27 de dezembro de 2017

Bruxuleante

Tela: Pokój (1908), Konrad Krzyżanowski - Fonte: Ablakok

Enquanto fica por cima
e embaixo a parafina chora,
a chama não imagina
que baila sobre a sua cova.


Os Ponteiros

Tela: Antiquitätenstillleben mit Kaminuhr, Josef Schuster (1873-1945)

Essas mãos miúdas
de cautela, cheias
pouco a pouco furtam
outra hora inteira
sob vistas múltiplas.


Prevenção

Foto de Brunhilde Reinig

À hora do lusco-fusco,
cerre bem a cortina.
Embora a muito custo,
se furte desta iguaria:
na prova, vicia um fruto
chamado melancolia.


Descomedida

Foto de Oren Rozen

Nas inflorescências caídas,
vê-se: a Primavera erra a mão.
Até copa frondosa vacila
com os excessos da paixão.


26 de dezembro de 2017

O mágico

Imagem: Passing a coin through sleeve trick by
the magician Will Goldston (1920)

A mágoa some de vista,
embora num truque lento.
Ah, que manga propícia
é essa do esquecimento!


Ato falho

Imagem: Iesus dormiens in media tempestate (Calming the storm)
- 11th century - Autor: Unknown, from the Middle Ages

Quando a pálpebra pesa
sobre a vontade excelsa,
um gesto súbito revela
do Absoluto, a face vera.


21 de dezembro de 2017

Crepúsculos

Foto de User:Jean-Jacques MILAN/Photo misc2

A cartela de quando partem
é mais rica em tonalidades
que a do instante do enlace.
Pra aumentar as saudades,
o dia capricha no arremate.


Penitentes

Foto de George Hodan

Em compasso de espera
pelo Céu que se acerca
rosa alguma se exaspera
pelo cilício em volta dela,
mas no leito só de pedra
que rio tira uma soneca?


Pela calada

Foto de Ewald Gabardi

Num ponto obscuro aferrada
distante e ensimesmada
a julgam perdida, sendo levada.
Mas à tardinha saiu de casa
com uma rota bem-pensada
que segue à risca, aplicada.
E quando vem a alvorada
quem parecia "não querer nada"
cruza uma linha de chegada.


Perspectivas

Tela: Høstaften ved Hjortekæret, Jægersborg Dyrehave
(1888), August Andreas Jerndorff

Se para alguns ela paira
a noite toda sem pausa
outros tantos reparam:
em rios, lagos ou praias
tão logo voa, já pousa -
a lua é garça prostrada.


20 de dezembro de 2017

Memorabilia

Tela: Recalling the Past (1888), Carlton Alfred Smith

Como condenar o escaravelho,
arrastando o que não presta,
se o que passou nós agarramos?
(Pra onde vai, a gente leva.)


Estrelas

Tela: Noc gwiaździsta (1888), Józef Marian Chełmoński

Rezo à noite:
milhares de olhos se apiedam do que é ruim.
Como lenços da boca do mágico,
minha ladainha se desenrola sem fim.
Ternos olhinhos cansados:
recolhem tudo e ainda piscam pra mim!


18 de dezembro de 2017

Nudez

Foto de Marina Shemesh

Durante a chuva, a janela
ganha fino traje de festa.
Quando acaba, um a um,
os cristais se desfazem,
deixando a janela rota
e a paisagem a descoberto.


Cio

Tela: Lost (1886), Frederick McCubbin

Hoje cruzei com um cãozinho
que corria com tanta decisão,
que eu (animalzinho perdido)
me pus atrás dele -
atiçada pelo senso de direção.


Abnegada

Tela: Charity (1878), William-Adolphe Bouguereau

Meu colo vazio não é seco:
minha fecundidade é absurda.
Eu só antecipo a perda,
abrindo mão logo de tudo.


16 de dezembro de 2017

Área Restrita

Imagem: On the Beach -- Two Are Company, Three Are None,
a wood engraving drawn by Winslow Homer and
published in Harper's Weekly, August 17, 1872

Quatro câmaras
Dois átrios
- tanto espaço! -
e eu não posso morar
em nenhum pedaço.


