16 de março de 2011

As placas tectônicas, os japoneses e eu

Como o Japão, também me assento sobre o magma instável, que altera
tudo: na vida, não dá para prever o próximo atrito, o que pode acontecer

Mapa com o epicentro do terremoto e as Centrais Nucleares de Fukushima, que foram afetadas
Imagem de Maximilian Dörrbecker (Chumwa), modificada por W.Rebel (talk)

"Libertação súbita de energia que provoca movimentos da superfície terrestre. = abalo sísmico, sismo, tremor de terra"; "Grande perturbação". Essas são as definições de um dicionário de Língua Portuguesa para a palavra terremoto. O primeiro sentido é geológico, ou seja, relativo à Geologia, "ciência que estuda a estrutura da Terra, a sua origem, natureza e transformações". O segundo, podemos aplicar em outras áreas.

Os japoneses, e em especial aqueles no nordeste do Japão, no leste asiático, viveram (e ainda vivem) o sentido geológico do termo há cerca de uma semana, desde que um tsunami arrasou parte do país. Nota: conforme texto de Renata Costa no site Nova Escola, tsunami é "um terremoto entre as placas tectônicas sobre as quais está o oceano. Esse tremor de terras no solo do mar provoca uma agitação imensa das águas, resultando em ondas que chegam de maneira violenta e desordenada ao litoral".

Muitas vezes, ao longo de nossa história pessoal, experimentamos o outro sentido de terremoto: "Grande perturbação".

"Desarranjo"; "transtorno"; "confusão"; "alteração"; "desordem"; "tontura" são alguns dos vários significados de perturbação. O verbo perturbar quer dizer: "alterar a ordem ou o sossego de"; "abalar, agitar"; "interromper"; "atrapalhar-se" e (o que julguei mais interessante) "perder a serenidade de espírito".

Minha vida, aparentemente tranquila na visão de alguns ("Você tem uma vida muito boa, não tem do quê reclamar!", costumo ouvir), vem permeada por terremotos que variam de magnitude, mas cujo "estrago" ou resultado é (quase) o mesmo: bye, bye paz de espírito. Sinto-me como todos os continentes do planeta: sobre placas tectônicas que, embora aparentem solidez e firmeza, devido ao "movimento do magma incandescente no interior da Terra", não têm "ordem" nem "sossego".

Creio que essa sensação não é apenas minha. Talvez você perceba o mesmo: não estou fixa, nem segura, nem muito menos tranquila. Estou à mercê "do magma incandescente" das circunstâncias, que pode abalar tudo a qualquer momento - como o tsunami fez com a vida de milhares de japoneses em cidades, como: Sendai, Iwate, Miyagi, Kesennuma e Tóquio.

Meu impulso, em um primeiro momento, é bradar àquele povo: "Mudem-se das ilhas!" - o Japão é constituído de quatro grandes ilhas: Honshu, Hokkaido, Kyushu e Shikoku, e de outras menores. Afinal de contas, o país se situa em um ponto sujeito a sismos frequentes: entre três ou quatro placas tectônicas. Soube pela imprensa que teria sido o atrito entre a Placa Norte-Americana, ao norte, e a Placa Pacífica, ao leste, o que causou o abalo sísmico de magnitude 8,9 no dia 11 de março de 2011.

Mapa mostrando a distribuição da atividade tectônica - NASA - Domínio Público
CLICK no mapa para aumentá-lo (depois, CLICK de novo para vê-lo ainda maior)

Acontece que os japoneses não sairão de lá: é o seu lar. Onde seus ancestrais estão enterrados, onde trabalharam para reconstruir a nação depois que as cidades de Hiroshima e Nagasaki foram arrasadas pelas bombas atômicas que os Estados Unidos lançaram, a fim de forçar a rendição japonesa na Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Cerca de 100 mil pessoas morreram em Hiroshima, em 6 de agosto de 1945, e 75 mil em Nagasaki, no dia 9.

Pedir que se mudem seria o mesmo que dizerem a mim: "Já que tudo lhe parece tão instável, já que a força das situações pode provocar um desarranjo no estado de coisas que lhe são conhecidas, familiares e confortáveis, abdique-se da vida! Desista".

A arte de viver, sua adrenalina e grande emoção, talvez consista nisto mesmo: na consciência de que nada está pronto e acabado. A qualquer hora, o magma pode remexer e ocasionar "transtorno; "confusão"; "tontura". Um acidente na estrada, uma briga com o vizinho, um problema sério de saúde, um pedido de separação ou de divórcio. Na calada da noite ou à luz aguda do dia, alguém pode ser o porta-voz de uma notícia que mudará a nossa realidade. As estruturas serão destruídas ou, no mínimo, abaladas.

"Nada será como antes", como o título da canção de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos.

E assim, o evento trágico na grande ilha de Honshu, a maior do arquipélago do Japão, me fez pensar que não são apenas os japoneses que devem permanecer em alerta constante ante a ameaça persistente de um novo tremor. Ao meu redor, sob e diante de mim, a pressão das placas tectônicas das circunstâncias me comprime, me stressa, faz o meu coração disparar, torna impossível seguir com a tranquilidade que alguns acreditam que tenho.

Enfim... Solidarizo-me com o povo japonês. De certa forma, estamos todos na mesma condição: existindo, apesar de.



P.S. Para ler mais: Como o Japão se recuperará de seu maior desastre, por Exame.com.


~Ana Paula~A Católica
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