14 de novembro de 2011

O jantar dos bichinhos e o sentido da vida

A morte faz parte da vida e lhe dá sentido.
Nossa meta deveria ser acertar de primeira, em vez de
fazer a maioria das coisas com má vontade

(Imagem de David Wagner)

Nunca vou me esquecer daquele dia em que Mamãe Gali fez a minha irmã Andréa Cristina voltar pelo menos 4 vezes à padaria. Nós fazíamos um revezamento: num dia era a minha vez de ir; no outro, era a vez dela. Estávamos as duas entrando na pré-adolescência, naquela fase em que nosso corpo muda e tudo - absolutamente tudo - é motivo de vergonha. Principalmente andar na rua sozinha, com as pessoas nos olhando.

Naquele dia, Andréa Cristina estava "um poço de má vontade"... Chegou em casa com a quantidade errada de pães e sem o leite. Mamãe Gali a obrigou a retornar. Número 1. Depois, ela chegou com a quantidade certa de pães, mas se esqueceu do leite (de novo). Teve que voltar. Número 2. Em seguida, chegou em casa com o leite, mas a moça do caixa lhe deu o troco errado. Lá foi ela outra vez. Número 3. Por fim, ela tornou a não conferir o troco que a tal moça lhe deu. Meia volta para a padaria. Número 4.

A essa altura, meu estômago doía de tanto dar risada da cara da minha irmã, que era de pura desolação: morávamos no terceiro andar e ela subiu e desceu aquelas escadas zilhões de vezes!... Sem contar a vergonha ante os funcionários da padaria! Minha mãe só repetia o dito popular: "Preguiçoso trabalha mais". Pura verdade.

Algumas (ou muitas) vezes, temos uma tremenda falta de cuidado em fazer as coisas bem logo na primeira vez. Ou logo "de prima" - como na gíria do meu primo Carlos William, o Cacá. Damos muita moral à displicência. Uma coisa é errar querendo acertar. Outra bastante diferente é errar por desleixo, falta de concentração, preguiça mesmo.

Pensei nisso tudo depois de assistir no dia 5 de novembro ao programa Questões de Fé, da TV Horizonte.

Naquele sábado, o apresentador Padre José Cândido (da Paróquia São Sebastião, aqui de Belo Horizonte, no Brasil) refletia sobre o feriado de Finados* e afirmava que a função da morte é dar um sentido para a vida. De acordo com o pároco, a finitude dela nos oferece um foco, nos leva a reunir as nossas forças para atingir uma meta. Senão, viveríamos "de qualquer jeito", já que a nossa existência "não acabaria nunca"...

É justamente isto o que mais me chama a atenção na Fé Católica: a certeza de que a vida é uma só. Como falava o Grande Poetinha Vinícius de Moraes na canção Samba da Bênção:

Cuidado, companheiro!
A vida é pra valer
E não se engane não, tem uma só
Duas mesmo que é bom
Ninguém vai me dizer que tem
Sem provar muito bem provado
Com certidão passada em cartório do céu
E assinado embaixo: Deus
E com firma reconhecida!

A vida não é brincadeira, amigo
A vida é arte do encontro
Embora haja tanto desencontro pela vida...

Fading Away (1858), Henry Peach Robinson

Segundo o Catecismo da Igreja Católica (Edições Loyola, 2000):

A morte é o fim da peregrinação terrena do homem, do tempo de graça e de misericórdia que Deus lhe oferece para realizar sua vida terrestre segundo o projeto divino e para decidir seu destino último. Quando tiver terminado "o único curso de nossa vida terrestre", não voltaremos mais a outras vidas terrestres. "Os homens devem morrer uma só vez" (Heb 9, 27). Não existe "reencarnação" depois da morte. (Parágrafo 1013)

A Igreja nos encoraja à preparação da hora de nossa morte (...), a pedir à Mãe de Deus que interceda por nós "na hora de nossa morte" (...) e a entregar-nos a S. José, padroeiro da boa morte:

Em todos as tuas ações, em todos os teus pensamentos, deverias comportar-te como se tivesses de morrer hoje. Se tua consciência estivesse tranquila, não terias muito medo da morte. Seria melhor evitar o pecado que fugir da morte. Se não estás preparado hoje, como o estarás amanhã? Imitação de Cristo

Louvado sejais, meu Senhor, por nossa irmã, a morte corporal, da qual homem algum pode escapar. Ai dos que morrem em pecado mortal, felizes aqueles que ela encontrar conforme a vossa santíssima vontade, pois a segunda morte não lhes fará mal. São Francisco de Assis, Cântico das Criaturas (Parágrafo 1014)

Citei o Padre José Cândido falando sobre a morte dar um sentido para a vida, certo? Recentemente, recebi uma notícia triste, que me fez chorar (literalmente).

