8 de dezembro de 2013

Cuidar do corpo sim. Mas... SEM esquecer a ALMA

No empenho de nos tornarmos pessoas bonitas por fora,
negligenciamos o esforço de vencer nossas piores inclinações

Depiction of a soul being carried to heaven by two angels
(Representação de uma alma sendo levada para o céu por dois anjos),
William-Adolphe Bouguereau (1825–1905)

Eu já fui espírita kardecista. Nasci num lar católico, mas lá pela minha adolescência nos tornamos kardecistas. Aí, caiu nas minhas mãos a famosa obra "psicografada" pelo "médium" Chico Xavier: Nosso Lar. Não li. Ou melhor: li. As primeiras páginas. E só.

O que me marcou (e nunca mais esqueci) foi que a personagem principal, um homem chamado André Luís, ao chegar ao outro lado, foi chamado de "suicida" e discordou: - Suicida, eu? Vocês estão loucos! Eu morri em um hospital, durante uma cirurgia!

Mais à frente, explicaram a ele que "suicídio" não é só quem pega uma arma e atira contra o peito ou a cabeça; nem somente quem amarra uma corda no pescoço e salta de um banco ou uma árvore; nem apenas quem enche os bolsos de pedras e se afoga num rio - como a escritora Virgínia Woolf. Para a doutrina espírita, suicida é todo aquele que não cuidou do próprio corpo em todos os sentidos.

Por exemplo: um alcoólatra (caso de André Luís); quem come demais; quem é negligente com a própria saúde e não procura o médico quando deveria fazê-lo; fumantes inveterados; consumidores de anabolizantes ou de qualquer outra droga, caso morram devido a isso, são todos considerados suicidas de acordo com o kardecismo. Por quê? Porque não se cuidaram, provocando, de algum modo, a própria morte.

Fotografia de George Hodan

Voltei à Igreja Católica Apostólica Romana em 2006. (Ou teria sido em 2007?) Pra quem está de fora, parece que o "catolicão", aquele "genuíno", "de verdade mesmo", deve "gostar do sofrimento", mortificar-se e não dar muita bola pra aparência nem para o próprio corpo, descurando-se dele e preocupando-se apenas com a alma. Não foi isso que encontrei no Catecismo da Igreja Católica (Edições Loyola, 2000):

362. A pessoa humana, criada à imagem de Deus, é um ser ao mesmo tempo corporal e espiritual. (...)

364. "Unidade de corpo e de alma, o homem, por sua própria condição corporal, sintetiza em si os elementos do mundo material, que nele assim atinge sua plenitude e apresenta livremente ao Criador uma voz de louvor. Não é, portanto, lícito ao homem desprezar a vida corporal; ao contrário, deve estimar e honrar seu corpo, porque criado por Deus e destinado à ressurreição no último dia."

365. A unidade da alma e do corpo é tão profunda que se deve considerar a alma como a "forma" do corpo; ou seja, é graças à alma espiritual que o corpo constituído de matéria é um corpo humano e vivo; o espírito e a matéria no homem não são duas naturezas unidas, mas a união deles forma uma única natureza.

The Creation of Adam, Michelangelo Buonarroti (1475–1564)

O Catecismo também contempla os excessos.

Vivemos num tempo em que o corpo é o foco. Para o bem ou para o mal. Ou cuidamos demasiadamente dele - devotando horas de exercícios nas academias e encarando loucuras alimentares (como a "dieta do alface" do Padre Marcelo Rossi) - ou o prejudicamos com drinques, poucas horas de sono e muitas plásticas. Eis o que a doutrina católica fala sobre os cuidados com o corpo:

2289. Se a moral apela para o respeito à vida corporal, não faz desta um valor absoluto, insurgindo-se contra uma concepção neopagã, que tende a promover o culto do corpo, a tudo sacrificar-lhe, a idolatrar a perfeição física e o êxito desportivo. Em razão da escolha seletiva que faz entre os fortes e os fracos, tal concepção pode conduzir à perversão das relações humanas.

