4 de outubro de 2011

Refletindo a partir de Janis Joplin

Nos achamos "melhores" do que viciados em drogas, como a
artista norte-americana era. Contudo, será que não temos
fraquezas de caráter bem mais graves do que a dela?


(Pintura a óleo atribuída a Pappi - Fotografia de Patrick Pearse)

Dia desses, meu marido e eu assistimos a um dos episódios do programa "As Últimas Horas de..." na TV a cabo. O objetivo é apresentar ao telespectador o que testemunhas (amigos, parentes, assessores), a polícia e médicos contaram sobre os últimos momentos da vida de personalidades das artes e da política. O episódio a que me refiro é o que tratou da norte-americana Janis Joplin (1943-1970).

Você, provavelmente, já ouviu falar da "cantora branca de voz negra", que entoava rock e blues como poucos. Janis imortalizou músicas como: Cry Baby, Summertime (a minha favorita) e Mercedes Benz. Ela deixou este mundo num dia 4 de outubro.

"As Últimas Horas" mostrou como a artista não se encaixava nas normas de "boa menina", como enfrentou preconceitos de que era uma "mulher feia" e como decidiu lidar com suas inseguranças através do álcool e, mais tarde, das drogas - a exemplo da heroína. Embora acreditasse que driblou o vício, acabou sucumbindo a uma overdose durante as gravações de seu LP (o antecessor do CD) Pearl - aclamado pela crítica.

Quando assisto a documentários como esse, quando leio nas revistas o que ocorreu com outra grande artista, também considerada uma "cantora branca de voz negra", a adorável inglesa Amy Winehouse (1983-2011), não sinto desprezo nem pena. E sim, uma grande (enorme) solidariedade. Não vejo essas pessoas viciadas em drogas "lá longe", distantes da minha realidade, dignas de condenação: eu me identifico com elas.

Aliás, não identifico apenas a minha pessoa, a minha trajetória. Pra ser sincera com você, um monte de gente, e falo de gente acima dos 60 anos de idade, vejo travestida de Janis Joplin e de Amy Winehouse. Só que seus vícios são outros. E, o que é pior: por estarem camuflados, por não se materializarem como o pó branco da cocaína, o copo com cachaça ou o maço de cigarro, são ainda mais difíceis de vencer.

Muitos de nós nos olhamos no espelho e damos "Graças a Deus" por sermos "cidadãos de bem" que, como brincava o cantor carioca Tim Maia (1942-1998): "Não fumamos, não bebemos e não cheiramos. Só mentimos...". Só que, como Janis, Amy e tantas outras celebridades ou anônimos que morreram devido ao envolvimento com drogas, bebidas e afins, muitos de nós também estamos viciados. E muito.

E sabe o que é triste?

É observar senhores de mais de 60 anos de idade viciados em comportamentos que há muito já deviam ter superado. Eu friso a idade, porque, aos 60 anos, você teoricamente já ultrapassou a metade da sua expectativa de vida. (Ou algum de nós acha que é "imortal"?) Que triste uma pessoa que há décadas é viciada no orgulho, na arrogância, na fofoca, no materialismo, nas aparências. E não muda.

Fotografia de Petr Kratochvil

Gente que ainda não superou a bobagem de se comparar com os outros, a bobagem de abrir a boca só para "contar vantagem" e mentiras, gente que é tão complexada, que foge dos outros só para não assistir à felicidade alheia, em vez de escolher se alegrar com O Próximo!... E isso acontece não muito longe de nós, e sim do nosso lado! Como pode alguém se dizer cristão, conviver com familiares cristãos, e agir assim?

Que triste imaginar que esposa e filhos não ajudam uma pessoa tão orgulhosa e complexada a se dar conta de que a sua vaidade é uma tremenda tolice!... Que triste ver que anos e anos se passam e a pessoa não dá o mínimo sinal de melhora, de evolução, de humildade!... Está atolada no orgulho, trata-se de um falastrão, que deixa os outros abatidos e incomodados com suas observações... E não muda.

Se acha "o bom" só porque não fuma, não bebe e não cheira, porém não enxerga que tem outros vícios, vícios de comportamento que, assim como a fumaça do cigarro, transtornam - e até tiram a paz de - quem está ao redor.

Eu também tenho as "minhas drogas".

Pensamentos, palavras e atitudes recorrentes os quais denunciam que, como Janis Joplin no passado, tenho uma luta severa a ser travada hoje. Só que estou longe da metade da minha expectativa de vida - vou fazer 35 anos. Por isso, ao menos teoricamente, tenho o tempo a meu favor. Quanto aos senhores de mais de 60 anos de idade, viciados em vaidade, que será deles? Quando, meu Deus, eles acordarão?

Fotografia de Peter Griffin

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