Uma conhecida teria atentado contra a própria vida, tomando várias pílulas. Foi encontrada pelo filho pequeno de manhã. Ela estava com a boca torta e havia molhado a cama. A criança chamou a babá, que mora na mesma casa e que telefonou para uma médica. Apesar de negar a tentativa de suicídio - "Foi um acidente", teria alegado -, amigos relataram que, dias antes, ela havia dito que perdeu a vontade de viver.

Isso é muito sério.

Não considero a tentativa de suicídio uma falha de caráter, algo do qual só os fracos são capazes. Sinto respeito e compaixão pelos que decidem desistir. Porém, não deixo de considerar que dar (ou tentar dar) cabo de si mesmo pode nascer justamente da ausência de um sentido para a vida ou de um sentido errôneo, porque não completa e frustra. Talvez aquela conhecida tentou se matar, porque sofreu uma desilusão amorosa: sem o amado, pra quê viver?

Por isso, todas as vezes em que fico triste e a existência começa a ficar cinza, sem graça, até meio vazia, me esforço para lembrar que, se puser Jesus Cristo NO CENTRO, posso sempre, sempre, sempre reaver o sentido da minha vida. E recuperar a alegria. É Santo Inácio de Antioquia quem afirma, ainda de acordo com o Catecismo:

É bom para mim morrer em ("eis") Cristo Jesus, melhor do que reinar até as extremidades da terra. É a Ele que procuro, Ele que morreu por nós: é Ele que quero, Ele que ressuscitou por nós. Meu nascimento aproxima-se. (...) Deixai-me receber a pura luz; quando tiver chegado lá, serei homem. (Parágrafo 1010)

Imagem de Roman Zacharij

Estamos aqui, conforme o mesmo Catecismo da Igreja Católica, "para realizar a nossa vida terrestre segundo o projeto divino e para decidir nosso destino último": se será o Céu, o Inferno ou o Purgatório. Essa é a nossa fé. E o que ajudará a definir o nosso destino é justamente como cada um de nós viveu. Se fizemos as coisas e cumprimos o nosso dever com boa vontade e amor ou se as executamos com pouco caso.

Como verseja São Francisco de Assis: "homem algum pode escapar da nossa irmã, a morte corporal".

Ela chegou para os meus antepassados e virá para mim. Para você também. O "detalhe" é que não sabemos quando. Pode ser daqui a 50 anos ou apenas uma hora e meia. E porque a nossa fé nos ensina que a vida é uma só, não teremos a chance que teve a minha irmã Andréa Cristina de retornar e retornar e retornar e, pela quarta vez, retornar, a fim de (finalmente) fazer direito. Nossa meta deve ser acertar "de prima".

Para encerrar este Post d'A Católica, transcrevo a letra de outra canção de Vinícius de Moraes, parceria sua com Toquinho: Os Bichinhos e o Homem. De forma bem humorada, o Grande Poetinha nos lembra que esta vida é passageira, finita. Que o homem é forte, esperto, culto... Porém, num dia... (Acompanhe.)

Nossa irmã, a mosca
É feia e tosca
Enquanto que o mosquito
É mais bonito
É mais bonito


Nosso irmão, besouro
Que é feito de couro
Mal sabe voar
Mal sabe voar


Nossa irmã, a barata
Bichinha mais chata
É prima da borboleta
Que é uma careta
Que é uma careta


Nosso irmão, o grilo
Que vive dando estrilo
Só pra chatear
Só pra chatear


E o bicho-do-pé
Que gostoso que ele é
Quando dá coceira
Coça que não é brincadeira


E o nosso irmão carrapato
Que é um outro bicho chato
É primo-irmão do bacilo

Que é irmão tranquilo
Que é irmão tranquilo

E o homem que pensa tudo saber
Não sabe o jantar que os bichinhos vão ter
Quando o seu dia chegar
Quando o seu dia chegar


Quando o seu dia chegar
Quando o seu dia chegar...


Fotografia de Petr Kratochvil

P.S.*Acesse também o Post d'A Católica Se a morte não tem remédio... Vamos morrer BEM então!.

Importante:

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Um comentário:

  1. Gosto de falar deste assunto, apesar de saber que nós cristãos morremos de medo da morte. É a velha história " vivemos como se não fossemos morrer".
    São Francisco, ensina-nos a ver a irmã morte como Tu, amém.
    Márcia Moreira.

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