30 de abril de 2015

O Samurai

Tela: View of Shiomizaka, 汐見坂図 - 1833-35 - Utagawa Hiroshige

Horizonte é fio
que parte ao meio a cidade:
arranha-céus embaixo,
firmamento no cimo.

Manejando a espada
ao raiar do dia,
está Deus-Samurai:
exímio no risco.


29 de abril de 2015

Insensatez

Tela: The spirit of the drought, Arthur Streeton (1867-1943)

Pus meu amor ao sol
pra ele evaporar.

Um rio caudaloso
agora é gota:
fácil de desmanchar.

A vereda sumiu
e a caatinga
tomou lugar.

Nativa virou retirante,
clamando por chuva
pra ele voltar.


27 de abril de 2015

Pôr do sol

Tela: Sunset, Boston (1895), Maurice Brazil Prendergast

Por volta das 17 horas,
toda a cidade fica folheada:
fachadas,
feições,
fardas.

Tanto ouro
só não impressiona
o coração apaixonado -
sempre rico.


Acessório

Tela: Straßenbild vor dem Friseurladen
(1926), Ernst Ludwig Kirchner

Eu preciso de você -
quem me dera ouvir dizer.
Mas sou anexo:
não dá a mão,
dispara na frente.
Por que não teme
que eu vire à esquerda
e suma pra sempre?
Um clipe me prende.


26 de abril de 2015

O diagnóstico

Tela: The Convalescent (1872-1887), Edgar Degas

Cabeça nas nuvens,
vista embaçada,
pulso adiantado,
sono atrasado,
loção de mais,
noção de menos,
pilha de roupa,
louça na pia,
serviço dobrado:
só me faz mal
esse homem de bem.


25 de abril de 2015

A flor

Foto de Dinkum

Batina papal
lavada e engomada
com zelo.

Pomba orgulhosa
que desistiu da paz:
só quer sossego.

Noiva empinada
pra foto,
baiana sem tabuleiro.

Sino invertido
que não se endireita
pra bater cedo.

Jarro casto
com um falo
cheio de desejo.

Copo-de-leite:
mil reflexos
como um espelho.


24 de abril de 2015

Apego

Tela: Modern Magdalen (1888), William Merritt Chase

A ave se livra das penas.
O galho não liga pra seca.
As pedras rolam da serra.
O leito reparte no curso.

A terra abre mão do fruto.
A flor não esconde o doce.
Cigarra se gasta no canto.
Estrela finda (ainda) dá luz.

Só eu guardo:
um amor que não rende graça,
mas pranto.


23 de abril de 2015

O vento

Tela: Ejiri in Suruga Province - Part of the series Thirty-six Views of
Mount Fuji, no. 35 (1830), Katsushika Hokusai

Vento forte
que empurra e sopra
a vela
vira a folha
balança a relva
descabela a copa
incita a chama
esfria a sopa
agride a porta
enxuga a roupa
dispersa nuvens...

Vento forte
que leva a semente
traz o cisco
bagunça a vista
revolve os fios
sustenta a pipa
descobre as pernas
acorda a poeira
espalha as penas
empilha as dunas
carrega o cheiro...

Vento forte
que altera o tempo,
agita as águas,
arrasta as frentes...

Varra este amor
do meu pensamento!


22 de abril de 2015

2 ânimos

Tela: Terrace with Oak, Sorrento (1834), Thomas Fearnley

Dependendo da luz,
é florzinha amarela,
decifrada num instante:
um miolo, pétalas, haste
folhas com orvalho do jardim.

Mas tem seus dias de carvalho:
profunda, serena
cheia de sombra e história.
Torça pra encontrá-la assim.


21 de abril de 2015

O perigo

Tela: In the waves or Ondine (1889), Paul Gauguin

Lá na ponta, lar
dos monstros marinhos,
é onde vou me equilibrar.

Passagem pra caravela,
há três luas,
mandei providenciar.

Aqui, o feudo foi definido:
não me interessa ficar.

Abismo
não é o fim do mundo:
é este quinhão
onde é certo naufragar.


De guarda

Tela: In the Skerries (1894), Anders Zorn

Na paixão, vivo exausta:
não me afasto um instante.
Nem no sono:
vai que me leva a terras distantes...


