22 de março de 2011

Eu me sinto BEM em mim?

A doença nos obriga a ficar sozinhos com nossos pensamentos
e com o essencial: aquilo que estamos nos tornando.
Você gosta do que vê ou encontra em você?

Making Her Toilet (1889), William Merritt Chase

Fotografia de Ibrahim Iujaz from Rep. Of Maldives.
Edited for enwiki upload by Daniel Case

Conforme contei no Post anterior d'A Católica (que a Maria Luiza me deu a alegria de comentar), estou doente (je suis malade, em francês). E o significativo de nos sentir no chão - condição na qual me encontro -, é que sem disposição para o riso, a festa, a convivência com os outros e até mesmo para uma saída na rua, somos obrigados a procurar, encontrar e nos voltar para o essencial. E o que é o essencial?

Não sei se você se lembra da última vez em que esteve mal. Bem mal. Tudo é ruim: janela aberta incomoda; cortina recolhida atormenta; a luz da TV é um estorvo; ficar sentada cansa; deitada, enjoa; dormir é horrível; acordar é pior... Tudo parece fora do lugar: a sensação é que até a nossa própria pele não nos cabe mais. E o maior dos desejos se torna o dia terminar logo... Se nada satisfaz, o que resta? O essencial.

Nunca me sinto tão só como nas horas em que estou bem mal. Porque ninguém pode entender ou partilhar comigo a minha dor. Como Marisa Monte tão lindamente canta em De mais ninguém:

Se ela me deixou, a dor
É minha só, não é de mais ninguém.
Aos outros eu devolvo a dó,
Eu tenho a minha dor.
Se ela preferiu ficar sozinha,
Ou já tem um outro bem.
Se ela me deixou, a dor é minha,
A dor é de quem tem.

É uma canção de amor. Sobre a dor da partida do Ser Amado. Porém, posso cantá-la para a saúde: ela me deixou. A saúde (por ora) me abandonou. E como na letra da música, de autoria da própria Marisa Monte e de Arnaldo Antunes, também "aos outros eu devolvo a dó": não escrevo este Post para despertar a sua comiseração. Minha intenção é dividir com você a única coisa possível: a reflexão que a dor me provoca.

A solidão e a tristeza - não exatamente a tristeza, talvez o abatimento - em que me encontro tornam difícil olhar para o lado, para O Próximo: elas me obrigam a me voltar para mim mesma. E eis que me vejo impotente, ao dispor do destino, à mercê da vinda ou não da cura ou, como nós católicos gostamos de dizer, nas mãos da Divina Providência. De mãos atadas, o que me sobra é tomar os medicamentos e... Esperar.

Estou aqui: cara a cara com o essencial.

Se ver TV ou ouvir música, por enquanto, tornaram-se um suplício, e se não tenho disposição de estar com alguém, nem mesmo de assistir à Santa Missa, a única companhia de que não posso abrir mão é a minha própria. O único som que não consigo abafar é o dos meus pensamentos. Será que me suporto? Será que aguento o alarido deles? Envolta no silêncio externo, por dentro, sou um barulho só. E, doente, sinto-me enfraquecida para domá-los. Os pensamentos correm soltos, como potros selvagens.

Fotografia de NancyHeise

Engana-se quem acha que o doente está "isolado". Sozinho, ele está. "Isolado", não. Nossas ideias, sonhos e, principalmente, temores não nos deixam em paz. Por fora, parecemos quietos. Por dentro, há ruído. Revivemos mentalmente situações desagradáveis, conversas que não deram certo, trabalhos não concluídos. Passamos a limpo mal-entendidos e tentamos recobrar o juízo e o Caminho do Bem. Como posso ser uma cristã melhor na próxima vez? Como ser uma esposa melhor? Uma fiel melhor? Uma cidadã melhor?

O essencial é isto: o que me resta quando a saúde falta. Afinal, o que me resta?

Não vou mentir para você e responder idealmente: "A fé". No auge da dor, confesso que chego a perdê-la. Não, no sentido de "maldizer" a Deus. Não. Mas, no sentido de duvidar de que mereço a redenção. Eu desconfio da cura. Chego a acreditar que ela é impossível. A dor abala a minha fé. Fé em que eu sou digna da salvação.

Então, o que me resta quando a saúde falta? Um monte de pensamentos? Como visto acima, certamente. Pensamentos que vêm acompanhados de uma vontade enorme de acertar. De acertar em uma nova oportunidade. Entretanto, antes dos pensamentos vem... Eu mesma. Sim: eu. Ego puro. O essencial sou eu, internauta d'A Católica.

Se a doença nos tira quase tudo, até a fé na cura, resta o essencial: quem somos. E desde que minha recente crise de enxaqueca começou, há dias, venho me perguntando se me sinto bem com quem eu sou, com quem estou me tornando. Peço a sua licença para guardar a resposta comigo. Não quero causar a impressão de ser pretensiosa ou, pelo contrário, pessimista. Dou-lhe uma pista: digamos que eu seja uma casa. Uma casa imensa e um tanto vazia, cuja decoração deixa a desejar. Falta bastante para eu me sentir bem em mim...

A so called Zimmerbild (chamber painting). Berlin, Germany.
Early Victorian period (about 1820), Johann Erdmann Hummel

... Minha esperança é a mesma de muitos: a dor, compulsoriamente, nos torna melhor do que somos. É nisso que venho trabalhando, quero dizer, pensando... (Apesar de sofrer tanto.) Saúde e Paz!!


~Ana Paula~A Católica
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