14 de dezembro de 2010

Você sabe REZAR? (Um Post sobre as certezas que a Vida derruba)

Nossas preces arrogantes são direções que damos a Deus (!!)
de como Ele deve fazer para nos satisfazer.
Esquecemos que o que hoje nos é importantíssimo, amanhã pode NÃO ser mais

Há várias frases para se definir a vida.

John Lennon disse (ou melhor, cantou) uma ótima: "Vida é o que acontece enquanto você está ocupado fazendo outros planos". Mamãe Gali, até bem pouco tempo atrás, adorava repetir (como um refrão chato): "A melhor fase da vida é esta...", referindo-se às meninas dos 13 aos 15 anos. O inesquecível Gonzaguinha compôs uma música inteira para explicá-la: O que é, o que é?.

Este Post não é uma tentativa de formular e lhe oferecer o meu próprio conceito de vida.

Mesmo porque seria decepcionante para você. Acho a vida divertida. Simples assim. Fico sentada em cima do muro (no melhor sentido dessa acepção), balangando as minhas pernas, chupando uma fruta e morrendo de rir de todo mundo e de mim mesma. A vida é de matar de rir. É só limpar os óculos, enxugar os olhos, aguçar os ouvidos, tomar água e limpar o paladar: tudo e todos são risíveis. Morro de rir de nós todos.

Não. Não é de deboche. É de compaixão. Por mim, por você, pelo mundo inteiro. É que passamos toda a vida pulando de certeza em certeza para no final chegarmos à conclusão de que nada era como supúnhamos tão ardentemente ser. Mudei tanto, que a menina de 12 anos não reconheceria esta que lhe escreve, aos 34.

Eu detestava quiabo, hoje não só amo, como o quiabo que faço é elogiado e copiado! Detestava azeite, hoje, o óleo não pode faltar na minha casa. E blasfêmia das blasfêmias: já cheguei a duvidar de Deus, entre os 22 e os 25 anos de idade. Escrevi até uma crônica (que se perdeu) intitulada Anátema. Hoje, não só pareço uma carola (que se confessa, no mínimo, 4 vezes por ano), como criei um Blog religioso, cujo nome é A Católica. A jovem de 20 anos não acreditaria no que ela mesma se tornou no virar do século!

Aí, retrocedo várias décadas e me recordo das minhas primeiras paixões, ainda na pré-adolescência, aos 12 e 13 anos de idade.

Eu urrava, chorava e dizia a Deus: "Se ele não me namorar, vou morrer"; "Ele é o único menino que quero, vou amá-lo para sempre"; "Não quero me casar com ninguém, Jesus, só com ele"; "Se ele não me beijar, não vou suportar". Fui crescendo em estatura, sabedoria e graça (brincadeirinha: não cresci mesmo em nenhuma dessas três áreas!), bem, fui envelhecendo e percebendo que, mais à frente, eu conhecia um outro menino mais legal e mais bonito e aquele, por quem eu morreria, não daria um "marido" tão bom assim!...

E quando foi chegando a minha vez de consolar minha melhor amiga, mais novinha do que eu, minha prima Viviana Paula (hoje, uma enfermeira recém-casada que vive na África do Sul), bem, fui consolando-a em suas paixonites, dizendo: "Querida: daqui a meses você conhecerá outro rapaz e achará que ele, e não este por quem você está chorando, é o amor da sua vida! Dê tempo ao tempo...". E assim como eu, minha melhor amiga foi pulando de amor platônico em amor platônico até chegar ao indiano Shailen.

E aqui chegamos ao vértice deste Post d'A Católica.

O que me surpreende na vida foi notar que, crescidos, não mudamos esse tipo de comportamento (infantil) e também ofertamos a Deus as nossas convicções e queixumes: "Nossa Senhora, interceda por mim, porque quero comprar aquele apartamento naquele bairro, porque vai atrapalhar toda a minha vida se eu não morar lá..."; "Senhor, eu preciso passar neste vestibular, para estudar nesta faculdade, senão não vou dar conta de pagar aquela outra nem conseguir uma vaga melhor de trainee [estagiário]...".

Muitíssimos de nós, mesmo adultos, rezamos a Deus com a mesma pretensão e desconhecimento de causa tal e qual as minhas orações aos 12 anos de idade, pedindo para aquele menino "me amar" e "ser o meu marido", caso contrário eu não queria viver. Nós oramos ordenando a Deus o que Ele deve fazer (!!) para nos deixar felizes. Nossas preces são arrogância pura.

