1 de março de 2013

Habemus papam! Ops. O que é um Papa?

A Católica pesquisou e compilou quase tudo
o que você sempre quis saber sobre um Papa.
São 20 dúvidas resolvidas. Tire-as AQUI

Imagem: Papa Paulo VI (1963-1978) - 1963 - Vatican City (picture oficial of pope)


Para Farney e Jaime Augusto,
pela paciência que tiveram comigo,
durante a preparação deste Post do Blog A Católica.


1) O que é um Papa?

Vamos começar pela semântica da palavra “Papa”.

Conforme o professor Richard P. McBrien, em Os Papas - Os Pontífices de São Pedro a João Paulo II (Edições Loyola, 2004), “papa” significa “pai” em italiano. Ele revela que o termo se aplicava, “nos primeiros séculos da história da Igreja, a todos os bispos do Ocidente” e, no Oriente, aos padres e ao patriarca de Alexandria - patriarca, segundo o autor, é “o título do mais alto bispo de igreja autônoma ou de federação de igrejas locais (conhecidas como dioceses ou eparquias)”.

Contudo, em 1073, o papa Gregório VII (1073-1085) determinou formalmente que o uso do título de “papa” ficava proibido para todos, a não ser ao bispo de Roma. Ainda de acordo o professor Richard P. McBrien, além de bispo de Roma, o Papa

Tem vários outros títulos: vigário de Jesus Cristo, sucessor do chefe dos apóstolos (vigário de Pedro), supremo pontífice da Igreja universal, patriarca do Ocidente, primaz da Itália, arcebispo metropolitano da província romana, soberano da cidade-estado do Vaticano e servo dos servos de Deus.

O padre jesuíta Thomas J. Reese, no livro O Vaticano por dentro - A Política e a Organização da Igreja Católica (Edusc, 1999), enumera os seus papéis: “Ele é o bispo de Roma, o governante soberano do Estado da Cidade do Vaticano, e o sucessor de São Pedro como chefe do colégio dos bispos.” E destrinça cada um deles:

Como bispo de Roma, é diretamente responsável pelas necessidades espirituais dos 2,6 milhões de católicos da diocese de Roma, assim como todos os bispos de todo o mundo são responsáveis pelas necessidades espirituais dos fiéis de sua Igreja local.

Como monarca da Cidade do Vaticano, um Estado independente [...], o papa é chefe de Estado civil como qualquer outro monarca de um Estado pequeno reconhecido no direito internacional.

Como chefe do Colégio dos Bispos, que inclui todos os bispos do mundo, o papa lidera e dirige a Igreja Católica, sobre a qual ele e o Colégio têm a suprema autoridade.

Fotomontagem feita na Europa, em 1889, com os maiores governantes do mundo.
Nota: Dom Pedro II, então imperador do Brasil, é o 8º da esquerda pra direita.
Papa Leão XIII (1878-1903) aparece bem à direita - Autor Desconhecido

(CLICK na imagem para vê-la ampliada)

Pope Leo XIII (circa 1898),
Historical Publishing Co., Pittsburg, PA

O sacerdote pontua: “O Estado da Cidade do Vaticano é um Estado soberano reconhecido no direito internacional. Quando um homem é eleito bispo de Roma e papa, também automaticamente torna-se dirigente da Cidade do Vaticano”. Ele continua: “Como governante da Cidade do Vaticano, o papa é o último monarca absoluto da Europa, com autoridade legislativa, judicial e executiva suprema”.

Jose Puente Egido, na obra Personalidad Internacional de la Ciudad del Vaticano (Instituto Francisco de Vitória, 1965), qualifica a função do Papa de maneira semelhante: “Conforme o tratado [de Latrão], a legislação interna vaticana conferiu ao Estado da Cidade do Vaticano um regime que se identifica notavelmente com o de uma monarquia absoluta”.

O jornalista J. D. Vital, em Quem calçará as sandálias do pescador? (Ed.Autor, 2003), cita a nova Lei Fundamental da Cidade do Vaticano, de 26 de novembro de 2000, e informa que o Papa é aquele que:

Será “Soberano” com “a plenitude dos poderes legislativo, executivo e judiciário”. O único, de acordo com o artigo 19 da Lei que substitui o documento baixado em 1929 por Pio XI [1922-1939], com “a faculdade de conceder anistia, indulgência, perdão e graça”.

O também jornalista Nino Lo Bello, autor de O incrível livro do Vaticano e curiosidades papais (Editora Santuário, 2003), pondera: o Papa “não é apenas o chefe executivo do país, mas também o legislativo e o judiciário; entretanto, não é nenhum ditador nem déspota”.


2) Por que o Papa também é um líder político?

O Padre Thomas J. Reese, em O Vaticano por dentro - A Política e a Organização da Igreja Católica (Edusc, 1999), relata o germe dessa função: “O papel do papa como governante secular começou quando o império bizantino perdeu o controle da Itália como resultado das invasões bárbaras. Com o colapso da ordem civil, as pessoas recorreram ao papa em busca de liderança”.

Uma observação: Constantino, imperador do ano 306 a 337, mudou-se para o Oriente, para uma nova capital, Roma Nova - mais tarde denominada Constantinopla -, a fim de ficar no centro do seu império, tentando unir Oriente e Ocidente sob o seu controle. Sobre esse fato, Michael Collins e Matthew A. Price, no livro História do Cristianismo (Edições Loyola, 2000), expõem que:

Embora o império comandado a partir de Constantinopla ainda se considerasse romano, logo passou a ser conhecido como Império bizantino. Em consequência da mudança de Constantino, o bispo de Roma se tornou a figura mais proeminente do Ocidente.

E ainda: “Com o colapso da administração civil durante o século V, as pessoas pediam ajuda ao bispo e sua corte. A Igreja era a única instituição que as defendia e sustentava”.

Os dois autores e também o professor Richard P. McBrien lembram o papel desempenhado por Leão I ou Leão Magno (papa do ano 440 a 461). O Sumo Pontífice dissuadiu Átila, o Huno, de atacar Roma, levando-o a retirar-se para além do Danúbio. Segundo o professor, que escreveu Os Papas - Os Pontífices de São Pedro a João Paulo II (Edições Loyola, 2004): “Três anos mais tarde também conseguiu impedir o rei vândalo Genserico de queimar a cidade e massacrar os habitantes”. Michael Collins e Matthew A. Price destacam a importância do seu currículo:

Antes de se tornar padre, o Papa Leão Magno [...] se distinguiu na carreira civil; sua experiência no sistema imperial e suas próprias qualidades serviram muito bem ao papado. E fortaleceu significativamente o papel do papa na Igreja Ocidental ao preferir o governo centralizador.

