23 de março de 2014

Deus, eu e quem mais chegar

Tela: Un dimanche (1888-90), Paul Signac

Incrível como nossa casa
é cheia
de visitantes indesejáveis.

Pela janela que abri
- só pra me refrescar -
me entra um inseto
preto, com
asas girando feito beija-flor,
mas lento como besouro.

Fiquei à espreita,
pra ver se não achava
graça por aqui
e cascasse fora.
Ou eu pisquei,
ou me distraí,
ou ele não saiu.

E ainda está
por aí:
na prateleira mais
alta da estante branca,
atrás do sofá marrom,
voando rasante
sob o carrinho azul-
marinho,
percorrendo (penetra-
itinerante)
os cômodos vários
e sóbrios
do nosso recanto.

Hei de rever o
inseto estranho?

Outros que vêm (e não vão)
são os pelos
amarelos
das mantas novas
do sofá marrom.

Por mais que os
escorrace
com a vassoura
e a pá, firmes
eles retornam!

São pelos-
dançantes
que rolam
nada tímidos
pelos tacos cor de
caramelo do chão.

Bate o vento,
cambalhotam,
dão passinho complicado
de tango. Juro:
dá pra ouvir o Piazzolla.

O inseto preto,
os pelos amarelos.

E eu que achei que
em casa alheia
só se entra
sem ser convidado
à força de mandado.

Na prática,
a coisa é outra.

Na prática,
por mais que queira,
nunca estou só.

Aqui,
Deus e eu
temos sempre companhia:
inseto sem teia, pelos que bailam
e quem mais chegar...

Tela de 1817 by Caspar David Friedrich


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