1 de novembro de 2013

Afastem de mim este CALE-SE (a polêmica das biografias)

Não pode haver censura prévia a esse gênero literário tão importante
para a história, como defendem alguns artistas no Brasil

Imagem: "Quieto! Conversa fiada pode custar vidas" (em inglês) -
1941-1945 - Fonte: U.S. National Archives and Records Administration


Ponto nº 1 – Amo a 7ª Arte e sou fã de carteirinha das criações de Billy Wilder, Woody Allen e Walter Salles. Porém, o que eu curto mesmo são os filmes dirigidos por cineastas chamados de “documentaristas”, como João Moreira Salles. Uma de suas criações, O Vale, me marcou muito, ao contar a história dos herdeiros dos grandes produtores de café do século XIX, aqui no Brasil. Todos eles muito distantes da riqueza e da fartura que circundaram seus ancestrais.

Ponto nº 2 – NÃO GOSTO de romances. À exceção de Machado de Assis, que acho mordaz e divertidíssimo, da Virginia Woolf e do Ignácio de Loyola Brandão contistas, Jorge Amado e Cia. Limitada não têm vez comigo. Sinto muito. A seção de Literatura nas livrarias não recebe a minha visita, a não ser a parte dedicada à poesia e às crônicas. Não tenho paciência para histórias “inventadas”, para personagens que nunca existiram. Para reinos encantados. Sou assim (defeito de fábrica...).

Ponto nº 3 – Quando estudei Letras, numa das primeiras aulas, uma professora (cujo nome infelizmente não me recordo agora) deixou bem claro para nós que a distinção entre as palavras estória com E e história com H estava extinta. Explico.

Usava-se “estória”, começando com a letra E, para designar narrativas ideadas, totalmente criadas, como os romances e os contos de fadas. E “história”, iniciando com a letra H, para especificar as narrativas de fatos que teriam realmente acontecido, num tempo e num lugar determinados, reais, verdadeiros.

Entretanto, com o avançar da história, aprendeu-se que toda história não deixa de ser uma versão. Por mais que o historiador ou o jornalista ou um pesquisador tenham se dedicado a coletar dados e ser o mais fidedigno possível ao que aconteceu naquele tempo e naquele lugar com aquela pessoa ou aquele grupo social, no fim, o resultado não deixa de ser a versão daquele profissional: trata-se do OLHAR DELE.

Em resumo: toda história – agora, sempre com H vai variar dependendo de quem a conta. Por isso, ela pertence a quem a escreveu. Não interessa se é sobre Jesus Cristo ou sobre o Vale do Paraíba (como no caso do documentário O Vale e tomando emprestada a comparação do biógrafo Paulo Cesar de Araújo). Mas, o que isso tem a ver com o título deste Post do Blog A Católica?

Parte das biografias do Farney - Outubro de 2013 -
Fotografia de Ana Paula (acatolica.com)

Nesse mês de outubro, caro internauta, levei um susto: zapeando com o controle remoto da TV, descobri que artistas, políticos e juristas estão “em polvorosa”. Por quê? Um grupo de cantores, entre eles gente como Chico Buarque de Holanda, que passou a vida lutando a favor da liberdade de expressão, está defendendo “o direito” (!!!) de proibir que biografias sejam publicadas sem que o biografado dê “uma olhadinha antes”.

Eles tentam se fundamentar no “direito à privacidade”: argumentam que querem se proteger evitando “abusos”, ao impedir que biógrafos mal-intencionados publiquem “inverdades” que possam denegrir a sua imagem. (Agora, imagine se Alexandre, o Grande; Cleópatra; Nero; JFK e Elvis Presley tivessem sustentado o mesmo... Não conheceríamos metade da história dessa gente.)

Ante a reação negativa da imprensa brasileira, alguns deles – os cantores e compositores setentões Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Gilberto Gil – gravaram um vídeo em que afirmam que “não são censores”. Não? Se eu escrevo algo e, antes de publicá-lo, ele deve passar pelo crivo de alguém, tal como acontecia durante a Ditadura Militar aqui no Brasil (1964-1985), isso é censura prévia sim. Não adianta pôr panos quentes, bicho.

Continuemos com os pontos.

