31 de março de 2015

Encontro às escuras

Tela: Moonrise over the dunes (1883), Eilif Peterssen

Um lustre pende no céu.
Sobre o coral de insetos,
um anfíbio improvisa.

Corujas alertam pra estranhos,
damas-da-noite desorientam,
vaga-lumes marcam o caminho
até a mesa posta ao relento.

Sob um forro de estrelas,
com a pele luzindo sereno
alguém te espera:
não aperte os lábios
pra presença dela.


30 de março de 2015

A paisagem

Tela: Paisagem de Ouro Preto (1876-86),
Henrique Bernardelli
Como a paisagem é branda,
vista da janela!
A cidade,
um Pipiripau fora de época;
as nuvens,
estáticas feito pedras.
Como calda da panela,
o dia escorre lânguido e certo.

De perto, porém,
a mãe queima o arroz
ninguém dá bola pro avô
um casal, em vez do almoço,
pula a cerca
um homem salta o muro
pra abater a companheira.

Foco ajustado
e não há calmaria:
a paisagem é dor e movimento.


29 de março de 2015

A fuga

Tela: Stilleben mit Käse und Kirschen (1635), Georg Flegel


Libélulas voam de dia,
mas esta me vem à noite.
Alinhada
com suas asas de seda,
diversa
da parentada faceira
que dança dispersa
por cima das águas.

Esta,
desertora da festa,
se asila sóbria
no meu azulejo
incerta
de retomar a fuga
que acaba, por certo,
nos caninos do morcego.


Feminismo

Tela: Yes or No (1893), John William Godward

Não é certo,
mas minha gana de beijar
também é profunda.

Não é justo:
se o beijo acontecer
você será o garanhão
e eu, a vagabunda.


27 de março de 2015

A partida

Tela: Head of a skeleton with a burning cigarette (1886), Vincent van Gogh

Não se sabe como a morte vem:
a galope, num trote violento
ou serena, feito escuna no mar.

Desfaz em pó devagar
ou esfarela de repente -
como fez com meu avô,
que ouviu uma piada
e se foi ao gargalhar.

Dramática -
um avião que desistiu do ar -
ou burocrática:
cheia de tubos, ventiladores,
aventais
e remédios a ministrar.

Asséptica, solitária
num silêncio de máquina
no 16º andar
abafado pela conversa no corredor,
que não deixou
a técnica de enfermagem notar.


25 de março de 2015

Incoerente

Tela: Frau am Strand von Rügen (ca. 1818), Caspar David Friedrich

Mísero tempo:
ofusca teus traços,
mas inflama minha querença.

Mísero tempo:
abafa tua voz,
mas sublinha tua presença.

Mísero tempo:
me embaralha a lembrança,
mas clareia a consciência.

Mísero tempo:
te torna longe, estrangeiro,
mas imprime minha pertença.


23 de março de 2015

Bem-Vinda

Tela: Small Table in Evening Dusk (1921), Henri Le Sidaner

A alegria é visita
que não se demora:
custa a chegar, mal se assenta
e vai embora.

Melhor pano
estendemos na mesa,
louça sem lasca
pomos pra fora.
Ela dispensa os cuidados
se desculpando sem tato:
"Já deu minha hora".

Sempre esqueço
como ela é curta e grossa!

Um novo amor acontece
e lá vem ela a minha porta:
recebo com flores,
preparo uma torta...
Iludida
de que me completa
e não parte de volta.


21 de março de 2015

Impedimento

Tela: Madonna Sistina - Detail Putti (cherubs) - 1512-13 - Rafael Sanzio

E ele é muito bonito.
Usa chapéu panamá
e torce prum time diverso.
E tem barba!
Trem de doido é homem de barba.
Bem-feita.
E ele sorri!
É educado, gentil.
Apareceu lá com flores na mão.
Não pra mim,
que ele nem me conhecia.
Aliás, ele não me conhece.
Só sabe que torço
prum time diferente do seu.
E eu quero ele tão bem!
E não posso dizer.
Não posso
(e cê sabe por quê).
Encomendei uma missa.
Doida, nada:
anjos e santos que se entendam
com o que eu não posso ter.


19 de março de 2015

O escultor

Imagem: Kneeling Woman (c. 1900-08), Auguste Rodin

Você nem me tocou,
e ficou impressão
por todo lado:

meu coração dilatado,
minha alma vidrada,
tudo ao redor recriado.

Você nem me tocou.
E mudei de postura,
de ambição,
de estado.

Uma troca de olhar,
algumas palavras
e você me lembrou:
sou de barro.


18 de março de 2015

Obstinada

Tela: Die Tür in das Offene (1912), Egon Schiele

Você não me alimenta,
mas me sustento em sua porta.
E ela não revela:
nenhum ruído escapa pelas frestas.
Só vento.
E ela é sólida, escura
e veda.
Como é hermética a sua porta:
irredutível em separar
o que vai dentro,
o que vem fora.

A realidade é dura:
cheia de silêncio.
Um silêncio agudo,
que fere a humanidade -
pior
que qualquer xingamento.

Me afeta, mas não me afasto:
sou sentinela.
Ereta, lança em punho
apta pro fato:
vai ser aberta.

Nada me demove.
Sou da fibra da porta -
dobradiças de ferro me elevam.
Nem que eu quisesse
me dobrava.

Mas também sou pó.
Ânimo compacto
num corpo de pó.