O encontro de Átila com Leão I, o Magno (440-461) - Obra de 1358

Pope Leo the Great persuades Genseric, prince of Vandals,
to abstain from sacking Rome (cerca de 1475), Maïtre François (illuminator)

De acordo com Rudolf Fischer-Wollpert, em Léxico do Papas - de Pedro a João Paulo II (Vozes, 1991): “Na medida exata em que de fato o poder da Roma Oriental decrescia na Itália, aumentava o prestígio e o domínio territorial do papa”. O professor Richard P. McBrien confirma:

Com o colapso total da ordem civil em Roma [...], Gregório [Gregório I, o Magno, papa de 590 a 604] tornou-se seu virtual governante secular. Para isso não lhe faltava experiência anterior, pois, antes de dispor de sua riqueza pessoal e se tornar monge, foi prefeito da cidade de Roma durante dois ou três anos.

Rudolf Fischer-Wollpert também se refere ao papel desempenhado por este outro papa, Gregório I. E, a exemplo de Richard P. McBrien, ressalta o seu currículo:

Com a experiência de antigo funcionário administrativo, Gregório soube levar a bom desempenho a organização [da propriedade fundiária da Igreja, que se estendia por toda a Itália e pela Sicília e viria a ser a base territorial do futuro Estado Pontifício].

Entretanto, isso aumentava simultaneamente o prestígio do papado, o qual, de forma quase espontânea, assumira a antiga função imperial de prover à proteção e segurança do povo. Igreja papal e sentimento cívico romano, na época em referência, mais e mais se fundiram na complexa tessitura de uma realidade só.

Pope Gregorius I (590-604) dictating the gregorian chants -
cerca de 1000 - Hartker of Sankt Gallen

Michael Collins e Matthew A. Price afirmam: “Roma teve a sorte de ter vários papas extraordinários que elevaram a posição especial do papado romano durante esses anos turbulentos”. Os autores esclarecem:

No meio desse caos [das invasões bárbaras que, por fim, provocaram a queda do Império romano do Ocidente], a Igreja permaneceu como um bastião. Ela assumiu a tarefa de catequizar as tribos invasoras, algumas das quais tinham se convertido ao arianismo [heresia do século IV que negava a divindade de Jesus Cristo] ou pagãs.

Os reis bárbaros apreciavam ter a Igreja como aliada e alguns cederam a bispos, abades e abadessas amplas porções de terra [que, nesse período, era o mesmo que dinheiro].

Bart McDowell, autor de O Vaticano (Klick Editora, 1991), é outro que sintetiza esse período alinhado com os autores mencionados acima:

Em 330 a.D. o Imperador Constantino levou a capital do Império Romano para o Oriente e a chamou de Constantinopla. As invasões das tribos germânicas e as disputas entre os barões locais levaram a Itália ao caos. Os papas restauraram a ordem e providenciaram serviços públicos; ao fazê-lo aumentaram seus poderes. Nos séculos seguintes eles se preocupariam com a arte de governar, exércitos e alianças.

No período medieval o prestígio e a autoridade do papado foram reforçados pela atuação do papa Gregório I [...]. [Ele] transformou-se virtualmente em governante da Itália no fim do século VI. Reorganizou as extensas propriedades da Igreja na península, lançando as fundações de um estado papal independente que resistiria mais de mil anos e transformaria os papas em dirigentes políticos de fato.


3) O que um Papa faz?

Bem, essa pergunta já foi respondida na primeira questão deste Post do Blog A Católica: "O que é um Papa?". Não obstante, o jornalista Nino Lo Bello detalha as funções de um Sumo Pontífice na obra O incrível livro do Vaticano e curiosidades papais (Editora Santuário, 2003). Nas palavras do autor, o papa pode fazer o seguinte:

- aprovar ou sancionar ou suprimir ordens religiosas;
- conceder indulgências;
- beatificar ou canonizar santos;
- nomear bispos e designar cardeais;
- erigir, administrar, alterar ou suprimir dioceses;
- indicar bispo auxiliar para bispo incapacitado;
- fundar e legislar universidades pontifícias;
- publicar livros litúrgicos;
- administrar os bens temporais das fundações eclesiásticas;
- erigir e governar missões dependentes da Santa Sé;
- convocar, presidir e cancelar concílios ecumênicos;
- determinar os dias santos e festas católicas;
- introduzir novos ritos e abolir os antigos;
- promulgar ex cathedra decretos sobre fé;
- introduzir, alterar ou suprimir leis eclesiásticas sobre qualquer assunto;
- defender a doutrina contra as heresias;
- dispensar dos votos e juramentos os membros de ordens religiosas que desejam voltar à vida secular;
- conceder dispensas matrimoniais;
- agir como um tribunal;
- estabelecer regrar para os processos judiciais;
- estabelecer censuras e punições;
- organizar tribunais para ouvir causas judiciais;
- organizar tribunais ou designar juízes sinodais para a diocese de Roma.

Pope Paul VI (1963-1978) during Second Vatican Council (1963), by Lothar Wolleh


4) O Papa ganha salário?

Não. É o mesmo Nino Lo Bello quem responde, em O incrível livro do Vaticano e curiosidades papais (Editora Santuário, 2003): "Quando um cardeal vence as eleições para a Sé [do latim sedes, "assento", é igreja local ou diocese] de São Pedro, na verdade, recebe uma promoção - mas com uma redução a zero em seus rendimentos. É incrível, mas é verdade: o Santo Padre não recebe um centavo de pagamento pelo que faz. E igualmente espantoso: o papa não tem nenhuma conta bancária".


5) Quem sustenta o Papa e os empregados do Vaticano?

O Padre Thomas J. Reese, no livro O Vaticano por dentro - A Política e a Organização da Igreja Católica (Edusc, 1999), expõe: "Como qualquer bispo, o bispo de Roma precisa de dinheiro para sustentar seu ministério".

Assim, nos anos 1990, foi estabelecido "um sistema de deduções de impostos e créditos voluntários. Os italianos podem deduzir até 2 milhões de liras* de sua renda tributável para doações à Igreja. (...) Além disso, (...) os contribuintes italianos também podem designar 0,8% de seus pagamentos de imposto de renda para a Igreja Católica, para outras igrejas da Itália ou para programas estatais".