Parte das minhas biografias - Outubro de 2013 -
Fotografia de Ana Paula (acatolica.com) - CLICK para vê-la ampliada

Ponto nº 4 – Se não gosto de romances, o que eu curto então? Quando visito livrarias, além das seções de Religião, História e Filosofia (cof. cof. cof.), outra que não deixo de conferir é a de Biografias. É um dos meus gêneros favoritos. Como prova de que não é blá-blá-blá de bloggueira que escreve sobre a “polêmica das biografias”, este Post d’A Católica está pontuado de fotografias de parte da coleção minha e do meu marido, Farney.

Sempre amei ler sobre a vida de pessoas que chamam a minha atenção pela marca que deixaram no meu país e no mundo: Greta Garbo; Leila Diniz; Cacilda Becker; Isadora Duncan; Dom Pedro II; Barão de Mauá...

Quando li na introdução do magnífico Mauá - Empresário do Império (Cia. das Letras, 1995; 2001) que o autor, o jornalista Jorge Caldeira, vendeu tudo o que tinha, a fim de conseguir viajar e pesquisar a fundo a vida do seu biografado e oferecer a seus leitores uma obra decente, bem fundamentada, o mais abrangente possível e (a cereja do bolo) muito bem redigida, fiquei emocionada. Ler o livro inteiro foi uma experiência tocante e inesquecível do que um bom biógrafo é capaz: do (quase) impossível.

Assim como um romancista – o sucesso de vendas Paulo Coelho, por exemplo – tem a liberdade de pesquisar em arquivos ou recorrer simplesmente a suas memórias e a sua imaginação para redigir o seu próximo romance; um biógrafo merece do mesmo jeito, para desempenhar o seu trabalho, a liberdade de ir e vir, a liberdade de entrevistar e apurar o que quer que seja para escrever a respeito do seu tema, qual seja, o seu biografado, qual seja, uma personalidade que tenha feito a diferença na história do Brasil e do mundo.

Mauá - Empresário do Império,
que li por indicação da diplomata Débora Vainer Barenboim,
e Sinatra - A Vida, mais recente aquisição do Farney -
Novembro de 2013 - Fotografia de Ana Paula (acatolica.com)

Outra parte das minhas biografias - Outubro de 2013 -
Fotografia de Ana Paula (acatolica.com)

Numa ocasião, tive o privilégio de acompanhar pelo canal de TV a cabo History Channel a série America - The Story of Us, sobre a biografia dos Estados Unidos da América. O diferencial, digamos assim, é que ela era contada a partir das histórias individuais de cada personagem, de cada pessoa, naquela respectiva época. Sensacional. Moral da história: ficou claro para o telespectador que a história é feita por gente e de gente. Pelo indivíduo que a vive e por quem a conta.

Ponto nº 5 – Por tudo o que foi exposto ao longo deste Post do Blog A Católica, Gilberto Gil; Erasmo Carlos e toda a turma em prol da “biografia autorizada” não têm o direito de censurar o trabalho de um biógrafo, alegando “defesa da privacidade”.

“Biografia autorizada” que seja “isenta” pode até existir – meu marido leu a do Steve Jobs e ficou surpreso com a liberdade que o autor Walter Isaacson teve de relatar os defeitos e idiossincrasias do seu biografado. No entanto, acredito que isso seja a exceção da exceção: o mais provável é que, em uma “biografia autorizada”, o Lado B da personalidade retratada seja vetado ou, no mínimo, camuflado. Quem pagará por isso é a versão mais fidedigna da história...

Para cerrar as cortinas, o que me espantou neste bafafá todo sobre a polêmica das biografias foi saber que Chico Buarque de Holanda, o homem que cantou Pai, afasta de mim esse cálice, querendo na verdade dizer cale-se, em referência à censura às criações artísticas que a ditadura no Brasil impunha, esteja conivente com a patacoada do fim das biografias não-autorizadas. Um compositor desse dando razão à postura do Roberto Carlos? Tenha dó! Quem te viu, quem te vê, hein, Chico?


P.S. Na língua portuguesa, cálice e cale-se têm o mesmo som.

P.S.2 Para saber + : Entenda polêmica sobre a proibição de biografias não-autorizadas - Fantástico.

Outra parte das biografias do Farney - Outubro de 2013 -
Fotografia de Ana Paula (acatolica.com)


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