14 de março de 2011

O tempo da Quaresma e o filme 127 Horas

Aron Ralston renunciou à mão direita, à parte do braço
e também a um jeito (egoísta) de viver.
Este tempo litúrgico da Igreja nos propõe a fazer (quase) o mesmo

Fotografia de Vera Kratochvil

Ele era "O Tal". Gostava de subir e descer de montanhas, nadar em lagos inóspitos, como um pássaro independente e sem ninho. No sábado, pegou carro, bicicleta, mochila, lanche e muitas cordas. Um fim de semana pleno de adrenalina e... Sozinho. Ops. Algo saiu errado. Não estava no script, não era previsto. Pula daqui, salta dali... Ele cai. Junto a uma pedra que rola e prende antebraço e mão direitos, esmagados contra um paredão frio, cor de ferrugem, no fundo de uma grande fenda rochosa.

Esse é o início do filme 127 horas (2010), do diretor inglês Danny Boyle.

O título remete ao intervalo em que o jovem Aron Ralston, interpretado pelo ator norte-americano James Franco (anfitrião da cerimônia do Oscar de 2011), ficou preso naquele local: entre os cânions do deserto do estado de Utah, nos Estados Unidos. Se ainda não sabe, internauta d'A Católica, eis o mais impressionante: Aron Ralston não é personagem de ficção. Existe em carne e osso. O incidente de que trata o longa ocorreu no ano de 2003.

Imagem: Reprodução-Internet

Para se livrar daquela "sinuca de bico" - como chamamos aqui no Brasil uma situação bastante complicada -, o jovem alpinista decide pôr em prática o único jeito de escapar dali: separando-se de parte do seu braço. Ou fazia isso, mesmo que o canivete que trazia consigo fosse cego o suficiente para comprometer o seu intento, ou morria. E aqui tocamos em outra característica da sua personalidade.

Aron Ralston, valente, destemido e desembaraçado que era, não costumava informar aos pais nem a ninguém onde desfrutaria da sua próxima aventura. Saiu para o fim de semana sem que alguém soubesse onde estaria. E o buraco em que se meteu era tão fundo, num ponto tão ermo e isolado, que só um outro montanhista tão ousado e curioso quanto ele acharia o seu corpo. Daí a solução radical pela amputação.

Fiz uma associação entre o que ocorreu no deserto de Utah com esse jovem, então com 27 anos de idade, e este tempo da Quaresma.

Desde a Quarta-Feira de Cinzas, logo após o carnaval, a Igreja Católica se vestiu de roxo - a cor do luto e da penitência.

Depois da dispersão que o período da folia nos propõe, esta é a época de nos concentrarmos e nos voltarmos para nós mesmos e para O Próximo - através do jejum, das orações e da caridade. A Quaresma, assim, é "um tempo de profundo recolhimento para uma maior intimidade com Deus" (Luzia Santiago) e hora propícia para praticarmos com afinco o amor fraterno: "aquilo que se economiza por meio do jejum deve ser dado aos pobres e necessitados" (Anselm Grün).

Ao longo de quarenta dias, nós nos preparamos para "o ponto culminante do Ano Litúrgico": a Semana Santa, na qual "se celebra a memória da morte e da ressurreição de Jesus, verdadeiros fundamentos da fé" (Irmã Maria Inês Carniato). A duração de 40 dias, conforme matéria da revista Terço Bizantino (Fevereiro-Março 2006), "está baseada no símbolo do número quarenta na Bíblia". O texto da revista continua:

Na quaresma, Cristo nos convida a mudar de vida. A Igreja (...) nos convida a viver uma série de atitudes cristãs, que nos ajudam a parecer mais com Jesus Cristo, já que por ação do pecado, nos afastamos mais de Deus. (...) A quaresma é também tempo de revisão de vida, de penitência, de reconhecer com humildade e confiança onde estão nossas deficiências e buscar o perdão e a força de Deus.

Fotografia de fotohoekcarla nvt

Após assistir a 127 Horas, cheguei à conclusão de que aqueles cinco dias recluso entre dois paredões de rocha, no meio do nada, foram uma espécie de Quaresma para Aron Ralston. Com a comida racionada, machucado, sangrando, sentindo dor e absolutamente só, o jovem alpinista fez uma séria (re)avaliação do seu modo de proceder - tal e qual a Igreja Católica nos propõe neste período do Ano Litúrgico.

Embora, no longa-metragem, eu sentisse falta de diálogos do protagonista com Deus - vídeos no You Tube deram-me a entender que ele tem uma crença -, o aventureiro passa por aqueles cinco dias com um autêntico espírito de penitência e conversão. A fenda em que estava metido tornou-se a cela de um convento, na qual só havia uma coisa possível a ser feita, por ora: pensar e repensar a própria existência.

A simbologia do número 40 na Quaresma reporta de maneira especial os 40 dias que Jesus Cristo passou no deserto, "tentado pelo demônio" (Mt 4, 1-11; Mc 1, 12-13; Lc 4, 1-13). Sobre essa passagem dos evangelhos, no livro Jejuar - Corpo e alma em oração (Paulinas, 2009), o monge beneditino alemão Anselm Grün pondera:

Jesus jejuou no deserto. O jejum e o deserto estão intimamente relacionados entre si. Ambos nos confrontam com a nudez. Tiram o véu por detrás do qual se escondem os nossos verdadeiros desejos e pensamentos. No deserto não temos nenhuma proteção por detrás da qual poderíamos nos esconder. E o jejum nos torna ainda mais vulneráveis, por causa dessa falta de proteção. Não temos mais nada com que entupir o vazio que está emergindo, com que pudéssemos reprimir os desejos e as necessidades que estão se manifestando. (...)

