanha a praxe
mesmo sendo pequeno:
nem cedo, nem mais tarde
- conforme seu tempo -
inteiro, e não pela metade
nasce o sentimento.

Se Fracos o põem à parte
e Outros dão fomento,
pra Todos (esta é a verdade)
o amor é um tormento!


O fruto

Tela: Portrait of Ramon Casas (1890s), Santiago Rusinol

Não se sabe como
num tempo oportuno
sucede o outono
no coração de muitos.

E o passante absorto
que perde o prumo
não vê que topou
num amor murcho.


6 de janeiro de 2018

A amante

Tela: Night, Auguste Raynaud (1845-1937)

Seu galanteio, senhora, é indecoroso:
se despe do manto e envolve a todos.
Oferta brilhantes, um broche de ouro,
inda faz juras de eternidade no posto.
Mas, amanhece e se veste de novo;
sai a toda, pra não ser pega por pouco -
como se o sol não manjasse o engodo.


A Estrela

Tela: Solnedgång över havet - Sunset over the sea, Per Ekström (1844-1935)

Ela não deve se estender muito:
se apronta pra tomar outro rumo.
E faz no poente seu aceno último
que mesmo esmaecido, contudo,
consola quem já está no escuro.


Refrigério

Foto de Richard Revel

Esse dente-de-leão
no caminho
ignorado no chão
- num cantinho -
cumprirá sua missão
num instantinho
ao parar numa mão
e num soprinho
apagar num coração
um tantinho
da combustão
que o toma inteirinho.


O camarote

Tela: Sunset on the Coast (between 1865 and 1866), Albert Bierstadt

Se nascentes velam o desgosto
de ter de quem parte só o dorso,
toda espera vale pro lado oposto.
Por ver de frente quem dá gosto,
o ocaso sabe: é o melhor posto.


A Verdade 2

Tela: Nuda Veritas (1899), Gustav Klimt

Desconhece a sutileza:
é abrupta, quando chega.
Nos alija da soberba
e se converte, ela mesma
numa carga de primeira:
vai conosco a vida inteira.


A Verdade

Tela: Sightless (circa 1899-1910), Jan Ciągliński

Como hóspede sem aviso de véspera
sua luz se impõe, acolhida depressa.
Uns poucos não se afetam por ela
e, desses, os anfitriões têm inveja:
os primeiros não tateiam nas trevas,
enquanto os últimos ficam às cegas.


4 de janeiro de 2018

Ocasos

Tela: Sunset on the Nile (1906), Ernst Koerner

Carpir; botar uma pedra e ele, no olvido...
Nada disso é desperdício.
Que fim, de um ritual, não é digno?
O sol encerra com pompa seu serviço.


Remédio

Tela: A Room in the Artist's Home in Strandgade, Copenhagen (1901),
Vilhelm Hammershøi

Pra quem foi dá no mesmo
se você o mantém lá fora.
Reforçar a tranca é placebo:
já se sabe que ele não retorna.