5 de março de 2014

Outra foto de Cartier-Bresson

Gueto de Varsóvia, 1931 - Fonte: Veja (27-10-99)

Um homem feio
me estende a mão.
Assim: na minha cara.
Tipo de atitude
que obriga reação.
A dar o que ele quer.
Como estava no século 20
e eu, no 21,
dei-lhe olhos marejados
na livraria de manhã.

Retinho feito um soldado
ou uma estátua retinta,
o homem feio
de barba embolada
exibiu sua pobreza
com toda a envergadura
bem diante de mim.

"Eis o que sou: pobre."
"Eis o que tenho: nada."

Chorei triste:
há gente desse jeito
aqui.
Chorei de alívio:
a miséria,
frequente lá fora,
me aflige.
Chorei vermelha:
não posso fazer
coisa alguma.
(Como não faço pelos de agora.)

Podia ser um ator
posando,
travestido de pedinte.
A legenda, porém,
não permite:
"Gueto de Varsóvia, 1931".

O homem feio
foi de verdade.
Sua impotência
existiu.
E hoje, anos depois,
me confronta,
me atiça,
me atinge.


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