28 de fevereiro de 2015

Terceira Idade

Imagem: 100 Aspects of the Moon #25, "Gravemarker Moon" (1886), Tsukioka Yoshitoshi

O novo sempre me aterrou:
"Vamos sair?" Não. Tão bom aqui.
Desde menina, meu gesto é mínimo
minhas refeições, parcas
meus destinos, curtos.

Casarões me atraem,
museus com ou sem fila -
tudo o que tomba é ouro.
No criado-mudo,
dois avós que se foram:
os que mais falam comigo.

Se insulto o tempo,
é que me arrasta ao porvir,
e não pelas rugas:
nasci encurvada e as tenho todas.


26 de fevereiro de 2015

O convite

Tela: Moonrise - Soldier and Maiden (1905), Ernst Ludwig Kirchner

Vamos a pé: vias tortuosas
deixam carruagens e carros
bem parecidos.

Nas calçadas restritas,
postes e árvores ganham abraço
de quem perde o equilíbrio.

Alheios à ceifa,
buquês alviverdes roçam canelas
e ornam meios-fios.

Estendida no chão
uma trama amarela de folhas,
que desistiram do cimo.

À luz do dia
beija-flores furtam doce,
e rendem sorrisos.

Tão simples...
Mas são tesouros da minha rua
que quero (tanto) dividir consigo!


23 de fevereiro de 2015

O quadro

Tela: The Sun (1910-11), Edvard Munch

Esta tarde mesma
em que as montanhas se esboçam
ao fundo
e tons de verde
se escondem
sob linhas azuis;
na qual o sol carrega
na cor das torres à frente
e nuvens
pincelam de cinza o que fica atrás;

Esta
onde um carcará
fugido do sertão
se refestela numa caixa d'água
e bem-te-vis, sabiás, pombos
(assustados)
se camuflam nas copas
ou nos halls das casas;

Esta
tagarela infante
que se desfralda do horizonte
aos corpos,
mas não chega ao coração:
cheia de luz, roncos e arrulhos,
ante o silêncio do meu amor
desbota -
falha em se sobrepor.


21 de fevereiro de 2015

A Presença

Tela: A Japanese Lantern (1885), Oda Krohg

Pra quê perguntar "onde você
está"? Você está em todo lugar.
Na derrota do time,
na long neck vazia,
num longo abraço,
no Amor até o fim,
no mês de março,
se faz calor, se garoar,
na barroca,
no barroco,
na tela de Escher,
no espelho
e se ele quebra
sorte a minha:
milhares de você
olhando pra mim.

Como é possível saudade assim?


20 de fevereiro de 2015

Um Tipo novo pra mim

Imagem: Enfin seuls! (1915), Adolphe Willette

A vida espanta.
Sobretudo no amor.
Quem se achega e exclama:
"Cê tá o mesmo!"
desconhece
que em cada dobra do tempo,
muito de você ficou.

Eu mesma
sabia todas as medidas pra mim.

Mas eis que há dias
me pego
me ajustando a uma XL T-shirt,
uma bermuda 48
e me pergunto:
"Como foi que meu número
cresceu tanto assim?".


17 de fevereiro de 2015

Hermes

Foto: Relief of Mercury (or of Hermes) - Foto de Michal Maňas (User:Snek01)

Passe por mim.

Feito esses moleques
avoados
que peito à frente
braços pra trás
derrubam tudo.

Moleques despidos
de shorts,
sola no chão
sem medo de ripa,
de cinta,
de nada.

De cá, um pensamento
pra que pulseira sua,
anel
ou unha lascada
desfiem meu tricô
pra me vestir de vento,
me fazer correr
ou prendê-lo em mim.

Pare um momento.

Plante aqui
o legado célere da sua essência:
nunca entendi
por que vocês partem
e eu resto.


13 de fevereiro de 2015

Rendição

Tela: The Surrender of Breda (1635), Diego Velázquez

Subi no obelisco
desfraldei a bandeira
aticei a nação

Tirei a camisa
fui pra frente da linha
afrontei o pelotão

Vesti-me de lua
permeei sol e Terra
causei cerração

Acendi labareda
soprei mil sinais
tentei ligação

Por fim, inclinei o rosto
e de mãos no bolso
dei um passo atrás:
ele não me quer mais.


12 de fevereiro de 2015

Saudade

Tela: Flora (1892), Max Nonnenbruch

Numa tarde,
quando regressávamos
da roça dos meus avós,
paramos numa cachoeira
e minha avó
(Santinha que está no céu)
tirou os sapatos,
molhou os pés
e se esticou pra colher um buquê
de flores brancas
que se exibia nas pedras.

De pés secos,
eu admirava o seu esforço
enquanto a água gritava
e meu avô esperava.

De lá, daquele sítio úmido,
seguimos pela estrada
até a estação rodoviária,
onde viajei junto às flores brancas,
no colo da minha avó.

Revivi aquela tarde
quando estive com você.

Passada uma lua,
meu coração se agita:
quando vou vê-lo outra vez?


