31 de março de 2017

Fujões

Tela: Day and the Dawnstar (1906), Herbert James Draper

Para 'Aliocha'

Certos amores, qual a Alvorada,
acendem, mas logo se apartam
ficam por instantes contados:
têm outras coisas pra resolver.

Outros lembram a Madrugada:
se delongam, parecem fisgados
mas também se vão, os voláteis,
se pressentem novo Amanhecer.


29 de março de 2017

Receita

Tela: Thoughts of the Past (1859), John Roddam Spencer Stanhope

Ela não anda de tamanco
não cochila no sofá retrátil
nem lugar à mesa, ocupa.

Por que vê-la em todo canto?
Correr com a Ausência é fácil:
não faça sala pra intrusa.


28 de março de 2017

Falso Testemunho

Tela: Déjà (c. 1862-64), Alfred Stevens

Ou partimos amando demasiado
ou insistimos sem querer ficar.
E o coração, de "descompassado",
nosso dedo leviano vai acusar!


27 de março de 2017

Aquecimentos

Tela: Creazione degli animali (detail) - 1551-52 - Jacopo Tintoretto
- Gallerie dell'Accademia - MIBAC (Sailko)

Se antes de uma charge incisiva
Charb brincava com os traços,
ao Se aquecer pra Suas Maravilhas
Deus passa o tempo com o Acaso?


26 de março de 2017

Impotências

Tela: Coucher de soleil, ciel orange (1910), Félix Vallotton

Se não te recebem, o que resta?
Sacudir o pó sem olhar pra atrás.
Ninguém diz "Negligente!" à Serra
se a Luz foge rente e ela nada faz.


24 de março de 2017

Psique

Tela: Head of Christ - about 1525-30 - Correggio (Antonio Allegri)

Nem todos têm suturas pra exibir,
mas qual os enfermos de Lucas
zanzam com danos a compungir.
Na Paixão, há anos se pergunta
como o corpo pôde a tanto resistir -
é que o espinho que mais machuca
a pele, nunca chega a atingir.


23 de março de 2017

Ghosting

Imagem: The Witch of Endor Raising The Spirit of Samuel
(circa 1800), William Blake

Aquele que crispa os lábios
sublima o corpo.
Não siga, de Saul, o rasto
pra não ter desgosto:
dormir na cripta é sagrado
para todo morto.


Divindades

Tela: Júpiter y Tetis (1811), Jean Auguste Dominique Ingres

Fácil conviver com dúvidas:
é tanto o que se ignora
e tão fora de mão está Deus.

Mas guardo umas perguntas
a quem daria respostas -
esse deus, tive aos pés: foi meu.


21 de março de 2017

Hospitalidade

Tela: Les quatre saisons - L'hiver (1897), Alphonse Mucha

Por que a pressa em enxotar do coração o penar?
Delicadeza com quem te visita vem a calhar:
o Outono, quando o Inverno está à porta pra entrar,
um capacho com "Bem-Vindo" - mesmo austero - põe lá.
E o Inverno, ante as borboletas e abelhas a se acercar,
reduz o volume do vento, pra rota delas, não perturbar.

Vês? A aridez bem-acolhida sabe a hora de dar o lugar!


19 de março de 2017

Crédula

Tela: At the Gate of the Temple (1898), John William Godward

Buscou um templo - não foi o primeiro -,
tirou as sandálias e bancou o custo.
Mas aquele deus regateou os meios
de tomá-la nos braços, por seu turno.


18 de março de 2017

Gravidade

Imagem: Reprodução- Internet

No amor, começamos rarefeitos,
mas (é fatal) condensamos.
E no chão - de pesar, cheios -
sempre acabam nos achando.


16 de março de 2017

O pacifista

Tela: Vase avec lilas blanc et rosés (1883), Édouard Manet

Tantas vezes derrubado -
numa dessas se alquebrou.
E mesmo assim, injuriado,
o vaso empunha uma flor!


