23 de março de 2011

Post Nº 200 do Blog: Uma Via-Sacra Especial!

A Católica apresenta uma Via-Sacra riquíssima, que vai fazer você
mergulhar coração e intelecto na agonia de Nosso Senhor.
Confira o trabalho do espanhol Mateo Bautista neste Post de Número 200 do Blog!

Imagem: sights of Bamberg, Germany, por Immanuel Giel

Se estais padecendo e tristes, [...] vede-O atado à coluna, cheio de dores, com a carne toda feita em pedaços pelo muito que vos ama, padecendo muito; perseguido por uns, cuspido por outros, renegado pelos amigos, desamparado por eles, sem ninguém que O defendesse, gelado de frio, posto em imensa solidão. Se o fizerdes, um com o outro podeis vos consolar. Contemplai também o Senhor carregando a cruz, sem que O deixassem recobrar o fôlego. Ele porá em vós Seus olhos formosos e piedosos, cheios de lágrimas, esquecendo-se de Suas dores para consolar as vossas, só porque ides consolar-vos com Ele e voltais a cabeça para fitá-Lo.

Trecho de Caminho da Perfeição, obra de Santa Teresa de Jesus (ou de Ávila)

Reprodução-Internet
Essa passagem pungente aparece logo no início do livrinho A caminho do Calvário - Via-sacra (Paulinas, 2008), do religioso camiliano (ou seja: da Ordem dos Ministros dos Enfermos) e professor de Teologia Mateo Bautista. Só as palavras da santa espanhola, compatriota do autor, já justificariam por que devemos rezar com frequência e devoção a Via-Sacra. Este Post d'A Católica, porém, quer ir além: apresentar-lhe a obra de Mateo Bautista e convidar você a meditar a Paixão de Cristo com ela.

Contudo e em primeiro lugar, vamos por partes.

No que consiste a Paixão de Cristo?
Conforme a página da WikiCN, a Enciclopédia da comunidade Canção Nova, trata-se da "narrativa do calvário de Jesus desde o momento em que ele é preso no Monte das Oliveiras, após a realização da última ceia com os apóstolos, até a sua morte na cruz".

E o que é Via-Sacra?
A página da WikiCN a define assim: "Realizada normalmente durante a Semana Santa e nas sextas-feiras do período da Quaresma, a via-sacra é um ato litúrgico celebrado pela Igreja Católica para relembrar a paixão e morte de Jesus Cristo. Durante a cerimônia, enquanto o sacerdote lê trechos dos Evangelhos, os católicos meditam diante de uma série de quadros que representam as principais cenas da saga de Jesus".

O livro de Mateo Bautista completa: "A via-sacra é uma oração contemplativa, tanto pessoal como comunitária, em torno das estações da paixão do Senhor Jesus. Sua finalidade é configurar o fiel ao espírito de Cristo, o Filho de Deus, servo de Javé, morto por nós e ressuscitado para nós, vivificador e Senhor da história". Segundo o autor, ela é realizada através destes passos: 1º) anúncio da estação; 2º) leitura do relato evangélico; 3º) meditação; 4º) oração.

Reparou no grifo? A Via-Sacra - prática que de acordo com Mateo Bautista existe desde o ano de 384, com os cristãos de Jerusalém - é para ser rezada tanto na Igreja, no meio dos fiéis, quanto em casa, individualmente. E A caminho do Calvário... contempla essas duas possibilidades. A diferença é que, na meditação pessoal, os passos são enriquecidos com Comentários - que, para mim, constituem a grande riqueza e singularidade da obra do religioso espanhol.

Por falar em singularidade, o livro de Mateo Bautista tem outro diferencial.

Conforme o autor, depois do trabalho de São Leonardo de Puerto Mauricio (1676-1751), "grande apóstolo propagador da via-sacra", desde meados do século XVIII, "tradicionalmente, este piedoso exercício ficou assim estabelecido:

1ª estação: Jesus é condenado à morte (Mt 27, 20-26).
2ª estação: Jesus carrega a cruz (Jo 19, 16-17).
3ª estação: Jesus cai pela primeira vez (Mc 8, 34-36).
4ª estação: Jesus encontra-se com sua mãe (Lc 8, 19-21).
5ª estação: Jesus é ajudado pelo cirineu. (Mc 15, 21).
6ª estação: Verônica enxuga a face de Jesus (Is 52, 13-14).
7ª estação: Jesus cai pela segunda vez (Is 53, 5).
8ª estação: Jesus consola as mulheres de Jerusalém (Lc 23, 27-28).
9ª estação: Jesus cai pela terceira vez (1Pd 2, 20-21).
10ª estação: Jesus é despojado de suas vestes (Jo 19, 23-24).
11ª estação: Jesus é pregado na cruz (Lc 23, 33-34).
12ª estação: Jesus morre na cruz (Mt 27, 45-50).
13ª estação: Jesus nos braços de sua mãe (Fl 2, 6-11).
14ª estação: Jesus é sepultado (Jo 19, 38-42)".

