27 de junho de 2015

Bilhete

Tela: A Woman Writing (between 1764-1768), Suzuki Harunobu

Êita, vida:
longo caminho de mesa
com prazo curto pra percorrê-lo.
A pressa não come mosca:
se deita, levanta cedo.
Sei da correria brava
(por que excedi na prosa?),
meu recado é breve: um beijo.


26 de junho de 2015

Matizes

Tela: A Rose (1907), Thomas Pollock Anshutz

O dia é verde;
a esperança, vermelha.
Você vem de amarelo;
eu abri mão do preto.
A tarde em branco passa;
a noite chega sem vinho -
a perda veste neon.
"Minha cor não te serve agora",
acusa uma rosa na mesa
cálida e sem meio-tom.


25 de junho de 2015

Dois

Tela: Meisje in witte kimono (Geesje Kwak) - 1894 - George Hendrik Breitner

Mais um sonho apaga.
A alma acompanha o corpo
na noite que já vai alta.
Abatidos, um dorme
e a outra soluça
sem coberta nem calma.
Pra um,
a manhã vem depressa.
Pra outra,
a alvorada é promessa
que ela espera cheia de falta.


22 de junho de 2015

Impaciência

Tela: "Know all men by these presents" (1911), Coles Phillips

Tantas horas separam meus dedos
do seu cabelo.
Se tivessem lábios, assobiavam.
Mas tamborilam a mesa.

Improvisam uma sevilhana
depois tocam o Paso Doble,
que vira um galope louco
aflito pra superar o tempo.

Pobres carnes nuas:
logo se estiram exaustas
se perguntando quando - Quando? -
vão se cobrir com seus pelos.


A quimera

Tela: Arrangement in Grey and Black Nº 1 or Portrait of the Artist's Mother (1871),
James Abbott McNeill Whistler

Tem raízes longas
os acontecimentos,
e a que píncaros
vai a quimera!

Quanto mais afundo
meus pés na terra,
mais se empina
meu pensamento!

Nesse embate entre o que é
e o que pudera
só me faz bem, o tempo.

Quando a lucidez, aos poucos,
me deixar na mão
não vou distinguir:
o que sucedeu?
O que foi ilusão?

E assim
numa cadeira de balanço
sob um xale rendado,
cumprirei meu prazo
de pés juntos jurando:
pela vida afora
você e eu
de mãos dadas, fomos andando.


*Com este poema, a Católica concorreu, pela 1ª vez, ao Prêmio Off Flip de Literatura.

20 de junho de 2015

Coração

Tela: De trommelaarster (1890-1910), Isaac Israëls

Um surdo soa mais alto
quando sola na noite escura.
Tom baixo que vela os ouvidos
pra qualquer outra música.

Não consigo abafar
o compasso sentido
que toca tão fundo.

Batida apressada
que me enche de vida -
mas como ela é fúnebre!


19 de junho de 2015

Adoradora

Tela: Lovers (1914-15), Egon Schiele

Cedo ou tarde, o estado é um:
perpétua adoração.
De prontidão, meus olhos velam:
coxas, barba e as suas mãos.

Nenhum pedaço escapava
- assim eu acreditava -
da minha inteira devoção.

Até que um dia, sol a pino
- eu que não fazia isto
nem com santo de procissão -
baixei meu corpo e cobri de beijos
seus pés sem meias no chão.


17 de junho de 2015

Encontros

Tela: Ten Thousand Riplets on the Yangzi - Water Album, Ma Yuan (1160-1225)

Corre o rio pra se soltar:
de braços abertos, o mar.

Também me apresso
mas o abraço, incerto:
não sei se ele vai me agarrar.


6 de junho de 2015

Velhos Amigos

Tela: Diesen Kuss der ganzen Welt (1902), Gustav Klimt

Há tanto tempo
nossos corpos se entendem
aqui comigo,
que quando enfim se conhecerem
"Muito Prazer" - pressinto -
vai ser garantido.


Sonho de Inverno

Tela: Barbara Dmitrievna Mergassov Rimsky-Korsakova (1864), 
Franz Xaver Winterhalter

Sob 3 blusas,
eu escondo meu corpo do frio -
sobra um naco de pele
pra você me causar arrepio.
Hibernando no ombro,
meu cabelo sonha intranquilo:
"Quando ele vem
pra acender um a um, nossos fios?".


2 de junho de 2015

A Viagem

Imagem de Dawn Hudson

Com que entusiasmo abraçamos
a Expectativa da Viagem.
Nossos braços ávidos a abarcam
como se fosse a própria Chegada!

E ela é ampla, anca larga
cheia de berloques, babados:
se espalha pra todo lado
e se deixa ser apalpada.

E beijamos suas bochechas
e nos apoiamos no seu antebraço
andando pelos corredores vastos
que dão no dia da Partida
com suas grandes portas de aço!

E deitamos a cabeça farta
no seu ombro cheio de carne
e ela delicadamente bate
na maçã do nosso rosto esquálido,
pra dizimar a ansiedade:
"Ache a paz aqui no meu regaço...".

Como é maciça,
deliciosamente opressora,
a Expectativa da Viagem!

Sobretudo, se no ponto preto do mapa,
mesmo de costas
olhos vendados,
está aquele que nós adoramos -
aquele que (oxalá) num dia
também possa nos esperar...


Vínculos

Tela: Cupid Untying the Zone of Venus, Joshua Reynolds (1723-1792)

E daí que o grilo garboso se prenda
a um paletó de seda?
Que a aranha prendada não abra mão
do saco de polvilho?
Que as formigas compartilhem mapas
ao pé do ouvido?
Que as operárias se aferroem a uma déspota?
(Uma joaninha aterra
na estrada de tijolos amarelos do anular esquerdo...)
A paixão chega e desfaz tudo:
não há laço que resista ao seu dedo.