17 de setembro de 2014

Poema encadeadinho

Imagem: Gezeichnet und Lithographiert von Tangermann (1832), Friedrich Harkort

Comi carne de porco
hoje - a mais suja.
Mamãe sempre repetia:
saco vazio não para
em pé.
O meu está cheio -
resolvi me deitar.
Contar carneirinhos
é menos chato
que ser tesoureira -
não ganho salário,
mas trago as mãos limpas.
Tem hora que o galo
é maluco:
canta no meio da tarde.
Ou não vi o tempo
saltar?
Da janela, uma, duas
três... Quatro casas
sem pintura.
Eu também: comprei seis
sombras e um blush
de bastão.
Minha avó andava alinhada,
mas tinha dor de coluna.
Meu avô secava verruga,
mas andava orgulhoso
de joanete na Havaiana.

Não faço as unhas,
porque descascam.
Não descasco laranjas,
porque me corto.
E porque as firo -
ruim chupar assim.
O órgão mais esperto
é a boca:
papilas gustativas
não deixam nada escapar.
Nem língua de boi,
nem coxas de gato,
nem os foras da galinha.
Eu não lambo: mordo.
Minhas marcas
estão por aí.
Quando mastigo,
faço barulho:
minha mandíbula é solta
de tanto queixo caído.
Me espanto o tempo
inteiro:
com a cara de pau
das formigas,
com as linhas
na minha cara,
com a minha cara metade
que ainda está por aí.


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