5 de outubro de 2013

Carlinhos Brown, The Voice Brasil e a Raça Negra

Exaltar os negros da boca pra fora é fácil.
Bonito é demonstrar isso com as escolhas íntimas e pessoais

(Fotografia de Anna Langova)

A estreia da 2ª temporada do programa The Voice Brasil na Rede Globo de Televisão, na noite dessa quinta-feira, 3 de outubro, foi muito engraçada. Se existe um terapeuta à disposição de participantes e jurados (os cantores Lulu Santos, Carlinhos Brown, Cláudia Leitte e Daniel), provavelmente um deles o procurou para tratar de "rejeição": Carlinhos Brown.

Como na 1ª temporada - que, destaco, não acompanhei "de cabo a rabo" -, Carlinhos fez questão de se gabar da sua raça, a Raça Negra.

Logo de cara, após a apresentação do 1º candidato a uma vaga no programa, cujo objetivo - como o nome em inglês já denuncia - é eleger A Voz do Brasil, bem, o jurado baiano se levantou da cadeira vermelha, foi até o senhor de 47 anos, e exclamou algo mais ou menos assim: "Não é por nada não, mas a nossa raça canta demais...". Não me lembro das palavras exatas. (Sorry.)

O senhor estava de terno, chapéu, bengala e cantou lindamente, eu diria até magistralmente, Let's Get It On, canção imortalizada pelo norte-americano Marvin Gaye.

Após o elogio de Brown, exaltando que ele e o candidato de nome "Dom Paulinho" eram da mesma raça, como os 4 jurados haviam se virado na cadeira vermelha (nota: quando pelo menos 1 jurado se vira na cadeira, significa que o candidato foi aprovado), bem, isso dava ao intérprete de Let's Get It On o direito de escolher quem gostaria que fosse o seu "técnico" durante a competição. Qual não foi a surpresa quando ele singelamente respondeu: "Lulu" - o jurado branco!

A noite continuou...

Uma dupla caipira se apresentou cantando, se não me engano, uma canção de "autoria própria". E nada de ao menos 1 dos 4 jurados se virar na cadeira (nota: os 4 jurados apreciam as vozes dos candidatos de costas, sem os verem, e só se viram nas cadeiras se gostarem do que estão ouvindo). Até que, quase ao final da música, a dupla entoa um verso mais ou menos assim: "A nossa raça negraaaaa...". Pronto. Foi o que bastou para que Carlinhos Brown virasse a cadeira - ele foi o único a fazê-lo. Eu ri.

E a noite seguiu...

A última candidata entoou Coqueiro Verde, famosa na voz de Erasmo Carlos (artista que adoro). Mais uma vez, Carlinhos Brown demonstrou muita animação ante uma candidata negra, muito parecida com a cantora Mart'nália. Três jurados se viraram - à exceção de Lulu Santos, talvez por já haver formado um time razoável de bons cantores para uma noite de estreia. "E aí? Qual 'técnico' você vai escolher?..." A moça, que já vive de e para a música, respondeu: "Claudinha" - a jurada branca!

Esse apelo e apego do Carlinhos Brown com a Raça Negra é direito dele. Nada contra, muito antes pelo contrário. Acho até legítimo, embora algumas vezes soe hipócrita. Explico.

Dakar 2006, African women -
Fotografia atribuída a MAINDRU PHOTO

Anos atrás, fiz um curso numa escola muito séria e concorrida de teatro aqui em Minas Gerais. No 2º ano de formação, um professor (negro) de capoeira foi contratado para nos dar aula. Não me lembro do objetivo exato - talvez, para desoprimir ou desconstruir o nosso corpo, tornando os nossos movimentos menos "viciados", menos automatizados, menos mecânicos.

Esse professor, a quem deveríamos chamar de "Mestre", agia tal e qual o Carlinhos Brown: vivia enaltecendo a Raça Negra.

Havia uma única aluna negra na nossa turma, que acabou se tornando uma dramaturga premiada e de sucesso no meio teatral aqui no Brasil: Grace Passô.

Eu me lembro daquele "Mestre" de capoeira olhando pra ela e dizendo, diante de toda a nossa turma: "Grace, você tem que se levantar todos os dias de manhã, se olhar no espelho e se conscientizar: 'Eu sou a única aluna negra naquela escola branca... Eu sou negra...'". A Grace era talentosíssima (ainda é) e engraçadíssima. Lembro como se fosse hoje ela falando pra gente, meio perplexa, meio encabulada: "Quando acordo de manhã, eu não fico pensando nisso não... Aliás, nunca pensei: 'Eu sou negra'. Eu sou gente...".

Enfim.

Num dia, aquele professor, o tal "Mestre" de capoeira, avisou que levaria a sua esposa a uma de suas aulas para que a conhecêssemos. Quando a grande hora chegou, eu esperava ver uma negra linda, com o cabelo cheio de trancinhas ou todo enrolado, enorme, crescendo para o alto, como o da cantora norte-americana Macy Gray. Ts. Ts. Ts. Pasme, internauta d'A Católica: a ilustre esposa era branca, branquinha, do cabelo comprido, partido ao meio, liso e loiro, e com os olhos azuis.

Em tempo: Carlinhos Brown manteve, por anos, uma companheira branca. Helena, a "Lelê", é a filha do meio do cantor e compositor Chico Buarque e da atriz Marieta Severo. Juntos, Brown e Lelê tiveram 4 filhos.

Como os advogados costumam dizer nos tribunais nos filmes que passam na TV: "Nada a acrescentar".

Imagem de Twice25 & Rinina25

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