9 de fevereiro de 2011

O filme "Cisne Negro": a luta pela perfeição

Nina sempre foi um Cisne Branco, mas exigiram dela que buscasse
dentro de si uma outra faceta, uma outra coisa...

... Depois de muito suor e uma batalha dura consigo mesma,
ela conseguiu: tornou-se um Cisne Negro e declarou no final: "Foi perfeito."

(Fotografia de Nevit Dilmen)

Imagem: Reprodução-Internet

Fotografia de Vera Kratochvil

Isto é a magia do cinema: nos tirar desta realidade aqui, agora, concreta, a chamada nossa vida e nos transportar para uma outra, que não é a nossa. Porém, no final, na saída da sala escura, enquanto passamos pelas poltronas com os assentos levantados e sobre o chão repleto de nacos de pipoca, enquanto o coração desacelera, essa mesma magia nos fará pensar bastante nela - na nossa própria vida.

Foi assim depois que assisti ao belíssimo e imperdível Black Swan (2010) - em português: "Cisne Negro".

Durante o filme, que chegou às salas brasileiras nesta primeira semana de fevereiro, eu me esqueci de quem eu era. Fui arrebatada por Nina - nome da protagonista do longa-metragem, interpretada por Natalie Portman. Arrebatada por ela e por suas questões: "Como crescer?", "Como me livrar da superproteção da minha mãe?", "Como ser a bailarina perfeita?", "Como me tornar alguém diferente do que fui até agora?".

O diretor do longa, o norte-americano Darren Aronofsky, conduziu notavelmente a história da bailarina que ganha o papel principal na companhia em que dança: ela será os dois cisnes, o Branco e o Negro, na montagem do balé O Lago dos Cisnes, que tem a (famosa e vigorosa) trilha de Tchaikovsky. A condução de Darren consegue nos arrastar ao mundo do balé e, sobretudo, à cabeça de Nina.

Imagem: Reprodução-Internet

Qual é o X na cabecinha da protagonista da história? Se foi a eleita, é porque o coreógrafo da companhia, Thomas (interpretado pelo francês Vincent Cassel), acredita no seu talento e confia na sua capacidade. Ocorre que Nina é meiga demais, doce demais, frágil demais. E, se é perfeita para representar o Cisne Branco, precisa encontrar e desenvolver em si os atributos do Cisne Negro: força, sedução, maldade.

E aqui está a grande surpresa, especialmente para os espectadores leigos, que pouco entendem de arte. Dançar, cantar, atuar, tocar, pintar... Não basta dominar a técnica dessas atividades, os meios que são necessários para bem executá-las: corpo, voz, instrumentos musicais, pincel... Para executá-las Bem.

Esclarecendo, internauta d'A Católica: arte não é só técnica.

Precisa, tem que ter EMOÇÃO. Coração. Sangue. Verdade. Senão, "não rola" (como a gente diz aqui no Brasil). É por isso que milhares de boas cantoras ou bons atores não acontecem, não conseguem transformar a arte que parecem dominar em uma carreira bem-sucedida. Porque, apesar de dançarem ou pintarem muitíssimo bem, falta aquele algo a mais que os diferenciará de todos os outros. Da multidão.

E Nina, tecnicamente, é perfeita. Contudo, conforme o coreógrafo Thomas frisa e repete feito um disco arranhado para ela: isso não basta. Ele chega a chamá-la de "fria". E ameaça substituí-la. Não demora e a alegria de haver sido escolhida como a "Primeira Bailarina" da companhia ou a "Rainha dos Cisnes" tem o seu reverso: a angústia de oferecer algo que ela não tem ou, se tem, está escondido. Qual seja, a emoção.

Fotografia de Rita Ballantyne

O trajeto de Nina para alcançar o que esperam dela (e que ela espera de si), a técnica mais a emoção, é inebriante. A jornada da bailarina se assemelha muito a um filme de ação, com explosões de carros, fogo e ruído de rajadas. Só que não tem nada disso. O ritmo frenético é íntimo, pessoal e interno: está tudo na mente dela. E o diretor desenvolve a sucessão dos seus delírios de tal modo, que perdemos o fôlego.

A cena em que suas pernas "se quebram", na véspera da estreia de O Lago dos Cisnes, é marcante. Nina, literalmente, se tornava uma ave de olhos vermelhos e de penas negras. Chegava à perfeição da sua arte. Eis a brilhante análise do meu marido, Farney, para sua transmutação: "Como ela era perfeccionista, não sabia fingir. Ela tinha que sentir as emoções na própria carne. Para ser o Cisne Negro, teve que matar. E, para ser o Branco, morrer".

Natalie Portman - que é norte-americana, mas (li em algum lugar) nasceu em Israel - me emocionou. Convenceu que "domina" a arte dificílima e extenuante do Balé Clássico e, sobretudo, representou com primor o tormento da sua personagem. Soberbo é o elogio a que seu desempenho faz jus. Grande atriz, que merece o Oscar deste ano. (Vou torcer muito por ela na noite de 27 de fevereiro!*)

Imagem: Reprodução-Internet

E as lições que tirei da trama Cisne Negro?