Bart McDowell, na obra O Vaticano (Klick Editora, 1991), explica:

O Vaticano tem três administrações separadas. Uma para a diocese de Roma, outra para o Estado da Cidade do Vaticano e uma terceira para a Santa Sé [conceito que abrange o Papa e a Cúria Romana].

As finanças da diocese estão equilibradas [vide exposição do Padre Thomas J. Reese, acima]. E a Cidade-Estado tem ainda um lucro modesto com a venda de entradas dos museus, selos, cartões postais, livros, moedas e guias turísticos. A Santa Sé, ao administrar os assuntos da Igreja em todo o mundo, tem duas fontes de renda: juros de uma carteira de investimentos e as doações provenientes de uma coleta mundial anual.

Essa coleta, que é feita em todas as igrejas católicas durante as festas de São Pedro, em junho, chama-se Óbulo de São Pedro.

Papa Pio X (1903-1914) - 1904 - Karl Benzinger

Pius XI (1922-1939). eröffnet Radio Vatikan, 12.2.1931 -
Politisch Wissenschaftlicher Verlag Berlin, 1932

Na verdade, a arrecadação para o custeio das atividades do Papa como chefe de Estado, da manutenção dos edifícios e da infra-estrutura do Vaticano, do pagamento de salário e planos de saúde aos empregados e seus dependentes e das doações para caridade, enfim, toda ela se dá através das seguintes fontes:

- o Instituto para as Obras da Religião - conhecido como IOR ou Banco do Vaticano -, de uso restrito aos propósitos de caridade e aos empregados do Vaticano, a maior parte de seu lucro vai para o Papa ajudar as igrejas carentes e uma parte pequena, para a manutenção da Cúria Romana;
- o Museu do Vaticano (que atualmente é uma série de museus e galerias);
- o Correio do Vaticano, através do serviço postal, da venda de selos comemorativos e da emissão de moedas e medalhas;
- as lojas do Vaticano - incluindo um supermercado e um posto de gasolina -, utilizadas pelos empregados e pelos compradores das ordens religiosas romanas;
- o aluguel de cerca de 2.400 apartamentos em Roma;
- a Libreria Editrice Vaticana (livraria/ editora do Vaticano);
- a Tipografia Poliglotta (imprensa do Vaticano);
- a Escola de Mosaicos - fora a emissão de selos postais, conforme o jornalista Nino Lo Bello, em O incrível livro do Vaticano e curiosidades papais (Editora Santuário, 2003), "a fabricação de mosaicos é a única indústria do Vaticano. (...) Seu fornecimento de pedras coloridas, armazenadas e enfileiradas num longo corredor em cerca de 30.000 caixas, é o maior do mundo";
- o serviço telefônico;
- investimentos (em ações, imóveis no mundo inteiro, indústrias italianas e ouro);
- doações - "desde 1990", segundo o Padre Thomas J. Reese, "as dioceses foram solicitadas a contribuir para o sustento da Santa Sé [ou da Cúria Romana]". Também o foram fundações e congregações religiosas e outras entidades; por fim,
- o Óbulo de São Pedro, o qual, de acordo com Padre Thomas J. Reese, "atualmente refere-se ao dinheiro dado ao papa para ser usado segundo a sua vontade. A maior parte dele vem de uma coleta anual realizada nas dioceses do mundo todo, mas também inclui dinheiro enviado diretamente ao papa, em Roma". É a única fonte do dinheiro do Sumo Pontífice que "vem diretamente dos fiéis".

Os funcionários do Vaticano, ainda conforme o sacerdote, "dizem que, atualmente, a maior parte do Óbulo de São Pedro vai para ajudar a Igreja nos países pobres". É o que garantiu Dom Sergio Sebastiani, então presidente da Prefeitura dos Assuntos Econômicos da Santa Sé, em Quem calçará as sandálias do pescador? (Ed.Autor, 2003), de J. D. Vital: "O dinheiro do óbulo destina-se exclusivamente a obras de caridade indicadas pelo Papa João Paulo II em áreas de penúria no mundo".

O jornalista Nino Lo Bello completa:

[Trata-se de] uma prática estritamente voluntária. O dinheiro é coletado nas igrejas católicas em toda parte e doado em nome de São Pedro e São Paulo. Ao fazerem os bispos sua visita pessoal (ad limina) todos os anos ao papa, levam o dinheiro em forma de cheque, geralmente em dólares americanos.

Ao terminar o seu capítulo sobre as finanças do Vaticano, Padre Thomas J. Reese destaca: "Enquanto o papado durar, os papas vão precisar de dinheiro para salários, construções (igrejas, apartamentos e escritórios) e outros gastos, assim como para suas obras de caridade. O dinheiro tem de ser levantado e gasto".

*Atualmente, a moeda corrente na Itália é o Euro.


6) Por que os Papas não usam mais coroa?

Papa Pio II (1458-1464) - 1502-07 - Detalhe da obra de Pinturicchio

De fato, a coroa é chamada de "tiara" ou "tiara pontifícia", a qual, segundo o professor Richard P. McBrien, no livro Os Papas - Os Pontífices de São Pedro a João Paulo II (Edições Loyola, 2004), "é um chapéu pontifício genérico que tomou diversas formas no decorrer dos séculos". Ele continua: "A partir do século XV, a coroa pontifícia tríplice, parecida com uma colmeia, foi usada nas cerimônias de coroação dos papas".

O jornalista J. D. Vital, em Quem calçará as sandálias do pescador? (Ed.Autor, 2003), relata que "a coroa de três andares (...) já representou o poder papal sobre três reinos, como Rei dos reis, Guia do mundo e Vigário de Cristo (...)". Na obra Quero saber: a História Revelada dos Papas (Livros Escala, 2009), vem exposto:

Segundo o Liber Pontificalis de 1596, durante a coroação o protodiácono pronuncia as palavras: 'Recebe a tiara triplo-coroada e sabe que és o pai de príncipes e reis, o condutor da urbe e és o vigário de Jesus Cristo, nosso Salvador, sobre a Terra".

Padre Thomas J. Reese, em O Vaticano por dentro - A Política e a Organização da Igreja Católica (Edusc, 1999), afirma: "Após o conclave, o papa costumava ser coroado com a tiara pelo cardeal-diácono mais velho, mas João Paulo I [1978] aboliu esse costume". O professor Richard P. McBrien conta: "O novo papa [então, João Paulo I] rompeu a tradição de mais mil anos de prestígio, ao se recusar a ser coroado com a tiara tríplice". O último Pontífice a recebê-la havia sido Paulo VI (1963-1978).

