2 de abril de 2014

Fatalidade

Tela: Still Life Brass and Glass (1888), William Merritt Chase

O tempo
é uma grande jarra
cheia de suco
na qual Deus esbarrou
e não cansa
de derramar.

Em poções caudalosas
e vermelhas,
o suco de tempo
cai da jarra e da mesa,
levando em litros
(sem volta)
frações de vida. Momentos.

Vão embora
os fios escuros,
de que me disseram
ao nascer: "castanhos".
Vão embora
a pele sem manchas,
o rosto sem linhas,
orelhas e nariz
pequenos.

Ficam os brancos,
as sardas,
as dobras.
E um mundaréu
de lembranças
que me entram
pela porta.

O suco escorre
e dispõe
um fardo pesado.

Que vem num saco
cru de batatas
sem alça, corda,
sem nada.

Tem volume
e presença:
ocupa o presente
e existirá no futuro.

Sim: quanto mais
suco se derrama
mais passado
se acumula no saco cru
de toda gente.

Resta mirar
triste a jarra e
sorver o vermelho
ao som do tic-tac.

Aceitar (lambuzada
de cremes)
a cotovelada de Deus
e aguardar (agarrada
a Sua saia)
o fim da linha. Pra mim.

Tela: Breakfast Table with Blackberry Pie (1631), Willem Clasz Heda


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