Amor no início, lençol no varal, barco no rio

Foto de Michael Gäbler

Ao gosto da enchente
este vai à deriva.

Ao sabor da corrente
aquele torce e se vira.

Sem o que o enfrente
o primeiro não vinga.


Braços Cruzados

Foto de RuB (Ruddy BENEZET)

Encosto a enxada e a pá:
na aurora ou ocaso
o terreno, é inútil sulcar.

As mãos descansam por ora:
não lavoro,
mas também não vou mendigar.

O que eu quero irrompe a sua hora:
paina que salta do galho
e pousa depois de-vagar.


Efeitos

Tela: Der Häuserbogen II („Inselstadt”) //
Crescent of Houses II (Island Town) - 1915 - Egon Schiele

Nos telhados, o ardor do dia.
Como algumas cabeças, fervilham.
O que vai dentro purifica, endurece ou amacia?
Tanta coisa, em brasa, outra coisa vira.
O homem, não:
só se encharca e se amofina.


15 de dezembro de 2017

A Colheita

Foto de Roman Eisele

Para alguns frutos, chega no outono o rebento:
acontece quando estão secos e, abatidos,
rolam de um lado a outro, sem alento.
É nessa hora que um menino
- desses que catam coisas no cimento -
os recolhe, os leva pra casa (umas cascas velhas!)
e os guarda em sua caixinha de tesouros,
cheio de encantamento.


14 de dezembro de 2017

A mão bruta

Tela: Penelope (1864), John Roddam Spencer Stanhope

Ame o fruto que a árvore te oferta, gratuito:
tem o desejo de ser violado, patente.
Se tua mão não for leve (infortúnio!)
chega o tempo com a dele, bruta
e o que não era pra tomar friamente
ele tasca no chão e macula.


11 de dezembro de 2017

Deuses

Imagem: Illustration by Harry Furniss in Sylvie and Bruno (1889) by Lewis Carroll

Voava aqui um besouro onipotente
grande e de zumbido insistente
que me acuou e fez gritar prontamente.
Nenhum de nós, porém, tinha em mente
que esperava ali, mais à frente,
a inversão dos papéis de repente:
assim que pousou ao chão rente,
foi-se o ar altivo (ou equivalente)
e sem tempo de estarmos ciente
- num olho por olho, dente por dente -
pela casca, o nivelei para sempre.


10 de dezembro de 2017

À noite

Tela: Moonlight (1893), Edvard Munch

Quem pensa que tudo silencia
é porque não prestou atenção.

O dia reserva a algaravia
pra hora da escuridão.

Grilos e feras principiam
esse agudo refrão.

Nas almas não redimidas
ressoa grave, um senão.

Só a hora matutina
rearranja a composição.

Até lá, um solo sentencia:
os que velam não escaparão.


7 de dezembro de 2017

Efeitos

Tela: La Petite Mendiante (1880), William-Adolphe Bouguereau

Para P. L.

Não subestime a tua oferta:
é um prodígio o que ela faz.

O luar que entra pela fresta
um quarto, pode iluminar.

Uma gota pra alma repleta
e tudo põe-se a transbordar.

5 pães e 2 peixes na mão certa:
bocas se fartam e deixam sobrar.


5 de dezembro de 2017

Comprimido

Tela: The Lady of Shalott (1888), John William Waterhouse

Tão exíguo, mal se distingue
o que enche a alma de vida!
(Quem entende o coração?)

Basta o relance do ser insigne
para aquela que ia à deriva
enfim encontrar o seu chão.


4 de dezembro de 2017

A Lição

Tela: Las horas tristas (The sad hours)
- circa 1900 - Ramon Casas i Carbó

Chora às escondidas
quem, afoita, apossa
de sua pérola mais fina
ao que não se importa.

Qualquer ostra ensina
esta lição preciosa:
só aquele que se digna
alcança a sua joia.


3 de dezembro de 2017

A Emoção

Tela: Nocturne (1887), Eilif Peterssen

Nem sempre vem à luz e só quem a leva
tem a justa noção da grandeza dela.
Não ser qual um lago, a mim, exaspera
pois à vista de todos, a lua, ele gesta.


