22 de março de 2014

Pedro de mau humor

Tela: Hochbahnhof Bülowstraße bei Nacht (1922), Lesser Ury

A chuva
desaba lá fora.
Faz barulhão.
A chuva, em si,
tem som de nada.
A batucada se dá
onde ela bate.

É uma ópera e tanto!
Vai num crescendo,
explode,
depois retrai
outra vez.

Talvez eu
assista pela janela
suja,
mas não.
Melhor manter
persianas fechadas,
ouvir o som,
adivinhar movimentos.

Mesmo porque
já vi tudo:
a rua deserta,
as árvores chacoalhando,
um carro, dois
que passam,
a sacola
biodegradável
que se arrasta vazia,
louca, sem entender.

E tudo branco, cinza;
cinza; cinza; cinza.

Pedro de mau humor
deve ser isto:
a ópera retumbante
Cai a Chuva.

Parou.

De repente, sumiram:
crescendo, explosão,
recuo.
Foi-se o som
que preenchia a matéria.
Esta massa imensa
de gravidade e oxigênio.

Neste instante,
ficamos eu
de camisola
no sofá,
a janela suja, fechada
e o ruído dos desejos
e pesares
na minha mente.

Tela: Whitehall. Twilight. The rain (2006), Simon Kozhin/С.Л.Кожин


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