28 de janeiro de 2013

Dona Zé e os 231 jovens que morreram no Sul do Brasil

Ao contrário da senhora de 72 anos, 4 meses e 15 dias,
os estudantes que partiram devido à tragédia em boate no Brasil
não aprenderão as lições que só o passar dos anos nos traz

(Imagem: fotografia de George Hodan)

Achei que eu iria embora pra casa tão logo a missa terminasse. Não foi bem assim. O padre (cujo nome não sei) pediu que nos assentássemos, porque seria feita uma homenagem. Lá na frente uma mulher, que me pareceu nova, começou a ler um texto tão bem redigido, tão cheio de palavras precisas, que até mesmo as crianças ficaram quietinhas, esperando que ela terminasse. Não reclamaram.

O texto era sobre a sogra dela, que havia falecido aos 72 anos, quatro meses e 15 dias de vida. Tinha um monte de apelidos. Memorizei um: "Dona Zé". Assim mesmo, no masculino.

A nora, cujo nome também não sei, descreveu a personalidade de Dona Zé: "Para ela, era oito e oitenta. Em todas as áreas de sua vida, detestava o 'mais ou menos'"; contou que a lasanha da sogra era "deliciosa" e que se desentendiam em alguns aspectos, sobretudo na pontualidade: "Eu chegava a um compromisso uma hora e dez; ela queria que eu chegasse [faltando] dez pra hora...". Gostei desse jogo de palavras.

Emocionada, continuou: "Ela pedia pra não ser importunada depois das 20 horas, mas estava a postos pra todo mundo, a hora que fosse; gostava de sua casa, porém arrumava qualquer pretexto pra dar uma saída; estava idosa, contudo se sentia com energia suficiente para se inscrever no coral da igreja e cantar no meio dos jovens, dos adolescentes. Eu a respeitava pelo simples fato de ser a mãe do meu marido e avó dos meus três filhos, mas passei a amá-la: foi uma sogra e tanto, que me defendia como uma tigresa".

Ao final da leitura, muitos na igreja choraram e a nora foi aplaudida de pé. Eu fui uma dos que se levantaram entusiasmados e cantaram junto ao coral: "Nossa Senhora, me dê a mão... Cuida do meu coração. Da minha vida... Do meu destino... Do meu caminho... Cuida de mim" - melodia famosa na voz do ídolo Roberto Carlos.

Na madrugada desse domingo, cerca de 230 jovens*, a maioria na faixa dos 20 anos de idade, foram fazer companhia à "Dona Zé".

Dentro da boate KISS ("beijo", em inglês), que fica na cidade de Santa Maria, no estado do Rio Grande do Sul (BRASIL), eles morreram encaixotados, esmagados e asfixiados. Às 2h30 da madrugada, conforme as primeiras informações, o vocalista da banda que se apresentava no palco acendeu um sinalizador, o qual soltou faíscas que alcançaram o teto e iniciaram um incêndio. Quem visualizou a gravidade da situação ou quem estava no fundo, mais perto da saída, conseguiu escapar. Os demais - centenas de jovens - morreram.

Fotografia de George Hodan

Ao longo da próxima semana, haverá inúmeras missas de sétimo dia. Muitos daqueles jovens certamente receberão homenagens tão bonitas quanto à que a nora de "Dona Zé" fez. A diferença é que os três filhos, netos e a bisnetinha daquela senhora puderam conviver décadas a seu lado, suportando sua personalidade forte, esbaldando-se com seu jeito atencioso e provando, vez em quando, sua lasanha saborosa.

Diversamente, pais, avós, primos, tios e até mesmo filhos dos jovens que partiram na tragédia no Sul do Brasil foram privados de verem-nos ganhar um diploma - a grande maioria era estudante da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Seus parentes mais próximos jamais saberão o que o futuro lhes reservaria. Se, para eles, tudo seria oito ou oitenta, como era para "Dona Zé", ou se ficariam contentes com o "mais ou menos".

Os parentes daqueles jovens lindos não verão o tempo formar vincos em seu rosto, nem finalmente aprenderem as lições que somente o passar dos anos ensina. Morreram verdes. Morreram cheios das ilusões que só a maturidade destrói. Morreram cheios de sonhos, de planos, de metas, provavelmente achando que o mal estava no lado de fora da boate, no lado de fora de Santa Maria, no lado de fora do Brasil, da América do Sul. Provavelmente se sentiam invencíveis. Imortais.

Mamãe Gali disse que, se uma tragédia como essa não servir para mudar as leis no nosso pais, nem para tornar prefeitos e empresários mais responsáveis, deve servir ao menos para mostrar aos parentes das vítimas e a nós, espectadores, que a vida é cheia de imprevistos e surpresas: não sabemos o que o amanhã nos reserva, não sabemos se estaremos aqui.

As meninas, cujos corpos estirados vi pela TV, no chão, à frente da boate, trajados de minissaias pretas e bolsas coloridas a tiracolo, certamente pensaram que a madrugada desse domingo seria mais uma, cheia de risos e beijos. Como sempre. Como outra qualquer...

Fotografia de Marina Shemesh

P.S. *A contagem dos mortos na tragédia de Santa Maria foi revista nesta terça-feira, 29 de janeiro. Assim, o número de vítimas fatais subiu de 231 - conforme a imprensa divulgou anteriormente e consta no título deste Post d'A Católica - para 234. Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, nenhum dos feridos internados morreu. A contagem foi apenas corrigida.

P.S.2 No dia 1º de fevereiro, o número de mortos aumentou para 236 - tal como a reportagem do Jornal Hoje esclarece.

P.S.3 Infelizmente, mais uma vez, o número de jovens que perderam a vida dentro da boate KISS, no Sul do Brasil, elevou-se para 238. É o que afirma o telejornal Bom Dia Brasil.

P.S.4 Durante esse carnaval, divulgou-se o novo número de mortos em Santa Maria: 239, de acordo com a Reuters Brasil.

P.S.5 A Agência Brasil informou no dia 7 de março que o total de pessoas que morreram na tragédia agora é de 241.

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