2 de dezembro de 2017

Trincheira

Tela: Blow Blow Thou Winter Wind (1892), John Everett Millais

Preserva-a assim, deserta:
ao que se impõe de todo jeito,
boa estratégia é sucumbir.

Se o frio invade, é coisa certa
que tomará do hall ao leito -
e vai passar, quando convir.


28 de novembro de 2017

Desencanto

Tela: At the Window (sempstress at the window) - 1890 - Fritz von Uhde

Como a Terra que, na altura da aurora,
já distingue com alguma precisão
a serra do mar; o mar do firmamento
e uma planície do despenhadeiro,

num dia, desperta e cala suas cordas
- como as palmas - a toda expressão
e só um dorso é seu oferecimento
a quem, ávida, se achega do parapeito.


27 de novembro de 2017

O devoto

Tela: The lovers (by 1909), William Powell Frith

Ela toma suas oferendas por coisa fina
ou como algas à deriva em alto-mar?
Os olhos de quem oferta ficam cinzas
- não distinguem - e se põem a imaginar
as pernas da divindade em dança aflita
tentando, de cada uma, se desvencilhar.


26 de novembro de 2017

Bandeira

Tela: La vieille histoire, John William Godward (1861-1922)

Lapidá-la a toda hora
se tornou prioridade
de uma dona bem ciosa
que, se foge do alarde,
não ofusca a sua joia
de quem nela teve parte.


24 de novembro de 2017

Familiaridade

Tela: Windflowers (or Windswept) - 1903 -
John William Waterhouse

Nem meia relva ruboriza
com o calor daquela Estrela.
Há muito, a rosa já não liga
pro sereno e suas prendas.
O pomar pouco suspira
com os afagos na colheita.

Mas com essa ventania
que de longe aqui chega
muda e broto se ouriçam,
mexe tudo o que viceja:
a folhagem, retraída,
em dois tempos já solfeja!


22 de novembro de 2017

A expectativa

Tela: The Day Dream (1880), Dante Gabriel Rossetti

A semente desconhecida
oculta N possibilidades.
Encorajada, num dia,
mostra a que veio na verdade.
Se decifrasse no que daria,
não tinha feito minha parte:
a inflorescência mais rica
não vem à luz na realidade!


21 de novembro de 2017

A nova perspectiva

Tela: L'Amour et Psych (1899),
William-Adolphe Bouguereau

Se o amor toma de assalto
uma criatura,
põe suas plantas ao alto
das conjunturas
e sua ventura a salvo
nas coisas miúdas.


20 de novembro de 2017

A estima

Tela: The Yellow Sands (1888), John Reinhard Weguelin

Não creia de pouca monta
o que se ergue, e não persevera.

Pra areia, o afago da onda
mesmo de leve, é coisa séria.


16 de novembro de 2017

Desamor

Tela: Cephalus and Aurora, Nicolas Poussin (1594-1665)

Foi posto ali à sua revelia:
de um lado a outro ia
sem se ajeitar. Grunhia.
E no grunhido a crítica
aos compartimentos, à vista:
numa câmara, não se estendia
nem uma hora seguida;
os átrios (áreas compridas)
nunca o satisfaziam.
Natural terem acenado, um dia,
na sua despedida:
não deixa vazio, quem contabiliza
os minutos pra partida.


13 de novembro de 2017

Carpe diem

Foto de dan carlson dan_carl5on

Sem ter como sair dali, aquela poça
põe-se a desfrutar do aqui e agora:
sacia o gato e também uma corça,
ganha beijo da lua cheia e da nova
e a carícia de uma pipa tarde afora.

Até que, de tanto entrarem de sola,
(nem tudo é sarro nessa história)
vai se desfazendo e, numa hora,
qual na Assunção de Nossa Senhora
o que resta de si, no fim, evapora.


10 de novembro de 2017

Sintonia

Tela: Untitled (moon over a harbor, wharf scene with full moon and masts of boats)
- circa 1868 -
Edward Mitchell Bannister

Harmonia entre amigos
ou prelúdio de um beijo?
Afinam-se, lua e rio
num obscuro minueto.