Way of the Cross, St. Maria (Sehnde), por Rabanus Flavus

Eis o outro diferencial da obra A caminho do Calvário..., nas palavras do próprio autor:

Nesta via-sacra, seguimos as narrações evangélicas. Por isso, não são contempladas como estações as quedas de Jesus ou o encontro com Verônica. Analisam-se, sim, outras estações que, via de regra, não são citadas especificamente em outras via-sacras: Jesus traído por Judas, condenado pelo sinédrio e negado por Pedro; também o encontro do Salvador com Herodes Antipas; ou Jesus que promete Seu reino àquele que está crucificado com Ele.

Antes que você possa pensar que essas alterações "invalidam" a Via-Sacra proposta por Mateo Bautista, Padre Nadir José Brun, em Grandes Orações (Editora Ave-Maria, 1998), assegura que "a própria Congregação do Culto Divino autorizou em diversas oportunidades o uso de formulários alternativos [ou seja: que incluem ou excluem estações], mantendo-se plenamente a validade da via-sacra tradicional".

Vamos à primeira singularidade da Via-Sacra do religioso espanhol, que tanto me agradou: a presença dos Comentários.

Na meditação pessoal, eles aparecem após o 2º passo, qual seja, a leitura do relato evangélico. Seu propósito é destrinçar o contexto histórico, a semântica dos nomes de pessoas e lugares e até questões psicológicas e médicas ligadas à Paixão de Cristo. Por exemplo: na Sexta Estação, "Jesus é flagelado e coroado de espinhos", o autor pormenoriza a flagelação. Ele expõe no que ela consistia, como era executada e suas consequências. O trecho a seguir, que considero forte, descreve o estado em que Nosso Senhor foi deixado:

O corpo de Jesus ficou profundamente lesado tanto no seu exterior como internamente: irritações cutâneas, escoriações, feridas com pedaços de pele pendentes, lesões pleurais [pleura é a membrana que reveste a superfície interna do tórax e a externa dos pulmões] e no tórax, pericardite [inflamação do pericárdio, a membrana que envolve o coração] traumática.

Os fortes golpes feriram os principais músculos que intervêm no processo respiratório: os peitorais, os intercostais [entre as costelas] e o diafragma [que separa o peito do abdómen], levando a dispineia - ou incapacidade respiratória - ao ponto máximo, com gravíssimos sintomas de asfixia [falta de ar e de circulação sanguínea].

Os golpes incisivos provocaram uma grave disfunção renal [dos rins] e hepática [do fígado]. O fígado ficou muito afetado devido à ausência de glicogênio, causada por cada golpe, com a consequente debilidade extrema. A perda de sangue foi enorme.

A diminuição de volemia [volume de sangue que circula no organismo] em virtude da nova e abundante hemorragia agravou a sede de Jesus, iniciada no Getsêmani [ou Monte das Oliveiras, onde Ele estava antes de ser traído por Judas e levado ao Sinédrio - ver página ABCatólica. No horto, Nosso Senhor entrou em agonia, orou com insistência e suou sangue (Lc 22, 44)]. A hipotensão [pressão sanguínea abaixo da normal] manifestou-se.

Certamente, quando desataram as amarras que seguravam Jesus, Ele deve ter desabado, exausto, sobre a poça de Seu próprio sangue. Jesus era só dor!

Flagellation of Christ (Sem Data), Peter Paul Rubens (1577-1640)

Sobre a coroação de espinhos, Mateo Bautista elucida: "A coroa não era um simples aro de espinhos em volta da cabeça na altura da fronte, mas uma espécie de capacete que recobria toda a parte superior da cabeça até o pescoço, à moda das coroas orientais do século I". Ele prossegue: "Provavelmente, a coroa de espinhos acompanhou Jesus no caminho do Calvário. Na crucificação, os espinhos, de novo, penetravam na cabeça de Jesus enquanto Este tentava respirar, coroando a agonia até Sua morte".

Christ crowned with thorns (after 1573), After Lucas van Leyden
Formerly attributed to Albrecht Dürer

Internauta d'A Católica: essa foi uma amostra do ponto a que chegam os detalhes e a riqueza de informações que há em A caminho do Calvário - Via-sacra. Outro exemplo: na Décima Quinta Estação, "Ressuscitou nossa esperança", o autor esclarece o quê exatamente os discípulos encontraram quando chegaram ao túmulo de Nosso Senhor e nos convida a avistar e analisar o lençol e o sudário junto com eles. Muito bom.

Estamos quase na metade da Quaresma. Ainda há tempo de você adquirir a obra de Mateo Bautista em qualquer boa livraria católica. O preço é outro atrativo: apenas R$ 7. "Tamanho não é documento" mesmo. O livro é pequeno, mas pleno de dados e de explicações que aumentam o nosso conhecimento e, por isso mesmo, embasam e iluminam a nossa devoção. Espero que curta como eu curti. Aliás, como eu ainda curto (já que adquiri A caminho do Calvário... em 2008 e o medito todos os anos).

Saúde e Paz!!


~Ana Paula~A Católica
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