De acordo com o professor, "mais tarde, ele vendeu a tiara ao cardeal Francis Spellman de Nova York e distribuiu o dinheiro para os pobres de diversos países. (A tiara está agora em exposição na Basílica do Santuário Nacional da Imaculada Conceição, em Washington, DC.) A partir de então, Paulo VI usou apenas a costumeira mitra episcopal como chapéu cerimonial".

Papal tiara of Paul VI (1963-1978) -
Interior of the Basilica of the National Shrine of the Immaculate Conception
in Washington, D.C. - Fotografia de Gryffindor

Ainda conforme o professor: "Desde João Paulo I, em 1978, os papas são 'inaugurados' em seu ministério com a investidura do pálio, a vestimenta de lã que o arcebispo usa ao redor do pescoço como sinal de autoridade pastoral". A respeito do pálio, Richard P. McBrien diz: "Consiste em uma faixa circular estreita de lã branca de carneiro marcada com seis cruzes púrpuras escuras e duas faixas penduradas na frente e atrás".

A obra Quero saber: a História Revelada dos Papas frisa que os sucessores de Paulo VI "também renunciam à cerimônia de coroação, porém, continuam a trazê-la [a tiara pontifícia] em seu escudo de armas pessoal. Já o Papa Bento XVI substituiu a tiara no seu brasão de armas por uma simples mitra episcopal com três anéis de ouro interligados".

Pope Benedict XVI (2005-2013) performing a blessing
during the canonization mass in St. Peter's Square -
October 12, 2008 - Fotografia de Rvin88

Nota: o Papa usa a mitra episcopal na cabeça e o pálio no pescoço.


7) Por que o Papa se veste de branco?

Pope Innocent V (1276) - 1350 - Tommaso da Modena
Os Padres John Trigilio Jr. e Kenneth Brighenti relatam no livro Catolicismo para Leigos (Alta Books, 2008):

Por ter sido, a maior parte dos papas, primeiramente cardeais antes de serem eleitos bispos de Roma, eles mantinham sua vestimenta escarlate, mas adornada por pele de arminho branco, durante a Idade Média. O Papa São Pio V, eleito em 1566, decidiu manter seu branco hábito dominicano de qualquer maneira, então ele adaptou a batina, uma longa toga clerical, fazendo-a branca. Cardeais usam vermelho, bispos vestem púrpura e padres vestem preto.

Nino Lo Bello, em O incrível livro do Vaticano e curiosidades papais (Editora Santuário, 2003), explica a cor da vestimenta dos cardeais:

O vermelho tornou-se a cor dos cardeais há mais de 500 anos, quando um papa natural de Veneza, Paulo II [1464-1471], que gostava de magnificência e pompa, foi o primeiro a vestir de vermelho seus cardeais (...). Naquela época, o papa usava vermelho todo tempo. Quando Pio V foi eleito papa em 1566, começou a usar o branco como veste típica do papa. Os cardeais usam o vermelho desde 1465, e a cor tornou-se símbolo de sua disposição de derramar o sangue pela fé.

O professor Richard P. McBrien, em Os Papas - Os Pontífices de São Pedro a João Paulo II (Edições Loyola, 2004), responde de maneira um pouco diversa:

Inocêncio V (1276) foi o primeiro papa dominicano. Continuou a usar a batina dominicana branca depois de eleito, por isso os papas subsequentes a adotaram como veste papal comum, embora pareça que o costume só foi instituído em definitivo no pontificado de outro dominicano, Pio V (1566-1572).


8) Onde o Papa mora?

É o jornalista Nino Lo Bello, em O incrível livro do Vaticano e curiosidades papais (Editora Santuário, 2003), quem responde:

O papa e certos membros oficiais da "família" vaticana vivem no Palácio Apostólico, que atualmente é o conglomerado de prédios construídos em geral durante a Renascença. (...) O palácio do papa é um dos maiores do mundo. O papa mora num apartamento do último andar que dá para a praça de São Pedro.

O autor continua: "O Palácio Apostólico [é] o edifício principal da Cidade do Vaticano onde o papa (...) reside. Tem mais de 1.400 aposentos, cerca de 1.000 lances de escada e 20 pátios". E mais: de acordo com Nino Lo Bello, existem 12.523 janelas na residência papal, o Palácio Apostólico.

Città del Vaticano - Palazzo Apostolico all'alba - 2006 -
Fotografia de MarkusMark

Città del Vaticano -
Palazzo Apostolico durante l'Angelus di Benedetto XVI (2005-2013)
- October 2008 - Fotografia de MarkusMark

Durante as férias de verão, os papas ficam em Castel Gandolfo - conforme o jornalista Nono Lo Bello, uma vila de cerca de 3.000 habitantes nos montes Albanos, a 21 km de Roma, sobre o "escuro e vulcânico lago Albano". Ainda segundo o autor, os visitantes "geralmente ficam surpresos ao descobrirem que a residência papal aí é quase 116 metros quadrados maior do que a própria Cidade do Vaticano".

Ele prossegue: "Gozando de extrarterritorialidade, (...) a residência, que cobre quase toda a extensão da vila de Castle Gandolfo, inclui três prédios principais, uma granja-modelo e o parque bem cuidado". E mais: "Perto [da granja do Papa] fica um observatório astronômico, situado em Castel Gandolfo e não na Cidade do Vaticano, para que os poderosos telescópios fiquem longe das luzes da cidade de Roma". O jornalista conta:

... Os visitantes que aparecem em dia de semana durante o verão não têm muita chance de ver o papa, mas aos domingos, [ele] dá a sua bênção ao meio-dia, aparecendo no balcão da residência que dá para a praça principal. Mais tarde, ele vai a um outro balcão que dá para um pátio para rezar o Ângelus e saudar as pessoas reunidas aí (elas têm passes especiais para entrar).

Castel Gandolfo, Sommerresidenz des Papstes -
2007 - Fotografia de Berthold Werner

US President George W. Bush and his wife Laura Bush visit
Pope John Paul II (1978-2005) at
Castel Gandolfo near Rome, Italy - July, 2001 - UserSoothingR


9) Qualquer pessoa pode se tornar um Papa?