Fotografia de Petr Kratochvil

"Nu", no "vazio" e "sem nenhuma proteção", Aron Ralston começa a questionar-se, a buscar e descobrir em si as próprias "deficiências".

Cenas de flash back se interpõem na narrativa do filme. Diante de seus olhos, os momentos em que foi indelicado com a namorada que o amava e negligente com a mãe que lhe telefonava todos os dias vêm à tona e o arrependimento e pesar tomam conta do seu coração. Ao mesmo tempo em que percebe a importância de sua família, que vinha ignorando com sua postura individualista, bem ao estilo "tô nem aí".

Dessa forma, a Quaresma é a nossa chance de também "sermos Aron Ralston": com a vantagem de não estarmos atados por uma grande pedra, entre dois paredões rochosos no meio do deserto, sem ver nem ouvir quem quer que seja.

Capa da versão em alemão da autobiografia de Aron Ralston:
No Cânion - Cinco Dias e Noites
até a Decisão mais difícil da minha Vida

Imagem: Reprodução-Internet

Não é preciso grandes tragédias nem perdas materiais ou emocionais para que possamos mudar nosso modo de existir no mundo! Este tempo que a Igreja Católica vive é A Oportunidade de fazermos o nosso mea culpa, olharmos para dentro de nós mesmos sem medo de "dar de cara" com nossas facetas e sensações mais feias, censuráveis e até desprezíveis. Facetas a que precisamos renunciar, a fim de que haja a nossa "conformação com a vida de Jesus Cristo" (Monsenhor Jonas Abib).

Não sei quanto a você, internauta d'A Católica, mas venho me assustando com o que ando enxergando em mim... Algumas vezes, temos uma autoimagem distorcida e nos iludimos de que os outros nos veem como nos vemos. Nos achamos "o máximo" e cremos piamente que todos concordam com isso. Porém, pessoas queridas e próximas a mim, que - oxalá - querem o meu bem, vêm me indicando pontos, ou melhor, falhas no meu caráter seriíssimas, que me impedem de ir adiante. De ir além.

Não faço a mínima ideia de quando serei capaz de superar minhas imperfeições. Como, eu sei. Jejum, orações e caridade.

Jeune Femme au Miroir (Sem Data), Jean Raoux

O alpinista Aron Ralston sobreviveu. Só que, para isso, e retomando o que relatei no início deste Post d'A Católica, ele teve que abrir mão... Da própria mão. E de parte do braço. O bonito é que, naquela fenda ou buraco em que despencou e esteve detido, não ficaram apenas partes de seu corpo, e sim Todo Um Jeito de Proceder. Depois de cinco dias, ele renunciou a inclinações de seu caráter. Transformou-se. Renasceu.

Luzia Santiago, cofundadora da Canção Nova, em artigo publicado na edição de março de 2009 da revista da comunidade expôs algo que me tocou. Algo que desejo que ocorra comigo e com você, a exemplo do que houve com o protagonista de 127 Horas:

Na Quaresma, somos convidados a fazer uma comparação entre nossa vida e os Evangelhos. Essa comparação significa um recomeço, um renascimento espiritual e pessoal. Somos convidados a intensificar a prática dos princípios essenciais de nossa fé com o objetivo de sermos pessoas melhores e proporcionar o bem a todos.

Ficam as perguntas para mim e para você:
O que em nós nos atrapalha a ser mais parecidos com Jesus Cristo?
Do que precisamos abrir mão?
O que temos a RENUNCIAR?


Saúde e Paz!!


P.S. Para ler mais: Danny Boyle fala sobre 127 Horas: "É um thriller, um drama e não uma reflexão pastoral", por Ana Maria Bahiana.



~Ana Paula~A Católica
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2 comentários:

  1. Ei Ana,
    Gostei muito de seu post apesar de ter achado o filme um pouco chato. Mas voltando o mais importante, uma coisa que me chamou a atenção foi como certas decisões são difíceis de serem tomadas, muitas vezes não há possibilidade de negociar e o sacrifício será enorme mesmo na melhor situação. Tudo é chocante mas o que ficou para mim, foi a coragem enorme desse rapaz mesmo consciente que ele não teria outra saída se quisesse viver. Muitos de nós ao longo de nossas vidas vamos deparar com momentos similares e que tenhamos a presença de Deus para nos iluminar.
    Bjs
    Christian

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  2. Achei curioso que sentisse falta de diálogos do protagonista com Deus.
    Achei curioso porque nunca o compreendi.

    No entanto este filme por não fazer referencia a Deus, é uma excelente forma de ilustrar a filosofia de um não crente.
    Primeiro pela forma racional como o problema é encarado. Depois pelo lado emocional, quase sempre despoletado pelo pânico e desespero.

    O que é muito interessante é é no lado emocional que vai buscar força. E são os valores Humanistas como a relação que que temos com a Família e Amigos. Pessoas reais com sentimento e expressão. Pessoas que as nossas decisões influenciam a felicidade e sofrimento.


    Felicidade,
    DF

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