28 de março de 2011

A caridade e um conto de K. Mansfield

Roubar a alegria de alguém é atentar contra o novo mandamento de Cristo.
O amor a Deus implica necessariamente o amor afetivo humano.
No conto da famosa escritora, há um exemplo do que não podemos fazer

Elvira Resting at a Table (1919), Amedeo Modigliani

Há um conto da escritora neozelandesa Katherine Mansfield (1888-1923) que me puxa o tapete do chão: Srta. Brill. Na edição brasileira de Twelve Stories (Cosac Naify, 2005), ele não ocupa mais do que seis páginas. Parece uma história leve sobre um evento trivial: uma professora de inglês que põe uma pele (de raposa?) para ir à praça em mais uma tarde de domingo, assistir à banda tocar.

Ela examina os outros ouvintes: um casal de idosos, crianças, duas jovens de vermelho e "dois jovens soldados de azul [que] as encontraram", duas mulheres "puxando dois belos burricos cinzentos", uma freira "de ar gélido, pálida", uma mulher bonita, um cavalheiro de cinza e uma mulher com chapéu de arminho, um senhor "muito engraçado, de longas suíças"... Também, um rapaz e uma moça. Que roubaram a alegria de Srta. Brill.

Neste tempo da Quaresma, em que a Igreja nos pede uma atenção especial à tríade jejum, orações e caridade, lembrei-me do conto de K. Mansfield, o qual me diz muito a respeito do terceiro gesto ou atitude cristã.

O que é caridade? A primeira definição do dicionário Priberam da Língua Portuguesa é: "boa disposição do ânimo para com todas as criaturas". Achei-a linda, justamente porque expõe o que acredito ser o mais importante na caridade. Ânimo é "alma, espírito". Portanto, a caridade só será verdadeira, no seu sentido pleno, se envolver a boa disposição da minha alma para com todos. Todos.

Um rapaz e uma moça assentaram-se no mesmo banco de Srta. Brill. Ela estava feliz. Instantes antes, K. Mansfield nos conta: "Oh, como tudo aquilo era fascinante! Como ela se divertia! Como gostava de sentar aqui, observando tudo!". Então, principia-se o diálogo do jovem casal. Naquela praça, naquela tarde de domingo. Naquele banco. Conversação que a professora, com a pele em torno de si, não pôde deixar de ouvir:

"Não, agora, não", disse a jovem. "Aqui não, não posso".
"Mas por quê? Por causa dessa velha idiota sentada na ponta do banco?", perguntou o rapaz. "Afinal de contas, por que ela vem aqui? Quem quer saber dela? Por que não deixa trancada em casa sua cara velha e murcha?"
"O que eu acho engraçado é a pele que ela está usando", disse a jovem, dando uma risadinha. "Parece um peixe frito."
"Ah, vá dando o fora daqui!", disse o rapaz, num murmúrio enfurecido. E em seguida: "E então, ma petite chère..."

O rapaz e a moça, voltados demais para si mesmos, passaram feito um trator sobre a alegria da Srta. Brill. Esmagaram-na. Roubaram-na. A professora escutou tudo. E o seu domingo, tão agradável, terminou ali.

Conforme a agência de notícias Zenit, no dia 25 de março, Padre Raniero Cantalamessa, em sua primeira prédica (sermão) de Quaresma ao Papa e à Cúria Romana (para definição de Cúria, veja a página ABCatólica), falou sobre o amor e a "separação nefasta" que ele sofre "não só na mentalidade do mundo secularizado, mas também, do lado oposto, entre os crentes e, em particular, entre as almas consagradas".

Ele analisou a distinção entre "o 'eros', ou amor humano e passional, e o 'ágape', ou amor de oblação, apoiando suas reflexões na encíclica Deus caritas est, de Bento XVI". Segundo o padre: "O 'eros' sem 'ágape' é um amor romântico, mas comumente passional, até violento. Um amor de conquista, que reduz fatalmente o outro a objeto do próprio prazer e ignora toda dimensão de sacrifício, de fidelidade e de doação de si".

Por outro lado, "o 'ágape' sem 'eros' é um amor frio, um amar parcial, sem a participação do ser inteiro, mais por imposição da vontade do que por ímpeto íntimo do coração, em que os atos de amor voltados para Deus parecem aqueles de namorados desinspirados, que escrevem à amada cartas copiadas de modelos prontos". Daí, o religioso concluiu, a importância da "redenção do 'eros'", que...

...ajuda acima de tudo os enamorados humanos e os esposos cristãos, mostrando a beleza e a dignidade do amor que os une. Ajuda os jovens a experimentar o fascínio do outro sexo não como coisa turva, a ser vivida às costas de Deus, mas, ao contrário, como um dom do Criador para a sua alegria, desde que vivido na ordem querida por Ele. Mas também ajuda os consagrados, homens e mulheres, para evitar esse "amor frio, que não desce da mente para o coração. Um sol de inverno, que ilumina, mas não aquece".

