31 de agosto de 2015

O escape

Tela: Leichtes Mädchen (1802), Kitagawa Utamaro

Na minha taça, não fica gota:
cada um se sustenta como convém.
O saquê entretém minhas pernas -
sóbrias, a opção, uma só: léguas além.


A dieta

Tela: Still-life with a silver beaker -
second half of 17th century - Simon Luttichuys

Abaixe a mão, guarde a flanela:
deixe sua prataria escura.
Sob os danos do uso, bem sei
que um brilho se oculta.

Mas se insiste em refinar
o que está acabado,
não me censure por cobiçar
o que há luas já me é caro!


27 de agosto de 2015

O cinzel

Foto: Camille Claudel - sculptrice française.
Sur cette photo, elle est âgée de 20 ans - 1884 - Unknown

Eu lasco, lixo, gravo
boto um pouco de mim
no que não é meu.

Às vezes os braços estão pra cima;
às vezes fica melhor sem eles.
Me esmero nos cachos, no pescoço esguio;
suo pra deixar altivos, dois olhos tristes.

Ferramenta única é a paixão:
talha o outro a nossa imagem,
mas quem se fere é o escultor!


25 de agosto de 2015

O redentor

Tela: The Broken Pitcher (1891), William-Adolphe Bouguereau

Meu amor é Mestre
e caminha atento no mundo,
sem sonhar que o alcei
acima de tudo.
Ele fala coisas difíceis,
gosta do que é estranho
e não tem respostas a oferecer -
apenas perguntas.

Sentada à beira do poço
eu não lhe dirijo a palavra,
não lhe rogo coisa alguma.
Sou eu quem o guarda,
sou eu quem o vela,
quem o perfuma.
Dou tanto e vivo na falta
(rede rasgada, cesto vazio),
mas Glória aos Céus:
só de amá-lo, estou salva.


24 de agosto de 2015

A toilette

Tela: Yokugo no onna (1915), Goyō Hashiguchi

Não dá pra ver no escuro
o pedacinho do prédio em frente.
Nem a linha da Serra
nem as árvores da rua
nem o quintal vizinho.
Os gatos não cruzam
gatunos não bolem
cães não ladram nem correm.
Saio do banho, semblante sombrio:
pra quê espelho?
Lá fora reflete bem meu feitio.


19 de agosto de 2015

A presa

Imagem: Aigle et Lapin (1897), Léon Bonnat

Sua indiferença é ave de rapina:
meu desejo infante, rapta e elimina.
Sob suas garras, ele se amofina -
quem vê, julga que aceitou a sina.
Está ofegante, mas ainda me anima:
é assim que vira o jogo e a assassina.


18 de agosto de 2015

Curto

Foto de Dick Rowan (NARA record: 2406259) -
U.S. National Archives and Records Administration - 1972

Mirante inútil:
pra quê me ajusta
toda a borda da paisagem,
se não me serve
uma linha do futuro?


17 de agosto de 2015

Platônico

Tela: Looking shy - the appearance of a young girl of the Meiji era (1888), Tsukioka Yoshitoshi

Quando desperto,
ele já está a meu lado:
sorrio, levantamos
comemos, vemos TV
descansamos.
Meu amor toma o meu peito,
se aninha em meu colo
e o encho de afagos.
Vamos assim,
mas se o vejo de frente,
meus olhos abaixo -
talvez por recato
ou (o carrego o dia inteiro)
simplesmente cansaço.


16 de agosto de 2015

A florista

Tela: Chloris - A Summer Rose (1902), John William Godward

Todos os dias ele abre o portão
e meu sorriso vermelho é uma flor que cultivo
com todo o cuidado.
E ele a recebe, mas não sei o que faz:
coloca num jarro? A deixa de lado?
Meu dever é a entrega, conforme o patrão:
meu coração enlevado
que não aceita desculpas, muito menos atrasos.
Todos os dias a meta é a mesma:
a flor desmanchar num beijo roubado.


O refúgio

Tela: Home Dreams (1869), Charles West Cope

Às vezes pisco e os olhos embaçam -
sobretudo o direito.
A catarata chegou? O glaucoma?
Fecho os olhos de novo,
bem devagar,
como quem passa um pano
com cuidado
pro cisco escapar.
E é uma piscada tão lenta
que por um minuto, uma hora
vou pra outro lugar.
Deus! Como é bom!
Lá é como um grande sofá branco
que me engole sem machucar
ou um jardim sem cerca
onde eu corro, corro e corro
e a grama me roça sem eu coçar.
Então, meus olhos se abrem:
não é glaucoma.
Não é catarata.
Não foi nada.
Não foi dessa vez que fiquei por lá.


