30 de outubro de 2015

Psiquê

Tela: Psyché Abandonnée (1795), Jacques-Louis David

Reconhecer de longe
sua cabeleira cinza e ondulada
e querer intimidade
pra limpar a mancha na sua camisa
e crispar os lábios:
pra você é indiferente se estou perto;
e me afastar de novo,
sonhando com a compaixão de Zeus:
"Quando Eros vai se apoderar dele?".


28 de outubro de 2015

2 Conselhos

Imagem: "Romance Stories of True Love" No 50 Harvey, 1958 SA
(Cover scan of a public domain comic book)

Para amar, vista grossa:
quem nota bem
(e nada ignora)
vê o foco de afeição
virar alvo de desdém.

Pra ser amado, não faça hora:
só quem passa
garante longa duração.
Quem vai embora
é que fica no coração.


27 de outubro de 2015

Vermelha

Imagem: L'Ame du vin (1900) - illustration by Carlos Schwabe
for "Les Fleurs du mal" by Charles Baudelaire

A vida se prova com o corpo.
Febril é a melhor condição.

Sentir o calor do pavio de pólvora
que começa na planta dos pés
e termina na cabeleira driblando a gravidade -
como quem põe num Van de Graaff as suas mãos.

Suor, lágrimas, palpitação:
o que acontece sem esses sintomas é vazio, escuridão.
O que acontece entre um rubor e outro é irrelevante -
apenas intermissão.


Os adereços

Tela: Preparing for the Costume Ball, Raimundo de Madrazo y Garreta (1841-1920)

Como naquele pré-carnaval
em que pediram "a caráter"
e só meus tios foram fantasiados,
todos os dias me paramento
e você fica na dispersão
de barba mal-feita
sem harmonia
sem reparar (com seus olhos juntinhos)
no meu tamborim e na minha evolução.


25 de outubro de 2015

O passeio

Tela: Undergrowth with Two Figures (1890), Vincent van Gogh

Sim: eu encostei no seu braço.
Acha que ia me contentar em olhar?
Você segurava uma caixa branca e imensa -
não tinha como se desviar.
Alguns centímetros de pele e sim:
eu toquei.
Fui com a fé de quem afaga o santo.
O receio de um mergulho em alto-mar.
Eu era a criança de frente pro bolo.
Minha mão provou a sua massa.
Em segundos, meu corpo berrou:
"Nós queremos".
Agora, eu soluço, eu canto.
Dia e noite (você não sabe!)
atravesso de braço dado consigo.


20 de outubro de 2015

A aranha

Imagem: Little Miss Muffet (poster) - 1940 - Autor: Arlington Gregg.
Work Projects Administration Federal Art Project, Illinois

Dia após dia, lá no alto, muito fina
à espera de uma presa distraída.
Uma teia, uma iguaria.
(Que tédio, essa sua vida!)

Mas também me vê, lá de cima:
de um lado a outro no mesmo samba,
na mesma nota,
a mesma coreografia.
"Nem com oito pernas", sentencia,
"Essa batida, eu suportaria!"


10 de outubro de 2015

Enquanto eles dormiam

Foto de Ian L

Ladraram os cães noite inteirinha:
em guarda e intranquilos
alertavam pro que era estranho, era perigo.

Latiam insistentes, sem fadiga
pra uma folha que estalava,
um carro que ia (qualquer ruído):

feito Galos da Madrugada agiam,
incitando-se uns aos outros
pro alarido.

Sono leve, orelha em pé, faro fino -
nada lhes demovia
do instinto de captar o que vai alto e escondido

aquém dos muros, nas cercanias
enquanto donos e vizinhos babavam
alheios a todo risco.


8 de outubro de 2015

A marola

Foto de Cristie Guevara

O vizinho debaixo fuma
e seu barato chega com o vento.
Sem querer também trago
e caio na vibe dele (que momento!):
bom ligar os sentidos
e dispensar o pensamento.
Não aperto, mas dividimos o fumo
e eu viajo noite afora... Aqui dentro.


4 de outubro de 2015

Fogo Fátuo

Foto de Sean Moran

Chama bruta, embora lépida:
balança alto e machuca fundo.
Calor bravo, mas sem dinâmica:
arde o coração - terreno curto.
Luz brusca, porém ligeira:
apaga e realça o entorno escuro.

E tem as cinzas, ah, as cinzas...
Por mais que se limpe tudo,
se aderem aos pés, aos tornozelos
e maculamos em redor:
chamuscados e confusos.