O Padre Thomas J. Reese, na obra O Vaticano por dentro - A Política e a Organização da Igreja Católica (Edusc, 1999), responde: “Embora durante os nove últimos séculos os cardeais tenham em geral escolhido um deles para ser papa, eles podem procurar alguém fora do Colégio dos Cardeais”. Desse modo, “os cardeais podem eleger quem eles quiserem como papa, contanto que se trate de um homem batizado”. Ainda segundo o sacerdote:

Assim que a pessoa eleita consente em ser papa, se ela já é bispo, torna-se imediatamente bispo de Roma e papa com plena autoridade. Nenhuma outra cerimônia é necessária. Se não é bispo, deve ser imediatamente ordenado e então se torna bispo de Roma.

É o professor Richard P. McBrien, em Os Papas - Os Pontífices de São Pedro a João Paulo II (Edições Loyola, 2004), quem enfatiza: "O papa é, antes de tudo, o bispo de Roma. E porque é o bispo de Roma, a sé primacial e tradicionalmente associada ao apóstolo Pedro, ele é também o papa".

Visit of Pope Paul VI (1963-1978) in Venice in 1972 with
the Cardinal Patriarch Albino Luciani (in 1978, Pope John Paul I
- September, 1972 - Sibode1


10) Como um Papa é eleito?

A resposta a essa questão está em outro Post do Blog A Católica: Afinal: quem pode escolher o novo Papa?. Clique para saber tudo - incluindo sobre a famosa fumaça, que indica se um Papa foi ou não eleito e que sai de uma chaminé da Capela Sistina, no Vaticano.

Habemus Papam! - First bleesing of Pius XI (1922-1939) - 1922 - Vaticano


11) Por que os Papas mudam de nome após serem eleitos?

O jornalista J. D. Vital relata em Quem calçará as sandálias do pescador? (Ed.Autor, 2003) que "a mudança de nome [dos Papas eleitos] começou no século X, porque o novo papa chamava-se Mercúrio, um nome pagão. Daí para frente, os pontífices trocaram seus nomes, mas em respeito ao primeiro papa, São Pedro, nenhum deles ousou até hoje se autodenominar Pedro II".

Em Catolicismo para Leigos (Alta Books, 2008), os Padres John Trigilio Jr. e Kenneth Brighenti também esclarecem:

O Papa João II (533) foi o primeiro a mudar de nome, quando eleito papa, pois ele nasceu com o nome [...] Mercúrio, o nome de um deus pagão. Então ele escolheu o nome cristão de João, em substituição. Mas somente depois de Sérgio IV (1009), todos os papas subsequentes continuaram a tradição de mudar o nome no momento da eleição.

Então o Papa Pio XII (1939) era originalmente Eugenio Pacceli [sic], João XXIII (1958) era Angelo Roncalli, Paulo VI (1963) era Giovanni Montini, João Paulo I (1978) era Albino Luciani e João Paulo II (1978) era Karol Wojtyla.

Pope John Paul II (1978-2005), visiting Slovenia,
gathering with kids in episcopal palace by the capitals cathedral,
talking with children in their own local national language -
May, 1996 - Fotografia de Vid Gajšek


12) Por quais títulos o Papa pode ser chamado?

É o jornalista Nino Lo Bello quem responde, em O incrível livro do Vaticano e curiosidades papais (Editora Santuário, 2003):

Oficialmente, o papa é o Bispo de Roma, Sucessor do Príncipe dos Apóstolos, Vigário de Jesus Cristo, Supremo Pontífice da Igreja Universal, Servo dos Servos de Deus, Patriarca do Ocidente, Primaz da Itália, Arcebispo e Metropolitano da Província de Roma e Soberano do Estado da Cidade do Vaticano.

A obra Quero saber: a História Revelada dos Papas (Livros Escala, 2009) traz o significado desses títulos do Papa:

Bispo de Roma: A comunidade cristã de Roma tem São Pedro como o primeiro bispo de sua lista. O Bispo de Roma é seu único sucessor legal e dele recebe a liderança de toda a Igreja. (...)

Eugen III (1145-1153), der erste Zisterzienserpapst -
Photo: Andreas Praefcke
[Vigário de Jesus Cristo] Em latim, Vicarius Christi: O nome é utilizado a partir do pontificado de Gregório VII [1073-1085] e se refere ao fundamento religioso do papado.

Nota: O professor Richard P. McBrien, em Os Papas - Os Pontífices de São Pedro a João Paulo II (Edições Loyola, 2004), sustenta que Vigário de Cristo é um título "reservado ao bispo de Roma, desde Eugênio III (1145-1153). Inocêncio III (1198-1216) apelou principalmente a este título como base de sua autoridade universal, até sobre governantes temporais".

O mesmo autor afirma ainda que Gelásio I (492-496) "foi o primeiro papa a ser chamado 'vigário de Cristo', embora o título só fosse ligado exclusivamente a papas a partir do pontificado de Eugênio III (1145-1153)".

Servo dos servos de Deus (do latim, Servus servorum Dei): Título (...) usado pela primeira vez por Gregório, o Grande.

Nota: De acordo com o professor Richard P. McBrien, era assim que Gregório, o Magno (590-604), referia-se a si mesmo. Desde Gregório VII (1073-1085) é de uso geral.

Metropolita e arcebispo da província eclesiástica de Roma: O Bispo de Roma exerce a função de metropolita da província eclesiástica romana e também carrega o título de arcebispo.

Nota: Conforme o Dicionário Priberam, metropolita é um "prelado que tem sufragâneos", ou seja, um alto dignitário da Igreja Católica que tem bispos ou dioceses sujeitas a ele.

Soberano do estado da Cidade do Vaticano: Título secular do Papa.

Sucessor do príncipe dos apóstolos (referindo-se a Pedro): O título não tem consequências em termos do direito eclesiástico, apenas refletindo aspectos religiosos.

Sumo sacerdote da Igreja Mundial: Título honorário que regula a posição do papa na liturgia, sobretudo quando patriarcas celebram conjuntamente.

Primaz da Itália: Título meramente honorário, que se refere a um anterior estatuto jurídico especial como alto metropolita de um país, agora revogado.

Nota: Segundo o Dicionário Priberam, metropolita é um "prelado que tem sufragâneos", ou seja, um alto dignitário da Igreja Católica que tem bispos ou dioceses sujeitas a ele.

Patriarca do Ocidente: Este título é usado pelos papas desde Leão, o Grande [440-461], que o aceita em 450. Com o aparecimento do Annuario Pontificio (anuário oficial do Vaticano) do ano de 2006, no entanto, ele foi retirado da titulação oficial do papa.