Afinal, este é o Blog d'A Católica e uma reflexão não apenas cabe, como é bem-vinda! Bem, a primeira foi que "a perfeição não cai do céu". O artista que quer emocionar o seu público tem que se emocionar primeiro e, para chegar a isso, precisa ralar. E muito. Suor e lágrimas são ingredientes obrigatórios em toda obra que quer ser chamada de "Prima": Obra-Prima.

A segunda é que é possível encontrar dentro de nós o que ansiamos. A força, a sedução e a maldade já estavam em Nina. Ela não foi à loja da esquina trocar alguns dólares por elas. Só que a personagem sofria de um distúrbio psicológico (arrisco a dizer que seria esquizofrenia). E, sob a pressão do coreógrafo, a manipulação da mãe e o stress da estreia do espetáculo, foi perdendo o contato com a realidade.

As cenas nas quais Nina se esforça, treina, quebra a unha do dedão do pé, torce o tornozelo, se estica, gira, concentra, repete, e de novo, e de novo, e de novo, são maravilhosas. Revelam o que é o ser humano motivado de corpo e alma em um trabalho. Ela chorou? Sim. Porém, não desistiu. E foi lindo assistir a sua entrega à meta de se tornar o que queriam dela. O que ela tinha que ser: um estonteante Cisne Negro.

Foi incrível presenciar, da minha poltrona, a sua luta consigo mesma para recobrar a lucidez, não se deixar vencer pela loucura e ir até o fim da apresentação. Uma batalha que o genial e perturbado pintor holandês Van Gogh também travou (como você pode conferir no finalzinho de Um Post para encher seus olhos de... Amarelo!).

Se cada um de nós se empenhasse pela santidade como a personagem de Natalie Portman se dedicou, a fim de atuar bem como um Cisne Negro... UAU.

O problema é que, ao contrário da diligente Nina, muitas vezes nós somos "moles". Lemos uma frase da Bíblia e em seguida a fechamos; faltamos à Santa Missa; nos damos a conversas vazias e discussões vãs... Como dizia Padre Léo, vamos nos tornando "um bando de gente fraca". A bailarina do filme tinha um foco, um alvo, e se esmerou tanto... Que exemplo de cidadã, ela foi para mim! Saúde e Paz!!

Fotografia de Jozef Kotulič Slovakia


*And the Oscar has gone to... Natalie Portman, que faturou o prêmio máximo da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas na noite de 27 de fevereiro: Best Actress in a Leading Role.


Fotografia do cisne branco no início do Post, por Linda Allardice (Click The Image)


~Ana Paula~A Católica
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4 comentários:

  1. Arrasou!!! Arrasou!!! Vc é insuprerável em comentar como o fez nesse post. Estou agora curiosíssima para ver a fita. grande abraço!

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  2. Querida,
    Ainda não assiti ao filme, o que só deve acontecer após eu lançamento em bluray. Mesmo assim, achei suas observações pertinentes e em sintonia com o que já ouvi falar desta obra. Uma defesa apaixonada e acalorado como sempre. Tão logo assista, terei prazer em expressar minha humilde opinão.
    Grande beijo.

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  3. Ana,
    Você não acha que este filme também tem partes bastante anti-cristãs para que você dê a ele esta importância no seu blog? É um filme que não indicaria para os católicos pois tem cenas que deveriam ser evitadas de nossos olhos. Fica aqui meu comentário, desculpe a franqueza. Abraços.
    Monique.

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  4. Moniki,
    Saudações de Belo Horizonte!!

    Obrigada por ser uma internauta do Blog A CATÓLICA. Foi uma honra receber o seu comentário. A propósito, ele me fez recordar a seguinte passagem da Bíblia: At 10, 9-23.

    AMO cinema e sempre que uma sinopse ou os artistas escalados me atraem, não deixo de conferir as produções de Hollywood, europeias e nacionais (do Brasil).

    Como você pôde ler neste Post d'A CATÓLICA, "Cisne Negro" me impressionou profundamente.

    Apesar de alguns excessos - e creio que é a eles que você se referiu quando usou o adjetivo "anticristão" -, não pude deixar de notar, reconhecer, valorizar e apontar as inúmeras qualidades desse belíssimo filme.

    Sabe, Moniki - e eu também estou sendo tão franca quanto você -, não quero viver um catolicismo que me isole do mundo e do que as pessoas produzem. Um catolicismo que sai por aí apontando "Isso é santo"; "Já isso não é".

    O que quero lhe dizer é: tento manter olhos e coração abertos, a fim de apreender a beleza onde ela existe e extrair lições de vida de onde menos se espera. Incluindo de um filme como "Cisne Negro". Saúde e Paz!!


    ~~~

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