2290. A virtude da temperança manda evitar toda espécie de excessos, o abuso da comida, do álcool, do fumo e dos medicamentos. Aqueles que, em estado de embriaguez ou por gosto imoderado pela velocidade, põem em risco a segurança alheia e a própria, nas estradas, no mar ou no ar, tornam-se gravemente culpáveis.

Fotografia de Petr Kratochvil

2291. O uso da droga causa gravíssimos danos à saúde e à vida humana. Salvo indicações estritamente terapêuticas, constitui falta grave. A produção clandestina e o tráfico de drogas são práticas escandalosas; constituem uma cooperação direta com o mal, pois incitam a práticas gravemente contrárias à lei moral.

De volta à Igreja e "rata de livraria", descobri uma outra obra que levei pra casa: Conversando com as Almas do Purgatório (Ave-Maria, 1996), de Eugênia von der Leyen. Com a leitura desse livro horripilante e inesquecível, compreendi que o trem estava bastante feio pro meu lado. Explico.

Como escrevi linhas atrás, o foco está tão preso no corpo - lipoaspiração, silicone, dietas, academia, cintas, remédio para emagrecer, mechas pra alongar o cabelo, tatuagens, etc. -, gasta-se tanta energia empenhando-se em ficar "mais gata" e "mais gato", que nos esquecemos de consagrar o mesmo esforço à alma. Ela,

que designa o que há de mais íntimo no homem e o que há nele de mais valor, aquilo que particularmente o faz ser imagem de Deus: "alma" [é] o princípio espiritual no homem. (Parágrafo 363 do Catecismo)

Ela fica esquecida. De escanteio. À deriva, como se virasse pura para o encontro com o Senhor assim... Por "osmose". Num click de mouse do computador. Em 2 toques mágicos da varinha de condão. Plim. Plim.

A classic fairy with a wand

Ao ler Conversando com as Almas do Purgatório, não demorou pra me dar conta de que minha alma andava de canto. Mesmo rezando, mesmo indo às missas, mesmo sintonizando a minha TV invariavelmente na Canção Nova, mesmo ouvindo as palestras do Padre Léo e da Irmã Maria Eunice o dia inteiro, ainda assim, meus pensamentos, minhas palavras e minhas atitudes me arrastavam para baixo.

A gente acha que fazer tudo isso que acabei de descrever (ir às missas, etc.) é o bastante. A gente acha que não roubar, não trair e não matar é o bastante. E bater no peito e parodiar Tim Maia: "Não fumo. Não bebo e não cheiro" é o bastante. Cuidar da alma exige mais do que isso. Uma alma pura é trabalho de dia a dia e de uma vida inteira. Um mau hábito que levamos para o túmulo basta pra nos condenar. Foi o que li na obra de Eugênia von der Leyen.

Eu não fumo, contudo, se desejo o mal do meu irmão, isso é sim uma forma de "cavar minha própria cova espiritual". Eu não bebo, entretanto, se difamo minha sobrinha, minha cunhada ou minha nora, é uma forma de pôr um tijolão na minha trilha rumo ao inferno. Eu não cheiro, no entanto, se adoro fazer fofoca e intriga, se minhas palavras separam, em vez de iluminar e unir, dificilmente verei a face do Senhor. Resultado: purgatório sem fim.

Enfim: a leitura de Conversando com as Almas do Purgatório foi uma sacudida e tanta (pra conhecer um pouco desse livro incrível, acesse o Post Você pensa em COMO estará depois da sua morte?).

Ao terminar de escrever este Post d'A Católica, me convenço de que tenho muito, muito, muito trabalho pela frente. Comer nas horas certas, dormir mais, procurar sair mais... Principalmente, refrear minhas manias arraigadas. Antes que elas me vençam e me atrapalhem a chegar ao Céu - lugar almejado por todos nós.

Cristo Redentor, Rio de Janeiro (BRASIL) - 2012
Fotografia de Leandro Neumann Ciuffo from Rio de Janeiro, Brazil



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