Christ Handing the Keys to St. Peter by Pietro Perugino (1481-82)

Extra-oficialmente, o Papa também é chamado de Pontifex Maximus (do latim, "Supremo Pontífice"). De acordo com o professor Richard P. McBrien, "Pontifex Maximus [era] o título honorífico conferido ao bispo de Roma desde o fim do século IV, mas originalmente título pagão dado ao imperador como chefe do colégio de sacerdotes (pagãos) em Roma".

Michael Collins e Matthew A. Price, no livro História do Cristianismo (Edições Loyola, 2000), contam que Leão I, o Magno, "apropriou-se do título outrora usado pelo imperador: 'Sumo Pontífice'. Usava esse título, que significa 'o supremo construtor de pontes' para referir-se à tarefa do bispo de mediação entre Deus e a humanidade".

O sucessor de São Pedro também é designado, extra-oficialmente, como Santo Padre. Conforme a obra Quero saber: a História Revelada dos Papas, essa é "a forma derivada do conceito 'papa', provém do século XII como saudação protocolar ao papa como soberano do Estado Pontifício".

Curioso, não? É justamente os 2 títulos extra-oficiais os mais usados pela imprensa para se referirem ao Chefe da Igreja Católica: Sumo Pontífice e Santo Padre. E como o Papa assina os seus documentos? Na mesma obra da editora Livros Escala, vem exposto:

Nos documentos assinados normalmente pelo papa com o seu nome papal, entre o próprio nome latinizado e o número de ordem ainda é acrescentada a abreviatura 'P.P.', que significa 'papa'. A assinatura de Bento XVI, dessa forma, se lê assim: Benedictus P.P. XVI.

Pope Benedict XVI's signature - Pope Benedict XVI (2005-2013)


13) Por que se diz que um Papa é infalível?

Os Padres John Trigilio Jr. e Kenneth Brighenti esclarecem essa questão no livro Catolicismo para Leigos (Alta Books, 2008):

O catolicismo defende que o Papa é infalível, incapaz de errar, quando ensina uma doutrina de fé ou moral à igreja universal, em seu exclusivo ofício de cabeça suprema. Quando o Papa declara sua autoridade oficial em questões de fé e moral, para toda a Igreja, o Espírito Santo o livra do erro.

A infalibilidade não significa que o Papa não pode cometer nenhum erro.

Ele não é infalível em questões científicas, históricas, políticas, filosóficas, geográficas ou outras quaisquer - somente em fé e moral. Isto se resume em confiança. Os católicos creem que o Espírito Santo os protege de serem ensinados ou forçados a crer em doutrinas errôneas, evitando que o Papa os emita.

[...] Os católicos creem piamente que Deus os ama e ama a verdade tanto que interviria e evitaria um Papa de impor uma instrução falsa sobre toda a Igreja. Isto não significa que, pessoal e individualmente, o Papa seja livre de todo o erro. Ele pode, privadamente, estar errado, contanto que não tente impor ou ensinar tal erro à Igreja universal, pois o Espírito Santo iria impedi-lo de alguma maneira.

Papa Bento XV (1914-1922) - Sem Data - Autor Não-Informado

Os autores continuam:

... De acordo com o catolicismo, um papa imoral (você encontrará diversos na história da Igreja) pode pecar como qualquer outro homem e irá responder a Deus por seus maus atos. Entretanto, como a cabeça suprema da Igreja, o Papa possui infalibilidade em assuntos de fé e moral enquanto for Papa.

Nenhum Papa, em 2000 anos, ensinou oficial e formalmente um erro a respeito de fé e moral à Igreja universal. Individualmente, alguns podem ter sido teólogos ou filósofos pobres e inadequados, e alguns podem ter tido ideias errôneas sobre ciência. Isto não tem nada a ver com a infalibilidade papal [...].


14) Um Papa pode renunciar?

Sim, pode. Está previsto no Código de Direito Canônico a possibilidade da renúncia "livremente feita e devidamente manifestada". Para saber mais, incluindo sobre os Papas que já renunciaram em toda a história da Igreja, acesse este outro Post do Blog A Católica: O Papa não quer mais ser Papa.

Sobre a possibilidade da renúncia, o jornalista Nino Lo Bello, autor de O incrível livro do Vaticano e curiosidades papais (Editora Santuário, 2003), lembra uma história ótima, envolvendo o Papa Pio XII (1939-1958), durante a Segunda Guerra Mundial:

Avisado previamente de que Adolf Hitler havia planejado prender e tirar Pio XII do Vaticano, o papa preparou uma resignação por escrito que foi assinada e autenticada - de modo que ele não seria o papa Pio XII quando fosse escoltado pelos soldados alemães para fora dos muros do Estado da Cidade do Vaticano. Ele seria simplesmente um cidadão italiano particular chamado Eugênio Pacelli, seu nome de batismo.

Dessa forma, a Igreja não mergulharia numa crise semelhante à que ocorrera no final do século XVIII, quando as forças francesas prenderam o papa Pio VI [1775-1799] - e nesse caso a Igreja teve de esperar a sua morte no cativeiro antes de restaurar seu governo.

Papa Pio XII (1939-1958) recebe em audiência
o Primeiro Secretário da Câmara dos Deputados do Brasil,
José Bonifácio Lafayette de Andrada, acompanhado da família
(na foto, à direita do papa) - 1954 - Autor Desconhecido


15) Um Papa pode ser afastado do Trono de São Pedro?

Mais uma vez, os Padres John Trigilio Jr. e Kenneth Brighenti têm uma resposta, contida em Catolicismo para Leigos (Alta Books, 2008):

Os papas são eleitos por toda a vida, a menos que, voluntariamente - sem pressão ou inserção - demitam-se do ofício (o Papa Ponciano foi o primeiro a abdicar do ofício, em 235 d.C. O Papa São Pedro Celestino V foi o mais famoso a demitir-se em 1294, para voltar a uma vida monástica. O Papa Gregório XII foi o último* a desistir, em 1415).

Ninguém pode depor um papa, ainda que ele se torne insano, doente ou corrupto. Nenhum [concílio] ecumênico tem autoridade para removê-lo de seu ofício.

Então, quando um mau papa entra, e, de tempos em tempos, um mau papa é eleito, a única maneira de ação é orar a São José por uma boa morte do papa em questão (São José é o patrono da boa morte, pois ele provavelmente morreu de causas naturais, nos braços de Maria e Jesus).

