1 de abril de 2011

Crônica sobre a cegueira

Como Paulo um dia, também trago escamas nos olhos
que me atrapalham a ver a vida conforme a visão de Deus

Fotografia de jane doe

Fotografia de David Wagner

Fui ao oftalmologista - o mesmo médico, desde os meus 12 anos de idade. Pingaram em mim um colírio que ardia à beça, passei por três aparelhos diferentes, recebi uma receita e fui para casa. Duas horas ao todo. Na vez anterior, dezembro de 2009, fiquei por cerca de quatro: antes de mim, haviam entrado na sala dele um casal com um bebê e uma senhora. Permaneceram uma hora e meia lá.

Pouco antes da minha vez, a senhora saiu da sala transtornada, quase chorando, e atravessou a sala de espera, a fim de tomar um copo de água. Descartável. Depois, o casal com o bebê também apareceu. A mãe olhava para o nada. O pai tentava se manter sereno. Entrei, o doutor me explicou.

"Desculpe a demora, mas não tinha como eu atender mais rápido... Viu a criancinha que saiu daqui?". "Vi sim, doutor... É grave?" "Glaucoma." "Qual a idade dela?" "Dez dias." "Nossa, recém-nascida... Não tem como operar?" "Sim, eu vou operar, mas não vai adiantar: só vou conseguir tornar o pior, ruim..." "Doutor, como é que dá pra notar que um bebezinho tem glaucoma?" "Tinha manchinhas nos olhos." "Ah..."

Saí daquela consulta há mais de um ano, tentando conceber o que os pais estariam pensando: teriam que reinventar, na mente deles, tudo o que imaginaram para o futuro da filha. As brincadeiras deveriam ser diferentes, a maneira de educar também. Ensinar sobre a vida para alguém que nunca poderá vê-la é um desafio que exigirá deles paciência, disposição e criatividade. Não sei bem por quê: tive a convicção de que dariam conta do recado. De que conseguiriam.

É que a cegueira, para mim, não é um fantasma. Não é o fim do mundo.

Primeiro, porque um dos grandes amigos que tive, meu avô paterno Raul, viveu seus últimos 18 anos aqui sem enxergar absolutamente nada e com uma dignidade... Ele não se abateu, não se lamentou, manteve-se alegre, sonhando, criando poemas. Que exemplo! Segundo, porque estudei Comunicação Social-Jornalismo com um colega cego de nascença. Ele acompanhou todas as aulas na faculdade, incluindo as de Fotografia, e formou-se. Soube que passou em um concurso e trabalha como jornalista.

Conviver com pessoas cegas me provou que a pior cegueira não é a física. O tipo de visão que precisamos para nos conduzir bem na vida, ajudar as pessoas e encher o Pai Nosso Que Está nos Céus de orgulho é de outra natureza: é interior.

Fotografia de Mikaela Dunn

Fotografia de David Wagner

Tem muita gente por aí que (ao contrário de mim) não precisa de óculos para ver o mundo e, contudo, tem um olhar distorcido, obscurecido, doente. Dá cabeçada em postes, tropeça no meio-fio, atravessa no meio dos carros arriscando a própria pele. Não adianta ter olhos sãos, se a nossa forma de fitar as pessoas, os acontecimentos, o Sagrado e até o profano for turvada e não movermos uma palha para alterar isso.

Meu avô era cego, andava com bengala na mão. Quase não saía de casa. Entretanto, continha o universo dentro de si e, com quem tinha o carinho de se assentar por mais de alguns minutos ao seu lado, partilhava essa riqueza. Diversamente, há pessoas que não são cegas e, no entanto, o seu modo de pôr a vida em perspectiva é desolador. Veem tudo torto, com seu olhar enfermo e, como dizia Padre Léo, "espalham inferno". Você deve conhecer alguém assim: desagradável. Ou será que você e eu seríamos esse alguém assim, hein?

Essa conversa me lembrou o filme O Amor é Cego (Shallow Hal, 2001), estrelado pelos atores Jack Black e Gwyneth Paltrow. À primeira vista, para quem ainda não assistiu, pode parecer uma comédia romântica tola de Hollywood. Pode, porque ele traz uma Grande Lição. Acompanhe a sinopse, conforme o site adorocinema:

Hal (Jack Black) é um homem que segue à risca o conselho de seu pai e apenas se interessa por mulheres que tenham um físico perfeito. Mas tudo muda quando ele por acaso se encontra com Anthony Robbins, um guru de auto-ajuda que o hipnotiza e faz com que ele apenas possa visualizar a beleza interior das mulheres, em detrimento de seu físico.

Sem saber que está sob o efeito de hipnose, Hal então se apaixona por Rosemary (Gwyneth Paltrow), uma mulher obesa que é vista por ele como se fosse uma verdadeira deusa. Até que, após ser retirado da hipnose por seu amigo Mauricio (Jason Alexander), ele passa a ver como Rosemary é de verdade fisicamente e precisa tomar uma decisão sobre seu relacionamento com ela.

Imagem: Reprodução-Internet

O que mais gostei em O Amor é Cego, cuja direção é atribuída a Peter e Bobby Farrelly, é nos mostrar que quando Hal é hipnotizado e contempla as pessoas pelo que elas são, e não pelo que elas aparentam, aí é que ele passa realmente a enxergar a vida.

No longa-metragem, geralmente, quem era lindo por fora parecia simplesmente horrível para Hal. E aqueles que eram aleijados, velhos, feios ou estavam muito acima do peso lhe surgiam saudáveis, joviais, magros e maravilhosos. A cena em que ele e a namorada Rosemary visitam o setor de crianças queimadas em um hospital é enternecedora. O jeito de Hal entrever as coisas deixa todo mundo pra cima, contente. As pessoas insistem que “está enganado”, que elas não são tão bonitas quanto afirma. Ao que ele retruca: “Ei, pare com isso! Está louca? Eu garanto: você é linda!”.

Quanto a mim...

Saí do consultório com um ótimo diagnóstico. E feliz por isto: minha miopia estabilizou, a pressão ocular vai bem. Todavia, internauta d'A Católica, ando preocupada com meu modo de olhar para a vida. Nesse campo, e aproveitando o ensejo da Quaresma, sou minha própria oftalmologista. E o diagnóstico não é dos melhores... O foco para mirar o meu Próximo não está ajustado com aquilo que Cristo espera de mim. Oscila muito e, na maioria das vezes, só considera o que há de pior nele. Não consegue vislumbrar a sua beleza.

Como o apóstolo Paulo um dia (At 9, 1-19), também trago nos olhos escamas que me impedem de aceitar, entender e gostar do meu Próximo. E me pergunto: até quando vou tatear, viver um cristianismo e um catolicismo vacilantes? Até quando, por não enxergar direito, vou andar por aí me escorando nas muletas da murmuração, da maledicência e do pessimismo? Até quando vou me portar tão assim às escuras?

Ei: você também se faz essas perguntas? Sei que eu, Ana Paula, preciso de tratamento urgente para regular a minha visão interior. Saúde e Paz!!


~Ana Paula~A Católica
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