15 de fevereiro de 2011

Mubarak, Ronaldo Fenômeno e outras despedidas

Mubarak, no Egito, e Ronaldo Fenômeno, aqui no Brasil, saem de cena
no poder e no campo e dão espaço para a vida seguir. Do jeito que tem que ser

(Na foto, garotinha se despede do pai, oficial da Marinha dos EUA)

Pelo menos duas Grandes Despedidas ocorreram em menos de uma semana neste mês de fevereiro. Bote Grandes nisso: o ditador Hosni Mubarak, de 82 anos de idade, renunciou à Presidência do Egito (África) na sexta-feira, dia 11. Ele ocupou o posto por 30 anos. Já o talentosíssimo Ronaldo Fenômeno, de 34, deixou os gramados nesta segunda, dia 14, depois de 18 anos jogando futebol profissionalmente.

Dá o que pensar a "decisão" de ambos. A palavra está entre aspas, porque os dois (mais Mubarak do que Ronaldo) foram forçados a tomá-la.

Conforme a imprensa, desde 25 de janeiro, por mais de duas semanas, centenas de milhares de egípcios lotaram as ruas de cidades como Cairo, Alexandria e Suez reivindicando o afastamento do ditador. "Não sairemos até que Mubarak renuncie", uma universitária teria dito. "Saia! Por que você continua?", idosas gritaram, "Trinta anos é o suficiente". Sites de notícia sintetizaram a trajetória do político no governo do país africano:

Mapa do Egito - Domínio Público

Em 1975, o presidente Muhammad Anwar el-Sadat nomeou Mubarak como seu vice-presidente, que seis anos mais tarde assumiu o comando do país, após o assassinato de Sadat. O posto de presidente foi renovado por quatro vezes nestes 30 anos: em 1987, 1993, 1995 e 1999. (Estadão.com)

[Ele] se beneficiou de artigos da Constituição egípcia que ditam mandatos presidenciais de seis anos com um número de reeleições indefinidas. Além disso, alterações à lei fizeram com que a vitória de candidatos de outro partido que não o seu fosse praticamente impossível.

Sob denúncias de corrupção e em meio a diversas acusações de abusos de autoridade e prisões tornadas possíveis devido ao estado de emergência, em vigor há 30 anos no país, a imagem de Mubarak deteriorou-se ao longo dos anos. (Folha.com)

Até esta segunda-feira, a informação era de que o ex-presidente permanecia no Egito, no litoral do país.

Quanto a Ronaldo Fenômeno (como era carinhosamente chamado), Daniel Piza, do site do Estadão, resumiu assim a sua carreira:

Fotografia de Antônio Cruz - Agência Brasil/ABr

Dezoito anos depois de sua estreia pelo Cruzeiro, mais de 400 gols em sete clubes e na seleção brasileira, incluindo quinze gols em Copas, e três vezes melhor jogador do mundo (1996, 1997 e 2002), o atacante do Corinthians cedeu ao cansaço.

"Não aguento mais", disse ele neste domingo à tarde ao Estado. "Eu queria continuar, mas não consigo. Penso uma jogada, mas não executo como quero. Tá na hora. Mas foi lindo pra caramba."

E como foi.

No que diz respeito a Ronaldo, o que mais me marcou nos seus volteios pelos estádios mundo afora foi a séria lesão que sofreu no joelho direito, quando jogava na Inter de Milão, na Itália, cerca de 11 anos atrás. Um vidente (de meia-tigela, como dizemos aqui no Brasil) teria dito a uma famosa apresentadora de TV no meu país que ele "jamais seria o mesmo". Jamais? Nas palavras de Pedro Fonseca, da agência Reuters:

Meses antes da Copa de 2002 a participação de Ronaldo ainda era dúvida em decorrência da segunda operação no joelho, que o deixou afastado dos gramados por 15 meses. Mas o jogador apresentou uma recuperação acima da média e liderou o Brasil na vitória sobre a Alemanha na final por 2 x 0. Dois gols de Ronaldo.

"A minha grande vitória era voltar aos campos, voltar a jogar futebol, marcar gols. A conquista do penta [o Brasil é pentacampeão mundial de futebol] veio coroar minha luta durante o período de recuperação", disse, emocionado após aquela final.