20 de abril de 2015

Silhuetas

Tela: Starry Night (1893), Edvard Munch

Mesmo no escuro
as curvas da montanha
se insinuam.

Se o banho de lua
é fraco,
a ventania revela a mata.

As estrelas são tantas,
que deixam a abóbada
rebuscada.

Um único pirilampo
realça a linha da estrada.

A paisagem provoca,
mas meus olhos se embaçam:
só fixam o seu dorso
partindo de casa.


19 de abril de 2015

Estações

Tela: Women walking in the snow, Utagawa Kuniyoshi (1797-1861)

Se uma alma está no inverno
e a outra, no verão
como vão se encontrar?
Há um outono com mil folhas
pela frente
e uma primavera de malmequeres
pelo chão.

Se decidirem topar pelo caminho,
resistirá a alma alegre
a tanta seca?
Estimará zumbido e cor
quem tem frio, o coração?


18 de abril de 2015

A crise

Tela: The Snowstorm (Winter) - 1786-87 - Francisco de Goya y Lucientes

Tempos hostis exigem
carapuças densas.
A delicadeza só veste bem
a lembrança.
Sob a crosta espessa,
substâncias tênues
que não se revelam -
mas balançam.

Quando a aridez sair de cena
e a armadura,
puser num canto
espero
não ter perdido o jeito pra dança.


Marta apaixonada

Tela: Cristo en casa de Marta y María (1620), Diego Velázquez

Seu silêncio me legou
a incumbência
de preencher meu tempo
com tarefas.

Nem a paz do Redentor
me aquieta:
de um lado a outro vou
para cobrir a sua ausência.


O Samaritano

Tela: Girl in a yellow drape (1901), John William Godward

Se só de me olhar
fez o bem:
me corou a pele,
espantou o breu;

Que salvação não viria
do corpo dele
enroscado no meu?


17 de abril de 2015

Enjoying it

Tela: Plum Brandy (1877), Édouard Manet

Não curto o momento -
deixo pra mais tarde:
fica melhor o que passou.

O presente é oferenda
que não bebo:
só desfruto na saudade.


Reciclagem

Tela: Мечты (1894), Vasily Polenov

Assim gosto de pensar:
nada é perdido.
Tudo o que deixei na terra
ora fofa, ora árida
da vida
de algum modo vai aflorar
e oferecer
uma maçã pra morder
uma sombra pra formiga
palha
pro escaravelho recolher
ou pro cigarro do matuto
que fita nas nuvens
os encantos dela,
enquanto pita.


16 de abril de 2015

Primavera

Tela: Våren (1907), Carl Larsson

No cesto, o mamão
se pinta de cor quente.

No vaso, brotos
se empinam das sementes.

Nas bestas, seres
se estiram no ventre.

Cá dentro, o desejo
se espraia da nascente.

Lá fora, o ceifeiro:
vou capitular totalmente.


15 de abril de 2015

O remédio

Tela: Veronica Veronese (1872), Dante Gabriel Rossetti

Quem percorre outras plagas
estranha
o próprio ninho.

A carícia dos ares,
irresistível
pra quem se atém
a um cantinho.

Presos a um panorama,
meus olhos:
entediados passarinhos.

Se pousarem nos seus
(de novo),
sei que darão mil pulinhos!


À parte

Imagem: The Veil (1887), Fernand Khnopff
O amor é um lençol
que nos jogam por cima:
o olhar, vela
os movimentos, limita
e sob o pano
o calor
que inflama o coração
e a razão, fervilha.

Quem ama
é qual aparição:
atravessa a realidade,
mas está em outra dimensão.


14 de abril de 2015

O receio

Foto: No. 28 - The Kodak Girl (1909), Unknown

A primeira impressão,
tão bem-acabada,
guardo com desvelo:
deve ser a última.

Se o vejo de novo,
me arrisco a perdê-la -
o que era única
ficaria nula.


13 de abril de 2015

2 amores

Tela: Emperor moth (1889), Vincent van Gogh

É fácil pra abelha
vencer longa distância:
a flor a recepciona
com tanta doçura!

Admirável é a mariposa:
não arreda o pé da lâmpada,
mesmo tratada
com toda a secura.


12 de abril de 2015

O alarde

Foto de Booksworm

Manter uma paixão em segredo,
tão difícil
quanto esconder um perfume.