Quer mais exemplos?

Que mulher grávida tem a coragem de rezar a Deus pedindo para o bebê vir do jeito que Ele quiser, em vez de rogar desesperada para que ele tenha saúde? Gostaria muito de conhecer ao menos uma. Que mãe tem a ousadia de rezar a Deus pedindo para que o filho consiga o emprego SE ele merecer e for o melhor para ele, em vez de rezar uma novena com o fervor que ela tiver, a fim de que o jovem "se dê bem" na entrevista?

Fotografia de Petr Kratochvil

Em vez de confiar na Divina Providência, nós vamos dando a Nosso Senhor o mapa, a bússula, as setas, as coordenadas e as dicas todas para que Ele atenda os nossos pedidos, ou melhor, para que Ele "cumpra as nossas exigências" do jeitinho que desastradamente estamos Lhe propondo. Tintim por tintim. Contudo, Deus (algumas ou muitas vezes) NÃO nos atende. E por quê? Porque não merecemos? Porque ele está nos castigando? Porque perdemos a missa do domingo? Porque não acendemos tantas velas quanto deveríamos ter acendido? Porque deixamos o Rosário para lá? Fon Fon.

Deus muitas vezes faz ouvidos moucos a nossas orações, porque NÃO SABEMOS PEDIR. Esquecemos um detalhe que a vida me ensinou e sobre o qual vim falando nas primeiras linhas deste Post: NÓS MUDAMOS.

O que hoje é importantíssimo para nós, amanhã pode não ser mais. E Deus, que é o senhor do tempo e do espaço, ouve as nossas preces e só atende àquelas que beneficiarão a nossa vida como um todo, e não apenas a urgência da saúde, do apartamento, da faculdade e do emprego que temos naquele momento. (Desse modo, rendo graças a Ele, porque Ele não me deu aquele rapazinho, por quem eu tanto chorava aos 12 anos de idade, como meu "marido"! E rendo graças, também, por tantas outras súplicas que não foram ouvidas! Aleluia.)

Despeço de você com a oração a seguir. Que ela nos ajude a rezar com mais carinho e menos arrogância; com mais fé e menos medo; com mais humildade e menos pretensão. Nem mesmo nós sabemos o que pode nos fazer feliz. Só Ele. E que seja sempre feita a Sua vontade que, de longe, é bem melhor e mais sábia do que a nossa. Saúde e Paz!!

Senhor da Vitória
(Orações de todos os tempos da Igreja, Cléofas)

Quando tudo desmorana em nossos projetos humanos,
em nossos apoios terrestres;
quando de nossos mais belos sonhos, resta apenas a desilusão;
quando nossos melhores esforços e nossa mais firme vontade
não alcançam o objetivo proposto;
quando a sinceridade e o ardor do amor nada conseguem
e o fracasso está aí, desolador e cruel,
frustrando nossas mais belas esperanças,

Tu permaneces, Senhor, indestrutível e forte,
nosso amigo que pode tudo.

Teus desígnios permanecem intactos,
nada pode impedir que Tua vontade se cumpra.
Teus sonhos são mais belos que os nossos e Tu os realizas.

Convertes os fracassos em um triunfo maior, nunca és vencido.

Tu, que do puro fazes surgir o ser e a vida,
tomas nossa impotência em Tuas mãos criadoras, com infinito amor,
e a fazes produzir um fruto, obra Tua,
melhor que todos os nossos desejos.

Em Ti, nossas esperanças se salvam do desastre
e se cumpre a plenitude. Amém.


Fotografia da placa One Way de Andrea Schafthuizen


~Ana Paula~A Católica
Importante:

Todos os Poemas escritos e publicados no Blog acatolica.com
são sistematicamente registrados
junto ao Escritório de Direitos Autorais (EDA)
da Fundação Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro (BRASIL).

Um comentário:

  1. Eu entendo que tudo o que vc disse se chama "ser radical em alguns aspectos".Também descobri que a radicalidade é uma marca profunda, a sinalizar que iremos mudar num futuro próximo. Nossa mente tem que estar abertíssima para tudo. Estando aberta, inicia-se o processo reflexivo sobre a coisa em si e tudo mais que nos apresenta. Já radicalizei e hoje sou adepta. No velho ditado popular "Quem dedenha quer comprar". A Católica, vc está de parabéns pelo post. Eu curti muito. Abração!

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