Fotografia de Petr Kratochvil

Por que trouxe à lume, neste Post d'A Católica, a prédica de Padre Raniero Cantalamessa?

Porque caridade e amor são sinônimos. E, algumas vezes, a disposição da nossa alma para com O Próximo não é boa, e sim "fria, não desce da mente para o coração. Um sol de inverno, que ilumina, mas não aquece". Êpa. O sermão do padre não se referia ao amor a Deus? Por que, então, falar de boa disposição "para com O Próximo"? Porque, de acordo com o Catecismo da Igreja Católica:

Jesus fez da caridade o novo mandamento. (Parágrafo 1823)

Cristo morreu por nosso amor, quando éramos ainda "inimigos" (Rm 5, 10). O Senhor exige que amemos, como Ele, mesmo os nossos inimigos, que nos tornemos o próximo do mais afastado, que amemos como Ele as crianças e os pobres.

O apóstolo S. Paulo traçou um quadro incomparável da caridade: "A caridade é paciente, a caridade é prestativa, não é invejosa, não se ostenta, não se incha de orgulho. Nada faz de inconveniente, não procura o seu próprio interesse, não se irrita, não guarda rancor. Não se alegra com a injustiça, mas se regozija com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta" (1Cor 13, 4-7). (Parágrafo 1825)

O amor ao próximo é inseparável do amor a Deus. (Parágrafo 1878)

Retomando o sermão do pregador pontifício e conforme o que ele constatou: "As pessoas consagradas correm muitas vezes o risco de amar a Deus só com a cabeça, sem implicar o amor afetivo humano. No entanto, rejeitar o amor humano como algo oposto ao amor de Deus pode ser um obstáculo à nova evangelização".

Nós também, internauta d'A Católica: ainda que você e eu não sejamos consagrados, ou seja, não vivamos dedicados às coisas de Deus em um convento, mosteiro, paróquia ou comunidade religiosa, precisamos ser vigilantes para não amá-Lo "friamente". É preciso tornar boa a disposição da nossa alma para com O Próximo. Ver Cristo nele! O Catecismo ainda nos orienta quanto às formas de pôr em prática esse amor:

As obras de misericórdia são as ações caritativas pelas quais socorremos o próximo em suas necessidades corporais e espirituais. Instruir, aconselhar, consolar, confortar, são obras de misericórdia espiritual, como perdoar e suportar com paciência. As obras de misericórdia corporal consistem sobretudo em dar de comer a quem tem fome, dar de beber a quem tem sede, dar moradia aos desabrigados, vestir os maltrapilhos, visitar os doentes e prisioneiros, sepultar os mortos. Dentre esses gestos de misericórdia, a esmola dada aos pobres é um dos principais testemunhos da caridade fraterna e também uma prática de justiça que agrada a Deus. (Parágrafo 2447)

Os dois últimos parágrafos do conto de Katherine Mansfield são de cortar o coração.

O rapaz e a moça que se assentaram no mesmo banco de Srta. Brill não a suportaram com paciência. Além de a rejeitarem, expressaram isso com murmúrios e hostilidade, atacando-a e esquecendo-se de que ali, ao lado deles, estava um Ser Humano com sentimentos e esperanças. Como eles dois. A professora foi embora. Segundo narra a escritora: "A caminho de casa ela costumava comprar uma fatia de bolo de mel na doceira. Era seu luxo dominical". Porém, naquele dia...

... Ela passou pela doceira sem entrar, subiu as escadas, entrou em seu quarto acanhado e escuro - seu quarto que parecia um armário - e sentou-se sobre o edredom vermelho. Ficou ali durante muito tempo. A caixa onde era guardada a pele estava sobre a cama. Ela desenganchou rapidamente a pele e rapidamente, sem olhar, guardou-a na caixa. Mas quando pôs a tampa pensou ter ouvido alguma coisa chorar.

Chakoska (1917), Amedeo Modigliani

Fica a pergunta: será que você ou eu, algum dia, atentamos contra a caridade, ao roubar a alegria de alguém? Saúde e Paz.


~Ana Paula~A Católica
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Um comentário:

  1. Ei Ana
    Adorei o post, que mostra bem a crueldade que temos que vencer dentro de nós. A satisfação causada pela crítica alheia é um hábito arraigado de maneira geral e muito prazeroso para muitos. Para quebrarmos isso devemos ter muita força de vontade, para termos um coração que consiga o amar o outro como a nós mesmos.
    Bjs
    Christian

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