14 de agosto de 2015

Amor Não Correspondido

Tela: L'Etoile Perdue (1884), William-Adolphe Bouguereau

Sou fã de alongamento.
Me estiro toda:
braços, pulsos, dedos
pernas, tendões, plantas.
Nada estala:
natural pro meu corpo
colher uma maçã,
trocar uma lâmpada.

Mas às vezes ele se empolga:
acha que uma estrela alcança
e que faz cafuné em Deus -
pretensão tamanha!

Então uma nuvem anda
e sob sua sombra, se acanha.
Joelhos tocam no peito:
o coração reclama.
Um amor tão alto
(ele já devia saber)
não é qualquer um que apanha.


13 de agosto de 2015

Desejo

Tela: Frau im Kimono mit Fächer und Blumen (1900),
Max Nonnenbruch

Pra quem tem um metro e noventa,
é fácil a cabeça fria.
Lá vem ele bonachão,
alheio ao que esquenta o chão:
cricris, quiproquós e quiçás.
Ele passa sorridente
esmagando naturalmente
o que é pequeno.
Um homem assim desperta na gente
o que há de mais casto!
Por que então quando o vejo
só penso em bobagem?


12 de agosto de 2015

Paquera

Tela: Barcelona (2007), Andrew Stevovich

O que me inebria não exala:
só tem sabor.
Se me acusa de sóbria
e quer companhia pro copo,
meu fígado virgem é forte.
Mas minhas pestanas, não:
quando eu chegar ao quarto gole,
sem muita conversa mole,
confesse logo o seu amor.


Poema pro bancário do Unibanco

Tela: красотка (1915), Boris Kustodiev

Atrás de um guichê bizarro,
diante da gaveta com fundos.
Atrás de autorizações prévias,
ante prazos absurdos...

Além das serras,
distantes a quilômetros,
sob a colcha fria
duas coxas te esperam -
sem burocracia nenhuma.


10 de agosto de 2015

A correia

Tela: Perro semihundido (1819-23), Francisco de Goya

Porque não me amarrou
a cadelinha que sou
rosna pra liberdade.

O seu estratagema
- total indiferença -
atiça minha lealdade.


Tardo

Tela: A Woman in Bed (1645), Rembrandt van Rijn

Esquento o quarto, esfrio a chama,
e não adianta:
o sono é parceiro
que só chega cedo a minha cama.


9 de agosto de 2015

A loba

Tela: Pleine lune à Mushasi (1890), Mushasi Yoshitoshi

Fazer as unhas era raridade.
Quando finalmente acontecia,
quem pra admirá-las?
Hoje, estão sempre feitas,
porém eu, modificada:
sobejam as presas,
e me faltam forças nas garras.


6 de agosto de 2015

Insônia 2

Tela: Ishiyama Moon (1889), Tsukioka Yoshitoshi

Vem com a lua a manta escura -
trama espessa que camufla,
mas não abafa os dilemas.

Pra alguns, o breu é indiferente:
pendências têm luz própria
e a noite - como o dia - segue reluzente.


Certeiro

Tela: Gabrielle Cot (1890), William-Adolphe Bouguereau

Recolhidos em feixe
no topo da cabeça,
os fios.

Ali e acolá,
feito potro assustado,
a mente.

Num gesto
feixe desfeito, potro amansado:
você vem?


2 de agosto de 2015

Olympus Trip 35

Foto de Axelv

Ao meu "padinho", Antônio

Na hora da Ave Maria
pra liberar logo um filme
meu padrinho ia pra janela.

Quem via os álbuns já sabia:
aniversário, férias ou casamento,
tudo acabava no pôr do sol.


1 de agosto de 2015

Sabedoria

Tela: Old Pilgrim (1660s), Pietro Bellotti

Se tiver graça,
gaste às pencas.
Pra prender o amor,
bastam as pernas.
Quer a paz?
Esqueça as penas.

Ponha tudo no alforje
e aperte bem pra que não perca.
O resto, solte:
pesa e não vale o que pensam.