15 de outubro de 2017

A dúvida

Tela: The Combat of Love and Chastity - probably 1475-1500 -
Gherardo di Giovanni del Fora

Tateei com todo o desvelo
um coração, a mim, alheio
e, por fim, me pus lá dentro
por um acesso tão pequeno
que não nota, o olhar atento.

Era bem fino - nada espesso -
e tão fugidio, aquele extremo
que, de inquirir, me dá ensejo:
se onde estou, eu reconheço,
será que o transpus mesmo?


9 de outubro de 2017

Impávida

Tela: Mond über dem Wasser, Fritz Grebe (1850-1924)

Para P. L.

Quantos se põem em risco
de se render como a lua
que dá de ombros se, no rio,
noutra coisa se desfigura?


7 de outubro de 2017

Vicissitudes

Tela: I juni måned - In the Month of June (1899),
Laurits Andersen Ring

A montanha é reconhecível
só porque ainda habita
o mesmo lugar.

Um sopro e tudo é suscetível
- dente-de-leão; uma vida -
a se desalinhar.


5 de outubro de 2017

No ar

Tela: Kites (1913), Bertha Boynton Lum

Promessas são belas pipas
e uma vez oferecidas
elas pairam bem acima.
A alguns, todas animam,
mas são logo recolhidas.
De outros, não se saberia
dizer se as empinam
ou se são elas quem os guia
às vezes, por toda a vida.


2 de outubro de 2017

Consolo

Tela: Summer Night (1886), Eilif Peterssen

Para P. L.

Incapaz de sentir o seu peso,
a lua não passa de uma visão.
Contudo o lago não tem pejo:
ao menos isso, retém em mão.


29 de setembro de 2017

A estrutura

Imagem: Monkey catching reflection of the Moon
(1926), Ohara Koson

Ser de éter é, da quimera,
a grandeza e a perdição.
Se ganha as altas esferas
e fica longe de um senão;
desfaz-se logo que, nela,
os fatos dão um cutucão.


25 de setembro de 2017

Tentação

Tela: Die Versuchung (before 1945), Hans Zatzka

A porta entreaberta
não é descuido,
mas convite a entrar.

Aceito, sem cautela,
por resolutos
e as correntes de ar.


22 de setembro de 2017

A resistência

Tela: Les saintes femmes au tombeau - The Three Marys at the Tomb
(1876), William-Adolphe Bouguereau

Quem sai de cena na certa
deixa um vazio perpétuo
que contudo não exaspera.

Cultiva no peito, a terra
não obstante o inverno
disposição pra primavera.


21 de setembro de 2017

Silêncio

Tela: Married (1896), Walter Dendy Sadler

Dos muros já erguidos,
faz-se o mais eficiente:
é tênue, sem granito,
e isola 2 solenemente.


20 de setembro de 2017

Recados

Tela: Die schwimmende Arche Noahs
- between 1350 and 1375 - Anonymous (Meister 1)

Assegura-se, num bom arrimo,
a eloquência da mensagem:
um ramo no bico, estiagem
um coro de anjinhos, natividade
mas em poucas coisas me fio
como no silêncio da contraparte.


19 de setembro de 2017

Frívola

Tela: Mädchen am Strand (1820), Max Nonnenbruch

Distendi meus tentáculos,
e não consegui tocá-la:
tua alma sem porquê claro
de ponta a ponta, vaga.


18 de setembro de 2017

Danos

Tela: Old History (1892), Alexander Jakesch

Desengano é a ruína
- assim que sucedida -
de uma afeição decidida.

Descaso é uma avaria
só aos poucos percebida
pela alma, de amor, perdida.


15 de setembro de 2017

O Mago

Tela: Nordic summer's evening (1899-1900), Richard Bergh

Cumprindo uma vocação,
o olhar às vezes reconfigura:
aquela nuvem, um esturjão;
migalhas, nutrição
e num feito de envergadura
nossa distância, diminuta.


14 de setembro de 2017

Intuitos

Tela: Preparing for the Matinee (1907), Edmund Charles Tarbell

Uma alma se afadiga em retoques
pelo lampejo do que quer muito.
Como cego não liga pra berloques
o esmero da paisagem é gratuito.


13 de setembro de 2017

Desfecho

Tela: At the door (1901), Albert Edelfelt

A porta que ao partir batem
- sem sequer olhar pra trás -
como um féretro, ela soa.

Se voltam, que não reparem:
pra quem ficou, tanto faz
se são espectros ou pessoas.


11 de setembro de 2017

Intermitente

Tela: Petites Mendiantes (1880), William-Adolphe Bouguereau

Para P. L.

Há quem seja caridoso
com aceno ou sorriso:
se vêm pro meu bolso,
mais um dia sobrevivo.

Dá-se assim, generoso,
e mesmo sem o risco
de se ver só com pouco
tantas vezes é omisso!