*Na verdade, o último tornou-se o Papa Bento XVI, que anunciou a sua renúncia para 28 de fevereiro de 2013. O que ele, de fato, fez: Com renúncia de Bento XVI, começa oficialmente o período de Sé Vacante.

Main panel of a triptych with St Peter Celestine -
Pope Celestine V (1294) - and monks (Detail)
- between circa 1343 and circa 1405 - Niccolò di Tommaso

O Padre Thomas J. Reese, em O Vaticano por dentro - A Política e a Organização da Igreja Católica (Edusc, 1999), pondera:

A tentativa de afastar um papa demenciado [sic] poderia ser mais destrutiva da unidade da Igreja do que deixá-lo no cargo. Quando o Papa Urbano VI (1378-1389) tornou-se psicologicamente perturbado após sua eleição, as tentativas de se lidar com ele conduziram ao Grande Cisma do Ocidente (1378-1417).

O Concílio de Constança obteve êxito em pôr fim ao Cisma do Ocidente, depondo ou obrigando a renúncia dos três pretendentes. Como o papado jamais reconheceu o direito de um concílio ecumênico de afastar um papa, atualmente a única maneira aceitável de um papa ser afastado do cargo é por morte ou renúncia.

Papa Urbano VI (1378-1389) -
The print is from a publication by Jean Le Clerc in Paris in 1607


16) O que acontece quando um Papa morre?

Segundo a obra Quero saber: a História Revelada dos Papas (Livros Escala, 2009), quando um papa morre, ou renuncia, a sede vacante é instalada. A expressão em latim significa "assento livre" e designa "o período em que a Igreja Católica fica sem o líder, porque o assento do papa (ou também do bispo) não está ocupado". J. D. Vital escreveu em Quem calçará as sandálias do pescador? (Ed.Autor, 2003):

Morto o Papa, o trono de São Pedro fica vacante. A Igreja Católica passa a ser governada interinamente pelo Colégio dos Cardeais, de acordo com as regras baixadas por Paulo VI [1963-1978] (na constituição Romano Pontifici Eligendo), de 1º de outubro de 1975, e redefinidas 21 anos mais tarde por João Paulo II [1978-2005] no documento Universi Dominici Gregis.

O jornalista prossegue: "Todos os cardeais da Cúria Romana, que integram o primeiro escalão da Igreja e ajudam o papa a administrar o rebanho de 1 bilhão de almas, são exonerados, exceto o Camerlengo, o Penitenciário-Mor e o Vigário de Roma". Padre Thomas J. Reese, em O Vaticano por dentro - A Política e a Organização da Igreja Católica (Edusc, 1999), esclarece a função de cada um deles:

O Vigário de Roma cuida das necessidades pastorais da diocese de Roma e continua a ter todos os poderes que tinha sob o comando do papa. O Penitenciário-Mor cuida das questões de confissão reservadas à Santa Sé e tem permissão para continuar no cargo, porque a oportunidade de perdão dos pecados deve estar sempre disponível.

O camerlengo é o dirigente mais importante durante o interregnum.

Quando o papa morre, o camerlengo destrói o Anel do Pescador e a matriz usada para fazer os lacres de chumbo para as cartas apostólicas. Ele assume e administra a propriedade e [...] as finanças da Santa Sé com a ajuda de três cardeais assistentes, que são escolhidos por sorteio entre os cardinais [sic] com menos de oitenta anos.

Durante o interregnum, ele faz relatórios para o Colégio dos Cardeais e obtém o seu conselho. Lacra o escritório e o quarto de dormir do papa e prepara o funeral, de acordo com as instruções deixadas pelo próprio papa. Também providencia a preparação do conclave.

Funeral do papa João Paulo II (1978-2005) - Abril, 2005 -
À esquerda, o Presidente do Brasil Lula e a Primeira-Dama, Marisa Letícia
- Fotografia de Ricardo StuckertPR/ Agência Brasil

The funeral of Pope John Paul II (1978-2005) - 8 April 2005 -
Fotografia de blues_brother

O professor Richard P. McBrien lembra em Os Papas - Os Pontífices de São Pedro a João Paulo II (Edições Loyola, 2004) que "certas autoridades do secretariado de Estado e outras funções concernentes a relações com outras nações (inclusive núncios apostólicos [embaixadores do Vaticano] junto a essas nações), bem como os secretários dos diversos departamentos curiais, permanecem no cargo durante a vacância".

Padre Thomas J. Reese frisa:

Embora o Colégio dos Cardeais governe a Igreja até que um novo papa seja eleito, os poderes do Colégio são limitados. Ele não pode mudar as regras que governam as eleições papais, nomear cardeais ou tomar quaisquer decisões ligadas ao próximo papa. Até que o conclave tenha início, os cardeais reúnem-se diariamente em uma congregação presidida pelo decano do colégio [eleito pelos próprios cardeais].

O sacerdote continua:

Três cardeais assistentes com menos de oitenta anos são escolhidos por sorteio, um de cada ordem (diácono, padre, bispo) para compor uma congregação particular chefiada pelo camerlengo para cuidar de questões de menor importância. A cada três dias, até a eleição do novo papa, os três cardeais assistentes são substituídos por outros, também escolhidos por sorteio.

Uma comissão composta do camerlengo e dos cardeais que eram secretário de Estado e presidente do Estado da Cidade do Vaticano [ou seja, o chefe da Comissão Pontifícia para o Estado da Cidade do Vaticano, a qual estabelece políticas administrativas e financeiras para o Estado] é responsável pela preparação do alojamento dos cardeais e pela preparação da Capela Sistina para a eleição.

Estas regras dispersam o poder, de forma a impedir que alguns cardeais controlem o interregnum ou o conclave.

Para arrematar, afirma: "O Colégio dos Cardeais estabelece a data e a hora para o início do conclave".

Pope John Paul II (1978-2005) lying in repose
in Saint Peter's Basilic - April, 2005 - Public Domain


17) O que é Anel do Pescador?

A resposta está na obra Quero saber: a História Revelada dos Papas (Livros Escala, 2009): do latim Annulus piscatoris...

... É usado desde o século XIII, tem cerca de dois centímetros de largura, um selo com a imagem do apóstolo Pedro de um lado e a gravação do nome do papa reinante do outro lado. Como um símbolo do poder pontifício, refere-se ao primeiro papa, que foi pescador antes de seguir Jesus.