Ronaldo Fenômeno com o então presidente do Brasil, Lula, em 2009

(Fotografia de Ricardo Stuckert/PR - Agência Brasil/ABr)

Nesta segunda, o atleta reuniu a imprensa para comunicar, entre muitas lágrimas, o fim da sua carreira Fenomenal nos campos de futebol. Segundo o portal G1: "Ao explicar os motivos por ter antecipado o seu adeus, Ronaldo justificou usando dois fatores: o hipotireoidismo e as constantes dores". Contudo, as palavras do próprio jogador - "Eu queria continuar, mas não consigo. Penso uma jogada, mas não executo como quero. Tá na hora" - encerram A Razão: seu corpo sucumbiu ao passar do tempo.

E aqui o egípcio Mubarak e o desportista brasileiro se encontram: ambos foram forçados a dizer "adeus".

Isso dá uma boa reflexão para cada um de nós. Os dois, tão diferentes entre si e de profissões diversas, seguiram no seu caminho além de seu limite. Até que circunstâncias externas - no caso do político, a vontade soberana da nação, o clamor popular; no caso do brasileiro, a extenuação física - obrigaram-nos a finalmente ceder, entregar os pontos, reconhecer que dali em diante...
... Não dava mais.

Como é difícil abraçar isto: a hora de desistir, de curvar-se.

Penso que mesmo que não estejamos há 30 anos no poder nem há quase 20 jogando futebol, você e eu também temos (e teremos) um "adeus" (ou vários) a dizer durante a nossa vida. Nossa diferença para Mubarak e Ronaldo é que, provavelmente, a imprensa não dará capa de jornal para as nossas renúncias. No máximo, alguns conhecidos saberão. No mínimo, serão assumidas na intimidade, dentro de nós.

A arte de perder - nome de um belíssimo poema de Elizabeth Bishop, que já transcrevi aqui n'A Católica - é algo que forçosamente "dominamos" ao longo da nossa existência. Alguns podem partir daqui com um coração de pedra, sem ter aprendido a Amar. Da humildade, penso que ninguém escapa. Mais dia ou menos dia, espontaneamente ou compulsoriamente, chegamos todos ao momento de reconhecer as nossas limitações.

Nesse instante, demonstramos submissão. Ao povo, ao tempo, ao corpo.

Nesse ponto, vislumbramos uma realidade à qual estamos desacostumados. Ela vai nos constranger a nos portar de um jeito diferente: menos arrogante ou menos lúdico talvez. Certamente, novo. Gosto de pensar que isso corresponde a um nascimento. Não são apenas as vítimas de desastres resgatadas por voluntários ou bombeiros que "nascem de novo". Quem renuncia, perde e se submete também renasce: tem que encarar um outro cenário.

Em meados deste mês de fevereiro, você e eu assistimos ao ponto em que Mubarak e Ronaldo Fenômeno tornaram-se, para sempre, novas pessoas. Vida Longa a Eles e ao Povo Egípcio! E a você, Saúde e Paz!!

Bandeira do Egito - Domínio Público


Fotografia no início do Post, por Journalist 3rd Class Ryan C. McGinley (U.S. Navy)


~Ana Paula~A Católica
Importante:

Todos os Poemas escritos e publicados no Blog acatolica.com
são sistematicamente registrados
junto ao Escritório de Direitos Autorais (EDA)
da Fundação Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro (BRASIL).

Um comentário:

  1. Ana Paula, a frase que vc disse é primordial para entendermos o ciclo da vida: "... saem de cena e dão espaço para a vida seguir." Não seria VIDA se não houvesse o cíclico para eternizá-la. Isso mesmo, ela é eternizada sim, através de suas memórias que passam de geração em geração. Este contexto faz-me passear até as páginas do livro de Eclesiastes: "Ó suprema fugacidade! Tudo é fugaz! Geração vai, geração vem, e a terra permanece a mesma! Meu abraço de carinho!

    ResponderExcluir

Seu comentário é muito bem-vindo! Obrigada por participar.