9 de novembro de 2017

Sentimento

Tela: Familjeidyll (1923), Nils Dardel

Robusto rebento
nutrido de tudo -
exceto o silêncio
senão fica murcho.


8 de novembro de 2017

Oxalá

Tela: Loves Daydream End (circa 1880), Marcus Stone

Pegava meu despacho
e devolvia sentimento -
pudera ser tão prático,
acender algo aí dentro.


7 de novembro de 2017

Sine qua non

Tela: Roses in a Glass Vase (about 1919), Édouard Vuillard

Inato, o amor é um volume
que toda gente leva consigo.

Rosa tem sempre perfume,
indiferente a alvo específico.


6 de novembro de 2017

Invídia

Tela: Amore e Psiche (1707-9), Giuseppe Maria Crespi

A ninguém, dá parte
da tua dádiva.
Vai que te persuadem:
"É uma migalha!".

E pode bem ser tarde
após enjeitá-la
perceber seu quilate
e, então, a cilada.


4 de novembro de 2017

A melhor parte

Tela: Mars and Venus Surprised by the Gods
- between circa 1606 and circa 1610 -
Joachim Wtewael

De fora, uns dão suporte
ao que não se deixa subjugar.
Ser rei, ser sol, ser norte:
por ambição, controlar.

Dentro, outro é o enfoque:
delícia mesmo é se sujeitar.
Sob a tirania de um forte
(o Amor), é só me deixar levar!


2 de novembro de 2017

Pessimismo

Tela: Idealized Portrait of a Courtesan as Flora
traditionally assumed to be Lucrezia Borgia
- first third of the 16th century, probably ~1520s -
Bartolomeo Veneto

Vai no encalço da Primavera
com o coração pedindo cautela:
já intui o Inverno de véspera
que amá-la é antecipar uma festa,
e ser barrado às portas dela.


1 de novembro de 2017

Causa Perdida

Tela: Jason swearing eternal affection to Medea (1742),
Jean-François de Troy

Contra o réu, ampla objeção,
mas desista da apelação:
é suspeita a magistratura.

Amar é o tribunal de antemão
garantir a absolvição
pois toda falta, desculpa.


30 de outubro de 2017

Fleumática

Tela: Statue in the Park of Versailles, Giovanni Boldini (1842-1931)

Se flores dispersas pelo outono
perecem à sua frente, pelo chão
ou se uns pombos revoltos
lhe pousam na palma das mãos,
a estátua solene dá de ombros:
tá no sangue não ter comoção.

Se ganhasse vida num sopro,
tão visceral é sua disposição,
que pra não ver alguém disposto
a demovê-la dessa condição
um musgo discreto no rosto
seria, pra ela, perfeita alegação.


29 de outubro de 2017

Não correspondido

Tela: Echo and Narcissus (1903), John William Waterhouse

São 4 mãos pra trazer lenha,
e só 2 lábios se empenham
em soprar de leve a brasa
pra não deixá-la se apagar:
é um amor de luz tão fraca,
mas bem capaz de alumiar!


28 de outubro de 2017

Amorosa

Tela: Moonlight Over the Coast, Lionel Walden (1861-1933)

Que a solidão lhe foi imposta
há tantas eras, quem discorda?
Mas a chama "só" quem ignora
que a mesma lua está disposta
a tratar com mar ou uma poça.


25 de outubro de 2017

Soberba

Tela: Gotische Kirche bei Mondenschein (ca. 1840), Carl Gustav Carus

Pra uns, é tudo ou nada:
todo o resto são migalhas.
O que me deixa estupefata:
se à noite há por dádiva
aquela lua prateada
devemos todos recusá-la
só porque sua luz é parca?


24 de outubro de 2017

Hermenêutica

Tela: Sunset, Deer and River (1868), Albert Bierstadt

Um gesto lhano, tão claro
e há quem ainda, não raro,
distende o seu significado
como o sol com seus raios -
até se esgarçar no ocaso.