Após a morte de um papa o cardeal camerlengo quebra o anel do pescador [ver pergunta número 16 deste Post do Blog A Católica]: o pontificado a partir desse momento está oficialmente terminado. O novo papa irá receber um novo anel do ofício.

Annulus piscatorius -
Ring of the Fisherman of Pope Leo XIII (1878-1903) -
From Nordisk Familjebok, vol. 8 (1908)


18) Qual foi o pontificado mais longo da história do Papado? E o mais curto?

O pontificado mais longo foi o de Pio IX (1846-1878): "31 anos e pouco mais de 7 meses", de acordo com o professor Richard P. McBrien, em Os Papas - Os Pontífices de São Pedro a João Paulo II (Edições Loyola, 2004). Sobre Pio IX, ele avalia:

... Logo ficou conhecido como um dos papas mais reacionários da história. Convocou o Concílio Vaticano I (1869-1870), que definiu o primado e a infalibilidade dos papas [sobre essa questão, confira a pergunta número 13 deste Post do Blog A Católica]; definiu a Imaculada Conceição de Maria; e publicou o Sílabo de erros, que condenou os principais progressos do mundo moderno.

Papa Pio IX (1846-1878) - Sem Data

O mais curto, conforme o jornalista Nino Lo Bello, em O incrível livro do Vaticano e curiosidades papais (Editora Santuário, 2003), foi o de Estêvão II, que "morreu 4 dias depois de ser eleito em 22 de março de 752. Morreu em 25 de março, antes de sua consagração. O papa seguinte também se chamou Estêvão II. O ordinal III aparece em parênteses depois do [número] II".

Richard P. McBrien relata que o primeiro Estêvão II era um sacerdote romano idoso, que se elegeu Papa e foi devidamente empossado na Basílica de Latrão, porém sofreu um derrame três dias depois e morreu antes da consagração. O professor lembra: "Naquela época (como também hoje) a consagração como bispo e também a aceitação da eleição como válida eram requisitos canônicos essenciais, porque o papa é o bispo de Roma".

Desse modo, para ele, o pontificado mais breve foi o de Urbano VII, "que durou apenas doze dias, de 15 a 27 de setembro de 1590". Na descrição de Richard P. McBrien: "Embora gozasse de boa saúde, o novo papa contraiu malária na noite seguinte à eleição e morreu antes de ser coroado". Ativo participante do Concílio de Trento (1562-1563), "deixou grande quantia para ser gasta na educação de meninas pobres".

Pope Urbanus VII (1590) - Unknown


19) A Igreja já teve um Papa negro?

É o jornalista J. D. Vital quem responde, em Quem calçará as sandálias do pescador? (Ed.Autor, 2003): "O único papa negro até agora teria sido Gelásio I, que reinou entre os anos de 492 e 496". Provavelmente porque, segundo Richard P. McBrien, no livro Os Papas - Os Pontífices de São Pedro a João Paulo II (Edições Loyola, 2004), ele era africano de nascimento. O professor prossegue:

Depois de Leão Magno (440-461), Gelásio foi o papa mais eminente do século V. (...) É lembrado pela posição firme contra o imperador e patriarca de Constantinopla no Cisma Acaciano (484-519) e pela defesa do primado papal, ao apelar à teoria dos "dois poderes" ou "duas espadas" (espiritual e temporal) - teoria que seria tão influente na Idade Média.

Eis o que a teoria, que Gelásio I propôs, expunha: "... Dois poderes governam o mundo: um espiritual ('a autoridade consagrada dos bispos'), centralizado no papa, e o outro temporal (o 'poder real'), centralizado no imperador. Cada poder tem sua fonte em Deus e é independente em sua esfera de ação. Mas o poder espiritual é intrinsecamente superior porque medeia a salvação para o temporal".

Sobre Gelásio I, prolífico autor de cartas e tratados teológicos, Richard P. McBrien ainda diz: "Embora seu desempenho público como papa fosse o de líder pastoral autoritário e severo, os contemporâneos salientaram que, em particular, ele era humilde, dedicado à penitência e ao serviço dos pobres".


20) Qual o balanço da atuação dos mais de 260 Papas?

Com a palavra, os Padres John Trigilio Jr. e Kenneth Brighenti, que escreveram Catolicismo para Leigos (Alta Books, 2008):

Nossa humilde opinião: dos 265 papas na história, apenas uma dúzia era realmente vilões e causou grande escândalo. Setenta e oito papas são reconhecidos como santos (...), restando 175 muito bons (...). [Cerca de uma dezena foi beatificada e está a um passo da santidade. Então, aproximadamente 32% do papado foi realmente bom.] Melhor estatística que a dos presidentes, primeiros-ministros ou monarcas pelo mundo.

O professor Richard P. McBrien dedicou um capítulo de sua obra Os Papas - Os Pontífices de São Pedro a João Paulo II (Edições Loyola, 2004) à avaliação dos Sumos Pontífices. Ele os dividiu em "Eminentes"; "Bons ou Acima da Média"; "Piores" e "Historicamente Importantes". Para ele, o melhor dentre os mais de 260 Pontífices foi João XXIII (1958-1963):

Provavelmente o papa mais querido, ecumênico e generoso da história, tocou a comunidade humana universal de uma forma que nenhum outro papa jamais fez. 'O bom papa João', como o falecido cardeal-arcebispo de Boston Richard Cushing (...) chamou-o certa vez, também revelou à Igreja e ao mundo o verdadeiro desígnio e propósito do ministério petrino. Todos os papas, que o precederam e sucederam, devem ser medidos conforme o padrão que ele estabeleceu.

Olympische Spelen te Rome, Paus Johannes XXIII (1958-1963)
zegent de deelnemers aan de Spelen - August, 1960 -
Nationaal Archief, Den Haag, Rijksfotoarchief
Fotocollectie Algemeen Nederlands Fotopersbureau (ANEFO)


É isso, internauta d'A Católica. Espero que tenha gostado e aprendido tanto quanto eu.

SE você tiver alguma outra dúvida que não foi respondida neste Post, basta deixá-la em "Postar um comentário" ou "Comentários", abaixo, e, Se Deus Quiser, encontrarei a resposta para você, citando o seu nome (e Blog).

Obrigada! Saúde e Paz!!


Siga A Católica com + bloglovin'!
Importante:

Todos os Poemas escritos e publicados no Blog acatolica.com
são sistematicamente registrados
junto ao Escritório de Direitos Autorais (EDA)
da Fundação Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro (BRASIL).

Nenhum comentário:

Postar um comentário