10 de dezembro de 2017

Noite

Tela: Moonlight (1893), Edvard Munch

Quem pensa que tudo silencia
é porque não prestou atenção.

O dia reserva a algaravia
pra hora da escuridão.

Grilos e feras principiam
seu agudo refrão.

Nas almas não redimidas
ressoa grave, um senão.

Só a hora matutina
rearranja a composição.

Até lá, um solo sentencia:
os que velam não escaparão.


7 de dezembro de 2017

Efeitos

Tela: La Petite Mendiante (1880), William-Adolphe Bouguereau

Para P. L.

Não subestime a tua oferta:
é um prodígio o que ela faz.

O luar que entra pela fresta
um quarto, pode iluminar.

Uma gota pra alma repleta
e tudo põe-se a transbordar.

5 pães e 2 peixes na mão certa:
bocas se fartam e deixam sobrar.


5 de dezembro de 2017

Comprimido

Tela: The Lady of Shalott (1888), John William Waterhouse

Tão exíguo, mal se distingue
o que enche a alma de vida!
(Quem entende o coração?)

Basta o relance do ser insigne
para aquela que ia à deriva
enfim encontrar o seu chão.


4 de dezembro de 2017

A Lição

Tela: Las horas tristas (The sad hours)
- circa 1900 - Ramon Casas i Carbó

Chora às escondidas
a que, afoita, apossa
de sua pérola mais fina
ao que não se importa.

Qualquer ostra ensina
esta lição preciosa:
só aquele que se digna
alcança a sua joia.


3 de dezembro de 2017

A Emoção

Tela: Nocturne (1887), Eilif Peterssen

Nem sempre vem à luz e só quem a leva
tem a justa noção da grandeza dela.
Não ser qual um lago, a mim, exaspera
pois à vista de todos, a lua, ele gesta.


2 de dezembro de 2017

Trincheira

Tela: Blow Blow Thou Winter Wind (1892), John Everett Millais

Preserva-a assim, deserta:
ao que se impõe de todo jeito,
boa estratégia é sucumbir.

Se o frio invade, é coisa certa
que tomará do hall ao leito -
e vai passar, quando convir.


28 de novembro de 2017

Desencanto

Tela: At the Window (sempstress at the window) - 1890 - Fritz von Uhde

Como a Terra que, na altura da aurora,
já distingue com alguma precisão
a serra do mar; o mar do firmamento
e uma planície do despenhadeiro,

num dia, desperta e cala suas cordas
- como as palmas - a toda expressão
e só um dorso é seu oferecimento
a quem, ávida, se achega do parapeito.


27 de novembro de 2017

O devoto

Tela: The lovers (by 1909), William Powell Frith

Ela toma suas oferendas por coisa fina
ou como algas à deriva em alto-mar?
Os olhos de quem oferta ficam cinzas
- não distinguem - e se põem a imaginar
as pernas da divindade em dança aflita
tentando, de cada uma, se desvencilhar.


26 de novembro de 2017

Bandeira

Tela: La vieille histoire, John William Godward (1861-1922)

Lapidá-la a toda hora
se tornou prioridade
de uma dona bem ciosa
que, se foge do alarde,
não ofusca a sua joia
de quem nela teve parte.


24 de novembro de 2017

Familiaridade

Tela: Windflowers (or Windswept) - 1903 -
John William Waterhouse

Nem meia relva ruboriza
com o calor daquela Estrela.
Há muito, a rosa não liga
pro sereno e suas prendas.
O pomar pouco suspira
com os afagos na colheita.

Mas com essa ventania
que de longe aqui chega
muda e broto se ouriçam,
mexe tudo o que viceja:
a folhagem, retraída,
em dois tempos já solfeja!


22 de novembro de 2017

A expectativa

Tela: The Day Dream (1880), Dante Gabriel Rossetti

A semente desconhecida
oculta N possibilidades.
Encorajada, num dia,
mostra a que veio na verdade.
Se decifrasse no que daria,
não tinha feito minha parte:
a inflorescência mais rica
não vem à luz na realidade!