Abra!
Até quando essa indiferença retinta?
Abra, que minha força não esconde:
sou finita.
Abra, que o vento vai me espalhar
pra longe...
Quando minha sorte for finda.


16 de março de 2015

Clemência

Tela: Nighthawks (1942) by Edward Hopper

A noite devora a paisagem:
ela perde a silhueta.

Colhe os frutos das árvores,
engole montanhas,
mastiga torres e pontes:
nada é indigesto.

Restam os postes,
o grande relógio da Raul Soares
e as janelas de quem - como ela -
mantém a fome acesa.

A noite é fria:
só poupa os que ardem.


14 de março de 2015

Súplicas

Tela: Mother and Child (1890), Mary Cassatt

Que vozinha é essa
que vem do quarto escuro?
"Mamãe."
Ela pede consolo
ou vem me consolar?
"Papai."
Fina e firme
feito organdi:
"Mamãe".
Vai sumir
quando o sono chegar,
"Papai".
Numa noite fria
que num dia há de vir
- "Mamãe" -
ela vai se encorpar
e parar de chamar
"Papai".
E no quarto escuro
antes de dormir
("Mamãe..."),
vou apertar meus olhos
e pra Deus suspirar:
"Papai...".


12 de março de 2015

Lamento

Tela: Ophelia (1851), John Everett Millais

Vovó tinha um canteiro;
minha tia, um roseiral.
Mandaram tudo arrancar:
plantaram ardósia e cerâmica,
que é mais fácil de cuidar.

Ai de mim, ai de mim
sem uma flô aqui pertin!

Era tanta avenca e samambaia,
que não dava de andar;
lá em casa, as violeta
ficavam até nas banqueta,
impedindo de sentar.

Ai de mim, ai de mim
sem uma flô aqui pertin!

Trem difícil nesses dia
é ver flô nas moradia.
Se quiser topar com alguma,
tão esquecida nas floricultura.

Ai de mim, ai de mim
sem uma flô aqui pertin!

Mas flô é cabeça-dura.
Não adianta fugir delas:
apanham a gente no final,
nos embalando pra sepultura.

Ai de mim, ai de mim
não enxergo as flô aqui pertin!


11 de março de 2015

Vida

Tela: David (1899), Jozef Israëls

Melodia sinuosa
que escapa da harpa -
assim é uma vida.

Pra uns, doce aos ouvidos.
A outros, descomedida:
dão-lhe as costas.

Dependemos do afã
de quem dedilha as cordas.

Quando se cansa,
ela silencia -
apitos, roncos e cuícas
preenchem o ar.

A uns tantos (poucos),
a saudade fica.


10 de março de 2015

Maculada

Tela: Portrait of a Lady, Paul Chabas (1869-1937)

Por fora,
cedo a vez ao idoso
sossego com grampo as mechas
reprimo o olhar guloso
só sento de costas retas -
todo pudor ao comportamento.

Por dentro,
revoada de pássaros
estouro da boiada
leite derramado
mil beijos no seu couro:
quebra de juramento.

Visto de branco
o corpo,
mas não o sentimento.


7 de março de 2015

Teimosia

Foto de Kerry Roberts - Ready for Takeoff Uploaded by PDTillman

"Joaninha não aguenta poluição",
uma vez me disseram.
Eu morava na Via Expressa:
mão na janela
e pegava um ônibus.

Alheias à biologia,
joaninhas me visitavam.
Por pouco não matei uma,
julgando que era mosca.

Ei-lo: meu amor-joaninha.

Nuvens, laços, ideologias -
tanto é hostil
ao meu sentimento!
Mas ele avoa, avoa, avoa
ao redor...
Imagina seus braços
e me põe dentro.


5 de março de 2015

Deuses

Foto: Jupiter as seen by the space probe "Cassini".
This is the most detailed global color portrait of Jupiter ever assembled (2000) -
Autor: NASA/ JPL/ Space Science Institute

Meu filho pediu pra ir a Júpiter
num carro azul.
Na sua idade,
eu queria a Torre Eiffel.
(Com um sorriso maroto,
Deus deve recolher
esse tipo de prece.)

Então a gente cresce
e conhece o amor.

Não sei onde meu filho
vai querer estar
daqui a anos-luz.
Há duas luas,
minha aspiração
desceu das alturas
e ficou modesta:

Rogo pelo pátio pequeno
num dia quente,
onde você - feito Deus -
quase ouviu meu coração
e me tascou um beijo.


3 de março de 2015

O Reencontro

Tela: Psyche Opening the Door into
Cupid's Garden (1904),
John William Waterhouse
Passei meses ensaiando
o que falar com você.
Frase comprida,
cheia de subordinadas
e alternativas -
treinei o fôlego:
de uma só vez a espicharia.
Mas o plano de você chegar
não se cumpria.
E ela foi encurtando,
perdendo vírgulas:
exprimida entre duas piscadas,
que você daria.

Passei a treinar o sorriso.
Talvez no final -
no meio, não caberia.
Ou meio de lado:
tendo dito, já sairia.
Talvez nem me achegar
precisasse -
aonde estivesse, você viria.
De tanto burilar,
distinção da mais-que-perfeita
(e não dita)
bem que eu mereceria.

Eis o dia.
Chegou anos depois.
Minha dicção, fora de moda;
meu charme já não valia.
Guardei a frase:
certo que a contaria.
Assim que a maçaneta girasse,
a porta branca se abrisse...
E você não baixasse o olhar -
como não imaginei que faria.