2 de maio de 2014

Fuga

Tela: Bahnhof Davos (1925), Ernst Ludwig Kirchner

Há mais poesia
no caule áspero
das árvores -
disso, tenho certeza.

Mas me criei
no concreto armado:
hei de achar
a beleza aqui.

Beleza
no muro crispado,
que me esbarrava
na infância,
lanhando ombros
e braços.

Beleza
na água suja,
que escorre brilhante
entre o passeio
e o asfalto.

Também
nas britas
que rolam
no chão.

No desnível,
nos buracos,
nas pinturas
que descascam.

Até no carro
que espera outro
converter,
pra poder seguir.

E no ônibus azul
que freia lentamente,
pra passageira
subir.

E nos fios pretos
nos postes,
em que pousam
cadarços, pipas
e pássaros.

E no ar
com cheiro forte
de ferro,
de diesel,
de enxofre.

No meu passo pesado,
pra tomar rumo
de casa
e me lustrar,
proteger,
ir dormir.

Tela: Artistin (Marzella) - 1910 - Ernst Ludwig Kirchner


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