6 de junho de 2014

A morte do engodo

Tela: Arrival of the Normandy Train, Gare Saint-Lazare (1877), Claude Monet

As coisas não morrem
de repente.
Às vezes, nem as pessoas.
Acompanhei a saga
do meu avô-poeta
no Box 16 de uma UTI
e vi
que a morte faz hora.
Sua falta de pressa
até engana:
cheguei mesmo a pensar
que ele sairia andando.

Falemos das coisas.

A partida foi anunciada,
mas se demoram na estação.

Abraços forçados,
discursos vazios,
lágrimas que evaporam
(antes de nascer)
tomam lugar
do que já foi concebido
e quer chegar.

Mas as coisas quase
mortas
se impõem
como árvores velhas,
frondosas,
cujo visgo e lodo
cheiram ácido,
mas amaciam.
A gente chega a blasfemar:
Trem Bão Demais.

Não é.
Tudo tem um limite.
Até as sequoias.

Como pessoas,
coisas também morrem.
E por mais que se
arraste
e traga aflição,
hei de ver este engodo
sumir da borda da estação.

Tela: Rain, Steam and Speed – The Great Western Railway (1844), Joseph Mallord William Turner


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