10 de setembro de 2017

Eficaz

Imagem: Médée (1898), Alphonse Mucha

Que o pasmo rouba as palavras
é amplamente alarmado.
E o desenganado, quando cala,
a elegia vem embalá-lo.
Porém como o desprezo, nada
pra cerrar bem os lábios.


Quase

Tela: Träumerei (1900), Oreste Pizio

Para P. L.

Se lhe ficasse evidente
que nos dedos enrosca
cada fio que me anima,
que bom deus não daria:
além de ser onipotente,
tão pouco ele se mostra!


9 de setembro de 2017

Delicadeza

Tela: Sunset on the Plains (1887), Albert Biertadt

O sol nunca sai à francesa:
já com as asas sem firmeza
sem saltar um ser que seja
nos afaga a crista e as penas
(no escuro, mais extensas)
então pousa em outra cena.


8 de setembro de 2017

Alegria

Tela: Miranda - The Tempest (1916), John William Waterhouse

Nem sempre é compatriota:
pra muitos, alheia e bárbara,
ela pertence a outro porto.

Quem dera um aceno à porta!
(Sem clima pra hospedá-la,
sonhar que entra, não ouso.)


7 de setembro de 2017

A possibilidade

Tela: Rêverie (1894), William-Adolphe Bouguereau

O ávido se amofina
se tudo ou um tanto
não vêm à realidade.

O astuto se delicia
com este encanto
que existe no quase.


6 de setembro de 2017

Estrangeira

Tela: Flora, Blumen streuend (1875), Arnold Böcklin

Vem de longe a Primavera
e dissimula esses ares:
nada traz de outras terras -
souvenirs familiares.


5 de setembro de 2017

Estratégia

Tela: Apollo chasing Daphne (1630), Cornelis de Vos

Põe de lado conchavos
e tuas dragonas, de molho.
Só rendido ao acaso,
coração alheio é despojo.


4 de setembro de 2017

Absolutismo

Tela: Clytie (1895-96), Frederic Leighton

Quando chega ao recinto,
eu me curvo em mesura.
É que reina em meu íntimo -
e com que desenvoltura!
Um meneio e eu rio;
crispa a face? Fico muda.
O amor nos torna ínfimos
ante o que vestiu de púrpura.


3 de setembro de 2017

Inepta

Tela: La notte (1534), Battista Dossi

Despedida é uma colcha
discretamente tecida
nas alvoradas todas.

Ao ocaso, ficando pronta,
sobre nós é estendida -
e logo o frio desponta.


2 de setembro de 2017

Semeaduras

Tela: Cleopatra (1888), John William Waterhouse

O que a semente dissimula
a terra sempre tem noção,
porque em breve viceja.

E pensar que quase nunca
as intenções de um coração
se dão assim, de bandeja.


1 de setembro de 2017

O senhor

Tela: Brita och jag (Brita and I) - 1895 - Carl Larsson

Por dentro se concebe
(qual criatura):
tem um pai conhecido,
mas distante.
E mal se estabelece
já se avulta
até ficarmos reduzidos
a um infante.
É o amor - se percebe
a esta altura -
que se muda de menino
a Amo, doravante.


31 de agosto de 2017

Leite de Pedra

Tela: Le coin du feu (Pensive) by Delphin Enjolras (1857-1945)

O pouco que tem pra dar
vira banquete em seguida:
se na hora não me sacia,
vou me fartar ao lembrar.


28 de julho de 2017

O polvo

Tela: Past and Present Number Two (1858), Augustus Egg

Nada soberana no espaço
predadora solitária dos ares
investindo toda artimanha
ao estender seus tentáculos
pelas frinchas da persiana
e de um coração - sem piedade.


27 de julho de 2017

A ocasião

Tela: The Bonaventure Pine (1893), Paul Signac

Naquela copa a tanta gente coesa
uma folha sonha (quem suspeita?).
Se pergunta quando o outono chega
para enfim seguir por ela mesma.


26 de julho de 2017

Parecença

Imagem: Wave-Track of Steamer on Lake Leman
(Switzerland and France)
 - 1910 - Autor: Vaughan Cornish

O afoito se pasma como ela se recupera
da incisão do barco (que some num segundo).
Mas a lagoa disfarça o seu quê de terra,
onde o arado encrava um sulco bem fundo.


Realista

Tela: Moonrise on the Coast (1863), John William Casilear

O mar presume o desfecho -
e assim não se ilude com nada.
Da lua, só 2 breves beijos:
quando surge e no fim da noitada.


24 de julho de 2017

Separações

Tela: Mondaufgang am Meer (Mondschein auf ruhigem Meer)
Moonrise over the Sea - 1822 - Caspar David Friedrich

Em tudo, o soldado morrediço
que avança para além da fronteira
lembre a lua que imerge no abismo,
mas amanhã, de lá, volta inteira.