15 de março de 2017

Despedida

Tela: La Belle Rosine (1847), Antoine Wiertz

Velar carcaça? Que tirano te obriga?
Corre, se ficou perdido!
Pagar de carpideira, não necessita:
não há recompensa pelo serviço.
Teve que ir? Tudo justifica.
Se pertence aos fundos ou mais arriba,
que parta e tá resolvido.
"Eu rezo, vai que ressuscita!" -
só o faze em memória de Cristo.
Pra outro caboclo, não te habilita.


14 de março de 2017

Suculenta

Tela: Les Nuits Arabes, Jean-Joseph Benjamin-Constant (1845-1902)

Eis que chega imensa, alaranjada.
E converte o céu numa travessa
com pontinhos de prata, incrustada.
Onde ela, qual moranga (sem a casca)
a paladares comezinhos, é ofertada:
de montes ignaros a cidades fartas.
Mas também àqueles refinados
que se deliciam da janela - só de olhá-la.
E que se o tivessem bem pertinho
(sonhar não custa nada!)
lhe proporiam - de través - um pedacinho
ali da cama - após o amor - desarrumada.


12 de março de 2017

Crepúsculo

Tela: Versinkende Sonne (Setting Sun) - 1913 - Egon Schiele

Devolva o seu 'Adeus' para o bolso:
não desperdice, do pulso, o esforço
que há algo de seu melhor pra prezar.

Mesmo que, a linha, se ponha a cruzar
ninguém carimba seu passaporte de ida:
só seu 'Olá' a paisagem saudosa valida.


10 de março de 2017

Parábola sem samaritano

Imagem: Folio 7v from the Rossano Gospels, the Good Samaritan - 6th century

Que ideia infeliz tomar aquela via
e topar, não com uma alma boa,
só com o ladrão que te despojaria
do gosto das sobremesas,
da graça das quaresmeiras roxas.


6 de março de 2017

O alvo

Tela: Venus and Mars (c. 1483), Sandro Botticelli

É uma guerra sem qualquer acalanto:
não existem despojos me aguardando
- ainda que rotos, deixados num canto.
Guerra sem vela, mas cheia de pranto:
os projéteis que o céu vão cruzando
soam inócuos - nem causam encanto.
E me apego às armas e reforços tantos
sem notar que o outro está desertando.
Mas se seguisse em campo, pelejando
e distraído exibisse o dorso e o flanco
mesmo com fogo, eu não iria alvejando,
pois ele dispõe na retaguarda de anjos.


5 de março de 2017

Homo sapiens sapiens

Imagem: A circa 1884 poster for William Shakespeare's Richard III, starring Thos. W. Keene.
(c. 1884) - Autor: W.J. Morgan & Co. Lith. of Cleveland, Ohio.

Meu reino por um relógio anti-horário
pra emendar o gesto e o vocabulário
até mesmo um som involuntário
que me fizeram alvo de escárnio!

Mas quem não tem perfil deficitário?
Quem não é tolo nem perdulário
nem traz em si um ego refratário
pra esquecer o erro crasso ou ordinário?


1 de março de 2017

A stripper

Tela: La Nuit (1883), William-Adolphe Bouguereau

Se te der, qualquer dia, na veneta
manter por horas erguida a cabeça
verás, da manhã, a delicadeza
em devagarinho se mostrar inteira:
tornozelos, ancas e tetas
até chegar à insinuante cabeleira,
que ela solta por volta das 6 e meia,
devidamente ornada (por ela mesma)
com um diadema irresistível de estrelas.


Limbo

Tela: Quai a la Seinie, Paris, au Clair de Lune (1898), Frank Boggs

Fim de tarde, uma nuvem apressada
corre do escuro.
Em vão, porque o breu não tarda
em vestir tudo de luto.
Embaixo a cidade, de velas ligadas,
compõe o fundo.
E a nuvem paira, qual alma penada,
presa nesse mundo.