21 de novembro de 2017

A nova perspectiva

Tela: L'Amour et Psych (1899),
William-Adolphe Bouguereau

Se o amor toma de assalto
uma criatura,
põe suas plantas ao alto
das conjunturas
e sua ventura a salvo
nas coisas miúdas.


20 de novembro de 2017

A estima

Tela: The Yellow Sands (1888), John Reinhard Weguelin

Não creia de pouca monta
o que se ergue, e não persevera.

Pra areia, o afago da onda
mesmo de leve, é coisa séria.


16 de novembro de 2017

Desamor

Tela: Cephalus and Aurora, Nicolas Poussin (1594-1665)

Foi posto ali à sua revelia:
de um lado a outro ia
sem se ajeitar. Grunhia.
E no grunhido a crítica
aos compartimentos, à vista:
numa câmara, não se estendia
nem uma hora seguida;
os átrios (áreas compridas)
nunca o satisfaziam.
Natural ter acenado, um dia,
na sua despedida:
não deixa vazio quem contabiliza
os minutos pra partida.


13 de novembro de 2017

Carpe diem

Foto de dan carlson dan_carl5on

Sem ter como sair dali, aquela poça
põe-se a desfrutar do aqui e agora:
sacia o gato e também uma corça,
ganha beijo da lua cheia e da nova
e a carícia de uma pipa tarde afora.

Até que, de tanto entrarem de sola,
(nem tudo é sarro nessa história)
vai se desfazendo e, numa hora,
qual na Assunção de Nossa Senhora
o que resta de si, no fim, evapora.


10 de novembro de 2017

Sintonia

Tela: Untitled (moon over a harbor, wharf scene with full moon and masts of boats)
- circa 1868 -
Edward Mitchell Bannister

Harmonia entre amigos
ou prelúdio de um beijo?
Afinam-se, lua e rio
num obscuro minueto.


9 de novembro de 2017

Sentimento

Tela: Familjeidyll (1923), Nils Dardel

Robusto rebento
nutrido de tudo -
exceto o silêncio
senão fica murcho.


8 de novembro de 2017

Oxalá

Tela: Loves Daydream End (circa 1880), Marcus Stone

Pegava meu despacho
e devolvia sentimento -
pudera ser tão prático,
acender algo aí dentro.


7 de novembro de 2017

Sine qua non

Tela: Roses in a Glass Vase (about 1919), Édouard Vuillard

Inato, o amor é um volume
que toda gente leva consigo.

Rosa tem sempre perfume,
indiferente a alvo específico.


6 de novembro de 2017

Invídia

Tela: Amore e Psiche (1707-9), Giuseppe Maria Crespi

A ninguém, dá parte
da tua dádiva.
Vai que te persuadem:
"É uma migalha!".

E pode bem ser tarde
após enjeitá-la
perceber seu quilate
e, então, a cilada.


4 de novembro de 2017

A melhor parte

Tela: Mars and Venus Surprised by the Gods
- between circa 1606 and circa 1610 -
Joachim Wtewael

De fora, uns dão suporte
ao que não se deixa subjugar.
Ser rei, ser sol, ser norte:
por ambição, controlar.

Dentro, outro é o enfoque:
delícia mesmo é se sujeitar.
Sob a tirania de um forte
(o Amor), é só me deixar levar!


2 de novembro de 2017

Pessimismo

Tela: Idealized Portrait of a Courtesan as Flora
traditionally assumed to be Lucrezia Borgia
- first third of the 16th century, probably ~1520s -
Bartolomeo Veneto

Vai no encalço da Primavera
com o coração pedindo cautela:
já intui o Inverno de véspera
que amá-la é antecipar uma festa,
e ser barrado às portas dela.


1 de novembro de 2017

Causa Perdida

Tela: Jason swearing eternal affection to Medea (1742),
Jean-François de Troy

Contra o réu, ampla objeção,
mas desista da apelação:
é suspeita a magistratura.

Amar é o tribunal de antemão
garantir a absolvição
pois toda falta, desculpa.