O corpo não retém
o que a alma goteja -
mesmo que o amor
esteja longe.

Um coração apaixonado
é graveto na fogueira:
não se vela.
Enquanto arde, se põe a murmurar.


Crédula

Tela: Die Liebe (1895), Gustav Klimt

Pra mim é fácil acreditar.
Basta uma isca:
razão pro êxtase,
eu não deixo escapar.

Apesar da ciência
e do siso
que me mandam tomar,
o olhar que me deu
eu adoro num altar.


10 de abril de 2015

Nas sombras

Tela: Au theatre (1942), Albert Guillaume

Fabuloso espetáculo
é o que acontece sob o sol
(dizem):
lagos ganham pedraria
folhas, vestidos novos
peles, roupas de menos
horizontes, uma linha.

Pois onde ele não pinta
é o show que me fascina:
sob os panos,
dentro das mangas,
no fundo de uma cartola
(Mandrake ensina)
é que a mágica se realiza.


9 de abril de 2015

A hospedaria

Tela: Für immer vereint (1903), Carl Schweninger der Jüngere

Meu coração delicado
recebia qualquer um.
Quando a acolhida
se arrastava,
a razão descia do sótão
e indicava a porta da rua.

Você, diferente,
fincou o pé
bateu boca com ela
e em vez de hóspede
(meu prazer e minha dor!)
se fez anfitrião.


8 de abril de 2015

O dia

Tela: Norham Castle, Sunrise (1844), Joseph Mallord William Turner

O dia é amante generoso:
de todos, beija a fronte
acolhendo pro novo capítulo.

Uns, encontra frios
e beija na despedida.

Muitos, atarefados
e passa despercebido.

Em alguns, desvanece
o que já foi decorrido.

Em outros (é o meu caso),
tasca uma boca macia...

E o que devia ser só lembrança,
reaviva.


7 de abril de 2015

A tatuagem

Tela: The tattooed woman (1894), Henri Toulouse-Lautrec

Seus olhos me cravaram
uma sigla indecorosa.
Três luas e ainda queima -
gemo escondido como convém.

Rês marcada, porém perdida.
Meu dono me laçou,
e não me recolhe:
não sabe que me contém.


6 de abril de 2015

Minas Gerais

Foto: Parque Nacional da Serra da Canastra (Minas Gerais, BRASIL) - Autor: Felipe Baraldi

Vou longe no tempo
sem deixar a varanda.
Se percorro o espaço,
é bem perto -
nada além da vizinhança.

O cerco montanhoso
me doutrinou desde cedo:
o que tem no outro lado,
melhor deixar no degredo.


O Truco

Tela: The Card Players in an Interior (1660), Jan Steen

Estamos à mesa,
mas em diferentes times:
não há troca de cartas,
de olhar
nem roçar de pernas -
só alguma gentileza.

É um jogo insano
que oxalá não termine:
saio do recinto, se perco;
você se retira, se ganho.

Prolongo por horas
um equilíbrio delicado:
ser fiel ao meu parceiro
e sinalizar pra você
que me tem a seu lado.


5 de abril de 2015

Mestres da Pintura pra desejar FELIZ PÁSCOA!

Tela: Polyptych of the Resurrection (1520-22), Ticiano

           Egon Schiele, Édouard Manet, William Blake, Jacopo Tintoretto, Carl H. Bloch, Ticiano, Caravaggio, Vincent van Gogh, Hubert van Eyck (or Jan van Eyck), Rafael Sanzio, Bartolomé Bermejo, Rembrandt, Peter Paul Rubens e até mesmo o libidinoso Paul Gauguin reunidos neste post do Blog a Católica, a fim de lhe desejar uma FELIZ PÁSCOA!

Espero que curta!

Saúde e Paz!!


"Por Sua morte, a morte viu o fim"
(Canção atribuída a D. Carlos Alberto Navarro e Waldeci Farias)

Tela: Crucificação, Egon Schiele (1890-1918)

Por Sua morte, a morte viu o fim;
no Sangue derramado a vida renasceu.

Tela: Le Christ mort et les anges (1864), Édouard Manet

Seu pé ferido nova estrada abriu
e nesse Homem, o homem enfim se descobriu.