31 de janeiro de 2015

Florações

Tela: Algarrobo (1899), Joaquín Sorolla y Bastida

O cajueiro sabe
que a primavera
levará seu fardo.

A quaresmeira
pranteia Cristo
duas vezes no ano.

A sumaúma
termina o calendário
de consciência leve.

Sou como alfarrobeira:
espero por ti
sem "quando".


29 de janeiro de 2015

Meu RAPAZ faz 3 anos!

Foto: o aniversariante Jaime Augusto na Grande BH - Janeiro de 2015

Querido Jaime Augusto,

Este é o Post que mamãe preparou para celebrar o seu 3º Ano de Vida e dar as Boas-Vindas ao 4º. As fotos foram tiradas entre junho de 2014 e janeiro de 2015 na Grande BH e em São Paulo - cidade que visitamos com frequência e amamos (quase) tanto quanto a nossa Belo Horizonte!

Além da sua figura adorável, meu filho, nas fotos aparecem algumas das pessoas que foram importantes pra você neste 3º Ano de Vida e que marcaram presença através de cuidados (Vovó Gali), e-mails, telefonemas sem-fim (viu, Dinda Dedeia?), presentes, partidas de futebol com você e muito Amor!

As fotografias vêm "embaladas" pelos versos da canção MAIS PRA VOCÊ da compositora Roberta Castro, que a cantora Eliana Ribeiro (uma das favoritas da mamãe), da comunidade Canção Nova, gravou e que está em seu maravilhoso CD Saudade de Ti.

Que, na Graça de Deus e sob o manto de Nossa Senhora, você siga crescendo com Saúde!

Cheio dessa adoração linda pelo FUTEBOL e por marcas de carros, que você tem!...

E que a paixão por BH, pelo Atlético Mineiro e pelo Brasil - a ponto de já cantar o Hino Nacional - inflame seu coração. Porque quem se orgulha das próprias raízes está preparado pra se colocar no mundo!...

De uma mãe cansada (ufa!), mas que também se diverte muito em educar você,

Ana Paula~a Católica

P.S. Todas as fotos, sem exceção, foram tiradas por sua Mamãe.


Que loucura: a vida virou pelo avesso
Não imaginava o que estava por vir

Endless Love

Tela: Liebespaar (1909), Ernst Ludwig Kirchner

O futuro é branco
e em câmera lenta -
não se sabe
se a moça que mostra
os dentes
está rindo ou chorando.
Nem se o arco
que a bola faz
acaba num pote de gol.
Nem se o azarão
ou o favorito
cruza a reta primeiro.

Quem corre
pisa em ovos,
quem anda
levita
e Buzz Aldrin
parece parado.

Eis-me lá:
lânguida.

No dorso,
sua pegada de urso.
Nossas línguas macias
se entendem.
E se confundem.

O futuro, branco
e em câmera lenta.
A moça dos dentes?
Sou eu.
Rindo pra sempre.


28 de janeiro de 2015

O leque

Tela: Der rote Fächer (1892), Eugene de Blaas

Gostei tanto de você,
que virei leque fechado.

Sem expor a minha estampa,
não me arrisco a desagrado.

Vai que é minimalista?
Meu desenho é rebuscado.

Vai que gosta de rendado?
Meu arremate é laminado.

Ligeireza e golpe acústico
no abrir e no fechar?
Ts. Ts.
O meu corpo é delicado.

Reservada em minhas
dobras
no calor de fevereiro,
seu toque rústico
é uma miragem
que só agita a minha sede.


27 de janeiro de 2015

Alvorecer

Tela: Green Field (1889), Vincent van Gogh

Troncos reluzentes se estufam,
safiras ornam a grama,
o pomar se veste de filó.
Ao redor, uma saia farfalha.

Dentro, a faísca
que despertou a paisagem:
o amor me visitou.


25 de janeiro de 2015

Paixão

Tela: El Jaleo (1882), John Singer Sargent

Como pode passar rápido,
e deixar pegada funda?

Sair há horas da água,
e ela continuar revoluta?

Que vento é esse que soprou há dias,
e a copa fica balançando?

As pedras sossegaram,
mas a poeira segue levantando.

Recolheram as brasas apagadas,
e dentro elas estão inflamando.

A festa acabou,
mas depois que ele me viu
ainda ouço a guitarra:
vivo dançando.


A Paquera

Tela: Boating Couple (said to be Aline Charigot and Renoir) - about 1881 - Pierre-Auguste Renoir

Pus uma pedra
sobre a página -
mas pra ela não virar.

E todo momento,
como quem abre a Bíblia
no Salmo 90
e a põe pra enfeitar,

Releio as linhas
daquela tarde
em que nos pusemos
a conversar.

Suas palavras
tramaram uma rede
da qual não quero
me levantar.

Descanso (ou me inquieto?)
nos olhos que se cruzavam
e nas bocas
que não se punham a beijar.


Virgem

Tela: Flora (1889),
John Roddam Spencer Stanhope

Não sei quando vou revê-lo:
virei muro,
pra poder me reconhecer.