30 de outubro de 2017

Fleumática

Tela: Statue in the Park of Versailles, Giovanni Boldini (1842-1931)

Se flores dispersas pelo outono
perecem à sua frente, pelo chão
ou se alguns pombos revoltos
lhe pousam na palma das mãos,
a estátua solene dá de ombros:
está no sangue não ter comoção.

Se ganhasse vida num sopro,
tão visceral é sua disposição,
que pra não ver alguém disposto
a demovê-la dessa condição
um musgo discreto no rosto
seria, pra ela, perfeita alegação.


29 de outubro de 2017

Não correspondido

Tela: Echo and Narcissus (1903), John William Waterhouse

São 4 mãos pra trazer lenha,
e só 2 lábios se empenham
em soprar de leve a brasa
pra não deixá-la se apagar:
é um amor de luz tão fraca,
mas bem capaz de alumiar!


28 de outubro de 2017

Amorosa

Tela: Moonlight Over the Coast, Lionel Walden (1861-1933)

Que a solidão lhe foi imposta
há tantas eras, quem discorda?
Mas a chama "só" quem ignora
que a mesma lua está disposta
a tratar com mar ou uma poça.


25 de outubro de 2017

Soberba

Tela: Gotische Kirche bei Mondenschein (ca. 1840), Carl Gustav Carus

Pra uns, é tudo ou nada:
todo o resto são migalhas.
O que me deixa estupefata:
se à noite há por dádiva
aquela lua prateada
devemos todos recusá-la
só porque sua luz é parca?


24 de outubro de 2017

Hermenêutica

Tela: Sunset, Deer and River (1868), Albert Bierstadt

Um gesto lhano, tão claro
e há quem ainda, não raro,
distende o seu significado
como o sol com seus raios -
até se esgarçar no ocaso.


Incógnita

Tela: Die Säerinnen (1915), Luplau Janssen

Por razão que se ignora
uma semente não acata
os ditames do agricultor.

Por vezes Pítias aflora
numa natureza amada
onde Eros, se cultivou.


20 de outubro de 2017

Intimidade

Tela: Nachglühen am ägyptischen Abendhimmel
(before 1927), Ernst Koerner

Às vezes, quando se avizinha,
é que mais longe vai ficando.
A montanha, no final do dia,
desconfia do sol se acercando.


15 de outubro de 2017

A dúvida

Tela: The Combat of Love and Chastity - probably 1475-1500 -
Gherardo di Giovanni del Fora

Tateei com todo o desvelo
um coração, a mim, alheio
e, por fim, me pus lá dentro
por um acesso tão pequeno
que não nota, o olhar atento.

Era bem fino - nada espesso -
e tão fugidio, aquele extremo
que, de inquirir, me dá ensejo:
se onde estou, eu reconheço,
será que o transpus mesmo?


9 de outubro de 2017

Impávida

Tela: Mond über dem Wasser, Fritz Grebe (1850-1924)

Para P. L.

Quantos se põem em risco
de se render como a lua
que dá de ombros se, no rio,
noutra coisa se desfigura?


7 de outubro de 2017

Vicissitudes

Tela: I juni måned - In the Month of June (1899),
Laurits Andersen Ring

A montanha é reconhecível
só porque ainda habita
o mesmo lugar.

Um sopro e tudo é suscetível
- dente-de-leão; uma vida -
a se desalinhar.


5 de outubro de 2017

No ar

Tela: Kites (1913), Bertha Boynton Lum

Promessas são belas pipas
e uma vez oferecidas
elas pairam bem acima.
A alguns, todas animam,
mas são logo recolhidas.
De outros, não se saberia
dizer se as empinam
ou se são elas quem os guia
às vezes, por toda a vida.


2 de outubro de 2017

Consolo

Tela: Summer Night (1886), Eilif Peterssen

Para P. L.

Incapaz de sentir o seu peso,
a lua não passa de uma visão.
Contudo o lago não tem pejo:
ao menos isso, retém em mão.


29 de setembro de 2017

A estrutura

Imagem: Monkey catching reflection of the Moon
(1926), Ohara Koson

Ser de éter é, da quimera,
a grandeza e a perdição.
Se ganha as altas esferas
e fica longe de um senão;
desfaz-se logo que, nela,
os fatos dão um cutucão.