Teu nome

Tela: White Falcon by Jesuit Giuseppe Castiglione
(1688-1766) in correspondence with
Chinese artists of the Qing Dynasty court
Aquilo que não conheço, laço
pra poder dominar.
Se o sentido me assusta, desato:
melhor deixar escapar.

Quando quis me aproximar
por teu nome, comecei:
"marrom"; "falcão branco"
foi tudo o que encontrei.

Levo a sério os significados -
o que as coisas querem dizer.

Se tua alcunha é um perigo
(claro e escuro, tão díspar!)
até hoje me pergunto:
por que insisto contigo?

11 de fevereiro de 2015

O pedido

Tela: Lesbia and her Sparrow (1907), Sir Edward John Poynter

Trago a mão rente ao rosto
dedos em riste
braço anguloso, disposto
para um falcão descansar.

Mas meu intento é modesto:
as garras de um irmão menorzinho
- sabiá, bem-te-vi, coleirinha -
que suspende o voo e se põe a cantar.

Sustento o gesto -
não sei quanto devo esperar.
Às vezes um deles vem perto,
e não se decide a pousar.

Eis-me, pedinte diversa:
em vez das palmas,
estendo o dorso
e pelos cantos, fico a suplicar.


10 de fevereiro de 2015

Amar

Tela: Girl Holding Lemons (1899), William-Adolphe Bouguereau

Meu amor é fruta azeda
que eu não deveria provar.
Mas a promessa do doce
- tão acesa -
me impõe a me arriscar.

E me lanço em cada gomo,
furto da casca restos de polpa
(nem as sementes eu poupo)
e nada de me alegrar.

Um amor assim
- tão penoso -
eu tinha que largar:
em vez da delícia do gozo
sua acidez
só me faz lacrimar.


9 de fevereiro de 2015

O Fardo

Tela: Venus and Cupid - 17th century - Roeloff van Zijl

Meu peso aumentou,
meus passos são lentos.
Bastou conhecê-lo:
o carrego aqui dentro.

Nada tirei, e tudo mudou:
minhas coisas, num canto;
você, bem no centro.

O amor é um fardo
que não curva a espinha:
é pensar no meu núcleo
e me aprumo em dois tempos.


7 de fevereiro de 2015

A lida

Tela: Peasant woman binding sheaves (after Millet) - 1889 - Vincent van Gogh

Meus dias são capim cerrado -
a mim,
compete manter a vista da estrada.

Não há poesia no pó, no chão,
na enxada:
o batente
deixou minhas mãos machucadas.

Mas vou em frente:
do canto do galo
à hora de descansar da cangalha.

Há jeito melhor
de lidar com a saudade?

Na tarde em que o vi,
virei camponesa ocupada
e meus sonhos ficaram rurais:

Eis-me vereda
e você, luar que me despe
aqui nas Gerais.


5 de fevereiro de 2015

Tela: Ventania (1888), Antônio Parreiras

O meu amor está antes
da chuva com vento.

No intervalo
entre as vagas.

Num dia de mormaço,
sonolento.

Na borboleta
que retoma o fôlego
um momento.

Na massa
que descansa
com o fermento.

Na cadeira
que ficou ao relento.

No moletom
que esqueceram na cadeira.

Neste hiato,
nesta vírgula,
nesta falta de acento.

No pulso lento
(as horas são cinzas),
mas firme:
ele há de acontecer
quando for o tempo.


3 de fevereiro de 2015

A fruteira

Tela: Mamão e melancia (1860), Agostinho da Mota

Que tentadores
os frutos vastos:
mamão roliço,
melão inteiro,
melancia
antes do talho.

Com que gana
se atiram a sua polpa,
que displicente
denuncia a gula,
lambuzando toda a boca.

Mais abaixo no plantel,
ei-las delicadas:
cerejas,
acerolas
e a uva moscatel.

A poucos, apetitosas
e só a eles, o seu valor:
escondidas dos olhares
sob o palato,
dão gozo numa dentada
sem entregar o pecador.

Tela: Still Life with Strawberries, Cherries and Gooseberries in a blue and white porcelain bowl
with two salsify roots, all resting on a wood table (1630s), Abraham Gibbens


2 de fevereiro de 2015

Gemas

Foto: Emerald - Muzo Mine - Colombia (Crystal 2 cm) - Autor: Didier Descouens

O meu amor extrai
o melhor de mim -
como da flor, o inseto,
o néctar.

Tudo o que jaz de reluzente
jorra fácil
como a água límpida
pela mangueira -
basta um toque na bica.

Há quilates não explorados
e a única ferramenta
necessária
é um homem do tamanho
de um urso,
com chapéu panamá
sorrindo pra mim.


1 de fevereiro de 2015

Suspense

Tela: Grace reading at Howth Bay, William Orpen (1878-1931)

Não teria me apegado
à primeira página,
se soubesse
o que a próxima continha.

Meu mal é acreditar
que tudo de mais belo
só o sol ilumina,
quando o brocado da noite
também veste surpresas lindas.

Você estava num fim de tarde,
quando eu já me recolhia -
uma troca de olhares
e se acendeu minha rotina.

Agora, o presente amofina:
conterão as páginas seguintes
seu beijo, que me desatina?