Diverso da flor que seca,
da árvore que desfolha,
do pássaro que depena,
do gato que foge -
o muro se aquieta, inerte.

Assim eu pensava
até me ver brotar musgos,
grafites, descascados.

Sim: as estações, em todos,
deixam suas marcas.

Você vindo ou não,
como seguirei intacta?

22 de janeiro de 2015

Embriaguez

Tela: The way you hear it, is the way you sing it (1665), Jan Steen

O álcool faz suas vítimas.
A mais óbvia,
o embriagado:
rouba-lhe o senso,
o nexo
e as coordenadas.

Mas não a única.

Mais tarde,
suspira
quem ouviu juras de amor
de quem não se lembra
de nada.


Volátil

Foto de Alex Valavanis

Uma bala
é a duração da felicidade.
(Na boca, um rasto de menta.)

E vamos em busca,
mesmo sabendo que a explosão
fica na saudade:
a realidade, não sustenta.


21 de janeiro de 2015

O deleite

Tela: Le Déjeuner au bord de la rivière (1879), Pierre-Auguste Renoir

Que você é uma flor
eu já sabia:
eis um inseto
pousado em sua barba.

O impulso de enxotar,
domino
pelo prazer de vê-lo
empossado
onde eu queria reinar.


20 de janeiro de 2015

Amor

Tela: Liebespaar (1913), Egon Schiele

A uns, o que é plano
e claro
pra divisar
o outro lado.

A mim, becos
e arbustos -
o que não se vê
e exige tato.

Seu rosto é assim:
imerso na barba,
quis tocar
(paixão no ato).


Adubos

Imagem de Karen Arnold

Numa caixa
guardo tudo de mais lindo:
grampos da minha avó
cílios postiços da madrinha
e um opúsculo
que minha prima escreveu
sobre a minha vida.

Não uso bobs
os cílios perderam a cola
e o opúsculo
vai até meu último ano
na escola.

(Quem não tem souvenirs
pra alimentar
a própria árvore genealógica?)


Preferência

Tela: Hercules - second half of 17th century - Anonymous

Coração vulgar
em figura franzina
que se inflama
com as loiras e lindas.

Seu porte repulsa
por ser puído:
sem eira nem beira
não presta abrigo.

Se fosse mulher,
ficaria sozinho.
Mas é homem -
há alguém a caminho.

Imensa,
de perfil protetor.
Ou fragilizada,
precisando de amor.

Pode até ter potência,
mas dispenso os favores:
sem força e eloquência,
nada de amores.


Metamorfose

Tela: La Toilette (1875), Étienne Tournes

Sabonetes líquidos
arrancam o meu couro -
alergia adquirida há anos.

Vão lavando
e escamando a minha derme -
como o bebê
que esqueceram na estufa.

Amiúde,
por dever de higiene,
perco as cascas
uma a uma.

No espelho,
o que era jacaré
ganha essência de molusco.


Fleuma

Tela: Nude in Dappled Sunlight (1915), Frederick Carl Frieseke

Sob calor
tudo sobe:
balão,
ânsias,
membros.

Mas sol vespertino
é fraco:
requenta sonhos,
soluções,
lampejos.

Muito pouco
evapora.
Comigo,
velhos desejos.


O atleta

Foto: Statue de Jean de Valois-Orléans,
comte d'Angoulême (1399-1467), par Gustave Louis Gaudran (1876)
-

Autor: JLPC Wikimedia Commons CC-BY-SA-3.0

Para Kaká

Enquanto todos te imaginam
correndo, ofegante
eu te prefiro de joelhos.
Cortado pela metade,
adorando o Criador.

Diminuto
pela razão exata -
o que te torna sedutor.

Num mundo
onde todos se põem nas alturas,

Tu
aspiras a elas pela via certa:
rente ao chão,
como condiz às criaturas.


Devoção

Foto de Ramon FVelasquez

É uma estátua feia de Jesus.
Dedos juntos,
olhos estatelados.
O cabelo
parecendo um manto
mal-lavado,
posto rígido
sobre a cabeça inclinada.
Pra esquerda.
(Sempre.)

No centro
um coração vermelho
de raios alaranjados.
Tão mal-feitas
a chama, a cicatriz.
Os pés escondidos
sob flores de plástico.

Lá no Céu,
imagino o retratado
mão na testa,
inconformado.
(Quem gosta
de ter filme queimado?)

Mas eis que uma senhorinha
entra
lhe estende a mão
e de olho espremido
faz uma prece sentida.
É Deus -
o que mais importava?


1 de janeiro de 2015

Sem Resposta

Tela: Aufgehender Stern (1931), Paul Klee

Aqui,
num ponto miúdo
no Google Maps,
forjo uma oração
pra subir ao céu.

Delicada, qual agulha
atravessa as malhas
de ar
e eu torcendo
pra ela não se curvar.

Num ponto inescrutável,
que o Hubble
não captou,
um anjo a vê passar.

É uma estrela
às avessas:
errante,
tomou rota ascendente
sem nunca pousar.