25 de setembro de 2017

Tentação

Tela: Die Versuchung (before 1945), Hans Zatzka

A porta entreaberta
não é descuido,
mas convite a entrar.

Aceito, sem cautela,
por resolutos
e as correntes de ar.


22 de setembro de 2017

A resistência

Tela: Les saintes femmes au tombeau - The Three Marys at the Tomb
(1876), William-Adolphe Bouguereau

Quem sai de cena na certa
deixa um vazio perpétuo
que contudo não exaspera.

Cultiva no peito, a terra
não obstante o inverno
disposição pra primavera.


21 de setembro de 2017

Silêncio

Tela: Married (1896), Walter Dendy Sadler

Dos muros já erguidos,
faz-se o mais eficiente:
é tênue, sem granito,
e isola 2 solenemente.


20 de setembro de 2017

Recados

Tela: Die schwimmende Arche Noahs
- between 1350 and 1375 - Anonymous (Meister 1)

Assegura-se, num bom arrimo,
a eloquência da mensagem:
um ramo no bico, estiagem
um coro de anjinhos, natividade
mas em poucas coisas me fio
como no silêncio da contraparte.


19 de setembro de 2017

Frívola

Tela: Mädchen am Strand (1820), Max Nonnenbruch

Distendi meus tentáculos,
e não consegui tocá-la:
tua alma sem porquê claro
de ponta a ponta, vaga.


18 de setembro de 2017

Danos

Tela: Old History (1892), Alexander Jakesch

Desengano é a ruína
- assim que sucedida -
de uma afeição decidida.

Descaso é uma avaria
só aos poucos percebida
pela alma, de amor, perdida.


15 de setembro de 2017

O Mago

Tela: Nordic summer's evening (1899-1900), Richard Bergh

Cumprindo uma vocação,
o olhar às vezes reconfigura:
aquela nuvem, um esturjão;
migalhas, nutrição
e num feito de envergadura
nossa distância, diminuta.


14 de setembro de 2017

Intuitos

Tela: Preparing for the Matinee (1907), Edmund Charles Tarbell

Uma alma se afadiga em retoques
pelo lampejo do que quer muito.
Como cego não liga pra berloques
o esmero da paisagem é gratuito.


13 de setembro de 2017

Desfecho

Tela: At the door (1901), Albert Edelfelt

A porta que ao partir batem
- sem sequer olhar pra trás -
como um féretro, ela soa.

Se voltam, que não reparem:
pra quem ficou, tanto faz
se são espectros ou pessoas.


11 de setembro de 2017

Intermitente

Tela: Petites Mendiantes (1880), William-Adolphe Bouguereau

Para P. L.

Há quem seja caridoso
com aceno ou sorriso:
se vêm pro meu bolso,
mais um dia sobrevivo.

Dá-se assim, generoso,
e mesmo sem o risco
de se ver só com pouco
tantas vezes é omisso!


10 de setembro de 2017

Eficaz

Imagem: Médée (1898), Alphonse Mucha

Que o pasmo rouba as palavras
é amplamente alarmado.
E o desenganado, quando cala,
a elegia vem embalá-lo.
Porém como o desprezo, nada
pra cerrar bem os lábios.


Quase

Tela: Träumerei (1900), Oreste Pizio

Para P. L.

Se lhe ficasse evidente
que nos dedos enrosca
cada fio que me anima,
que bom deus não daria:
além de ser onipotente,
tão pouco ele se mostra!


9 de setembro de 2017

Delicadeza

Tela: Sunset on the Plains (1887), Albert Biertadt

O sol nunca sai à francesa:
já com as asas sem firmeza
sem saltar um ser que seja
nos afaga a crista e as penas
(no escuro, mais extensas)
então pousa em outra cena.


8 de setembro de 2017

Alegria

Tela: Miranda - The Tempest (1916), John William Waterhouse

Nem sempre é compatriota:
pra muitos, alheia e bárbara,
ela pertence a outro porto.

Quem dera um aceno à porta!
(Sem clima pra hospedá-la,
sonhar que entra, não ouso.)