Desafio

Tela: Natstemning på havet. Fuldmåne
(Night mood at sea. Full moon) by Carl Locher (1851-1915)

Embora a muitos pareça
que o mar a tem de bandeja
é a custo (pois cambaleia)
que equilibra uma lua cheia.


22 de julho de 2017

A paina

Tela: Bernardette Pessanha, óleo de Eduardo Malta (Sam Kitano)

Porque passa graciosa por tudo,
é natural se ninguém desconfia.
Um fardo, a gente leva no fundo:
na superfície, não tem serventia.


Panaceia

Tela: Le printemps (The Return of Spring)
- 1886 - William-Adolphe Bouguereau

A receita que tem há eras,
a vista segue sem risco:
é só ébria de primavera,
que o frio fica esquecido.


Foragida

Tela: Лунная ночь (Moonlit Night) - 1850 - Ivan Aivazovsky

Sempre vista nos rios e lagos,
não tem discrição alguma.
Amanhece e como prová-lo?
Não deixa pegadas, a lua.


21 de julho de 2017

Efeitos

Tela: El Tiempo - Les Vieilles (circa 1810), Francisco de Goya

Musgo cobre talhes;
ervas, os destinos;
ferrugem, os vates -

o tempo, qual o vinho,
sempre sobe às faces.


18 de julho de 2017

Parafina

Tela: The Penitent Magdalen - between 1638 and 1643 -
Georges de La Tour

Para S. A.

Seria, da pérola, uma impostura
se esconder numa concha dura?
A luz por vezes é tão aguda
quanto, das noites, a mais escura.
É o que a vela testemunha
ao chorar enquanto a chama dura.


17 de julho de 2017

Cavaleiros

Foto de Pablo Sartorio

Para S. A.

Aquele galho depois que apeia a primavera
a um ânimo oprimido se assemelha,
se um segredo monta e lhe diz: "Me leva!".


15 de julho de 2017

Narcisismo

Tela: Evening scene with full moon and persons (1801),
Abraham Pether

Pra esse mal, ela tem a cura:
porque o reflexo na água trêmula
não faz justiça a sua figura,
a vaidade é um desatino pra lua.


30 de junho de 2017

A joia

Foto de Thomas Bresson from Belfort, France

Com que displicência a folha segura
uma gema perfeita de chuva:
como se da palma verde, insegura
não se pusesse, ao chão, em fuga
ou como se o sol, a delicada figura,
não lapidasse de forma dura
até perder quilates; ganhar altura -
guardando-a no céu, como coisa sua.


Água e Óleo

Tela: Disillusion (1851), Edouard Jean Conrad Hamman

Silêncio não desposa Fineza:
bota no verbo uma pedra
acha que saiu "à francesa",
mas deixa o outro sem norte
e com fogo saindo das ventas.


A Alcunha

Imagem: Nelumbo nucifera (lotus flower) and Sagittaria trifolia
from Xian'e Changchun Album 
- between 1722 and 1735 - Giuseppe Castiglione

De "Borboleta", chamavam-na,
mas atenderia por "Lázaro!":
o céu e o néctar, provara
depois de uma vida de rastros.


Preciosa

Tela: Solitude, Jean-Jacques Henner (1829-1905)

Um 'souvenir' imenso é a Ausência:
não cabe em porta-joias ou gaveta.
É só abrir os olhos pra lidar com ela -
e desse jeito a polir, feito uma gema.


Dopamina

Tela: Venus and Adonis (1554), Titian

Há quem o céu nos mostra,
mas não nos deixa levar.
Provamos seus artigos finos
- pés fora do chão; falta de ar -
que logo levam embora,
como se o preço exigido
nós não pudéssemos pagar.


22 de junho de 2017

Resignação 2

Tela: Deux jeunes Filles à l'Étoile de Mer, Paul Émile Chabas (1869-1937)

Lição molesta, de grande valia:
saber à desventura se amoldar.

Nem todos estão onde deveriam -
é o que atesta a estrela no mar.


Remorso

Foto de Dirk Vorderstraße

Fosse eu como a Manhã,
a quem não pudesse evitar,
passaria por mim sem ver nada
com algo melhor pra cuidar?

E suspiraria contrito com afã
quando a Tarde viesse me levar
junto à Noite - mancomunadas -
fazendo, essa falta, aumentar?


Outono 3

Tela: Monna Rosa (1867), Dante Gabriel Rossetti

Inútil, a primavera ser ágil
em levar sumiço das frentes:
qualquer ramalhete é hábil
em saber que a flor tem mais viço
quando ela resta na mente.


17 de junho de 2017

Dissimulada

Foto de Tobias "ToMar" Maier

Das máscaras que conheci,
as da pedra são um caso a estudar.
Por trás da feição indolente
ou de um coração aparente,
queda uma disposição pra partir
que o vidro e outro coração (inocentes)
não tardam a adivinhar.