15 de dezembro de 2011

E as águas estão rolando em BH (e como)

Chove sem parar há cerca de 4 dias na cidade que amo, aqui no Brasil.
Neste Post d'A Católica, uma síntese do que ocorre e
um reflexo do meu estado de espírito

(Fotografia de Ana Paula~A Católica - acatolica.com)

Nasci e vivo numa cidade que há poucos dias completou 114 anos de criação. Eu amo Belo Horizonte - ou Belô, ou BH, como carinhosamente a chamamos. Amo.

Tenho orgulho de aqui ser o berço do Clube da Esquina (cuja estrela mais reluzente é o cantor e compositor Milton Nascimento); da banda pop Skank; do grupo de dança contemporânea Corpo e do grupo de teatro Galpão. Estamos cercados pela Serra do Curral, comemos pão de queijo, bolo de fubá, feijão tropeiro e couve picadinha e jogamos conversa fora no boteco. Adoro tudo isso.

Acontece que, de quatro dias para cá, a cidade que avisto da minha janela lateral e que vejo nos noticiários na televisão está um tanto irreconhecível: não para de chover. Com isso, a paisagem azul, iluminada e verde está branca e cinza; as pistas onde os automóveis, caminhões, ônibus e micro-ônibus transitam estão alagadas; os canteiros e passeios, amarronzados ou cor de caramelo - é a lama, é a lama, é a lama.

Aqui no Brasil, tem um hino do folclore popular que o povo nordestino costuma entoar, pedindo chuva a São José:

Glorioso São José
Glorioso São José
Dai-nos chuva em abundância
Glorioso São José.

Hoje, posso afirmar: nada em abundância é legal. E isso inclui a chuva.

A água que cai do céu nesses últimos dias aqui em BH é tanta, é tamanha, que confesso a você: estou profundamente irritada. As enchentes que se formaram, alagando vias como as avenidas Antônio Carlos e Cristiano Machado; asfaltos que afundaram e se romperam, ameaçando prédios, como no Bairro Gutierrez; encostas que deslizaram e interditaram túneis, como na BR 356, em frente ao Ponteio Lar Shopping...

... Assistir pela TV ao desespero dos belo-horizontinos é angustiante.

Via Expressa alagada em 12-12-2011 (Belo Horizonte - BRASIL)
Fotografia de Ana Paula~A Católica - acatolica.com

Carros dançam, seguindo o ritmo do fluxo do alagamento; moradores (homens ou mulheres) de vassouras e rodos em punho tentam expulsar a água intrusa e marrom de dentro das cozinhas e salas de estar... Vejo geladeiras brancas "sentadas" sobre cadeiras de madeira, a fim de não imergirem na enchente e também sofás "nadando", como se estivessem num piscinão ou na praia.

Uma moradora, que tinha um imenso folheto verde intitulado "Dízimo" colado na parede branca de sua casa, falou aos prantos com um repórter, que a entrevistava, que era muito triste perder tudo o que adquiriu com tanto suor, esforço e trabalho. "Tudo foi embora com a chuva: material escolar dos meus filhos, roupas, brinquedos deles e nossos móveis! Vou ter que comprar tudo de novo!...", lastimava.

Tive pena.

Sei que, até as 20h30 da noite desta quinta-feira, nenhuma vida havia sido perdida aqui em BH. Isso é maravilhoso.

Contudo, dizer que os prejuízos foram "apenas" materiais não consola os que perderam tudo - ou quase tudo. Geralmente, sobretudo em meio à população mais humilde e até da classe média, cada garfo, cada micro-ondas, cada colchão de mola resultaram de horas de trabalho duro. Portanto, aperta o coração contemplar o carro ou o sofá "nadando", porque a água tomou conta da rua, invadiu a casa e os levou.

Hoje, internauta d'A Católica, contrariando a singela canção do folclore nacional a São José, vou recorrer a São Pedro para que ele "feche as torneiras do céu".

Chuva em Belo Horizonte (BRASIL), vista da janela - 12-12-2011
Fotografia de Ana Paula~A Católica - acatolica.com

O som da chuva, que inspirou o artista brasileiro Moraes Moreira a compor a canção Chuva no Brejo, som que ele chama de "barulhinho bom", já não me soa tão gostoso. Fiquei aflita ao perder o sono durante esta madrugada e ouvi-lo ininterruptamente: "Esta chuva toda não vai parar? Não vai?", pensei. Perguntei. Lamentei. Não parou e causou toda uma manhã e uma tarde de estragos na minha amada cidade.

Minha mãe me aconselhou a não me revoltar - ainda que eu assista de camarote VIP às infiltrações sob duas janelas na casa onde moro. Não bastam janelas, nem portas, nem concreto para deter o ímpeto da água. Ela vem que vem - como dizemos aqui no Brasil. Resta-nos esperá-la passar, e não enfrentá-la. É uma lição e tanta de paciência e de humildade: com a força da natureza, não se brinca.

Que Nosso Senhor tenha piedade de nós e que dos céus também desça o consolo necessário para lidarmos com o caos que a abundância de chuva gera: pessoas ilhadas, trânsito parado, bueiros entupidos, rios que ganham ondas como num oceano. Estou com saudades do azul do céu. Mas sei que ele ainda existe. Ele reaparecerá. O sol ainda há de brilhar (oxalá em breve) na minha BH. Saúde e Paz!!

Olha como a chuva cai
E molha a folha aqui na telha

Faz um som assim
Um barulhinho bom

Faz um som assim
Um barulhinho bom

Água nova
Vida veio ver-te

Voa passarinho
No teu canto canta
Antiga cantiga

Fotografia de Teodoro S Gruhl

Importante:

Todos os Poemas escritos e publicados no Blog acatolica.com
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junto ao Escritório de Direitos Autorais (EDA)
da Fundação Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro (BRASIL).

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