5 de novembro de 2010

Uma praga chamada "apelido"

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Crianças adoram apontar as fraquezas umas das outras.
Mas os apelidos mais dolorosos vêm não da escola, e sim de dentro de casa

Não gosto de apelidos. Aliás "não gosto" é eufemismo. Na verdade, eu detesto. Mas "detestar" é feio, forte. Então, tá: fica "não gosto" mesmo. Apelidos raramente são carinhosos: Lari; Barburinha; Aninha; Moninha; Dedeia... Na grande maioria das vezes, infelizmente, são depreciativos: Quatro Olhos; Baleia; Sapão; Negão; Branquelo; Baixinha; Tampinha; Bola; Ferrugem e por aí vai.

Os apelidos depreciativos podem até revelar uma verdade da qual é difícil escapar. Por exemplo: Quatro Olhos. Se você usa óculos, de fato, precisa "dos olhos" das lentes para enxergar, logo: seus 2 olhos + os 2 "olhos" das lentes dos óculos = 4 olhos. Ou, se você está beeem acima do peso, pode realmente "lembrar" uma baleia - o mamífero marinho. Daí a analogia e, consequentemente, o apelido.

O problema é que o apelido depreciativo reserva uma função cruel (ou melhor, sejamos explícitos: sádica). Qual seja, a de limitar o outro a aquilo que mais se destaca, para mim ou para aquele que apelida, na sua aparência. Você pode até ser a mais esperta da sua turma na escola, mas, do que adianta, se estão todos prestes a lembrar-lhe, quando você menos espera, de que... Não passa de uma Quatro Olhos?

Ah, ele é ótimo com as cartas, com o skate e espertíssimo no vídeo game. Mas... É gordo. É o Bola. Ou ela é divertidíssima, uma ótima conselheira sentimental e excelente companhia nos passeios pela cidade. Mas... É gordinha. É a Baleia. "E aí, Baleia?" Como não têm como escapar, as vítimas dos apelidos fingem que não ligam, fingem que já estão acostumados, fingem que até gostam. Mentira. Ninguém, a não ser comediantes que são (muito bem) pagos para isto, gosta de ser motivo de riso e desdém dos outros.

E sabe o que é mais incrível nessa história de apelidos depreciativos? É que os campeões de apelidar alguém não são as meninas e meninos travessos nas salas-de-aula ou nos pátios, na hora do recreio nas escolas. E sim, a família. Os próprios pais, irmãos e primos. Senão também: tios, avós e até padrinhos.

Uma professora marcante e maravilhosa que tive contou-nos uma história da qual jamais me esqueci.

Segundo ela, sua mãe vivia xingando o seu irmão de "burro". "Ô, burro, faça isso." "Ô, burro, faça aquilo." A tal professora (cujo nome preservarei), bem, ela nos revelou que de tanto a sua mãe chamar o seu irmão assim, não é que ele ficou "burro"? Acabou não acreditando no próprio potencial: aceitou ser limitado pela própria mãe. E Freud que o diga: como é difícil desvencilhar-se das expectativas dos pais, não é mesmo? Não era "burro"? Pois então: "burro" ficou.

Conheci uma família na qual a filha mais velha, de uns 8 ou 9 anos de idade, se referia à irmã caçula como "bicho". "Ela é 'bicho', né, mãe?", buscava a confirmação da mesma, quando lhe perguntei por que chamava aquela menina linda, de cabelos loiros e olhos azuis, com um apelido tão descabido. A tal primogênita me explicou: "É que ela não conversa, tem vergonha e fica olhando para o chão...". Deus me livre e guarde!! Pais permitirem que uma irmã trate a outra pelo apelido de "bicho"?... Só porque a loirinha (linda) é tímida?

Apelidos deixam marcas e criam destinos - como a mãe da minha antiga professora acabou delineando a trajetória do próprio filho ao enquadrá-lo como "burro". Há outros exemplos. Mas esses dois, com certeza, foram os que mais se sobressaíram. Agora, pare. Respire. E pense consigo mesma(o): "Será que não estou passando dos meus limites, desrespeitando a individualidade do meu filho, delimitando-o com algum apelido depreciativo?"

"Minha filha não é feminina, não dedica um cuidado especial ao próprio aspecto, não gosta de batom nem de pintar as unhas; será que ajudá-la a ficar bonita do jeito que ela é e gosta de se vestir não é mais saudável e cristão do que apelidá-la de Maria Sapatão ou Machona?" "Será que só porque meu filho não é tão agressivo nem dado a vulgaridades no palavreado ou no seu comportamento, será que isso justifica, nas nossas discussões, eu lhe chamar de Veado?"

Só escrevi este Post de hoje, porque apesar de ter sido taxada de Magrela; Grilo Falante; Baixinha; Baratinha; Quatro Olhos; etc., tive a benção de contar com uma mãe maravilhosa e com um ego que me permitiram ir além da armadura dos apelidos.

Machuquei-me nesse processo, mas estou sobrevivendo. Nem a minha aparência, nem a minha estatura, nem as minhas parcas dimensões adiposas me inibiram a ponto de não bater à porta de grandes empresas de comunicação em Minas - estado brasileiro onde nasci e vivo - à busca de um emprego nem de não conquistar um marido lindo (por dentro e por fora).

Será que sua filha ou seu filho, que você (mãe ou pai) esteja delimitando com um apelido depreciativo, têm uma personalidade forte como a minha? Cuidado. Porque, se ele não a tiver, precisará mais do que nunca do seu apoio e do seu amor. Não do sadismo de suas críticas. Só o amor constroi. O resto estraga, destroi, deixa marcas terríveis, que às vezes nem o tempo apaga... Saúde e Paz.


Fotografia do menino da Tailândia, Sudeste da Ásia, atribuída a Mattes

~Ana Paula~A Católica
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Um comentário:

  1. Ana Paula, também concordo com voce sobre apelidos. Ninguém gosta de tê-los, embora alguns sejam graciosos e até carinhosos. Mas hoje em dia, normalmente os apelidos não são tão "graciosos ou carinhosos" assim. Os italianos por uma questão de linguagem, gostavam de apelidar carinhosamente, como tenho em minha familia: Catarina (Catita), José (de Giuseppe, por Pepe), Antonio (Tunin - do diminutivo Antoninho)... e por aí vai.
    Parabéns pela sua postagem.

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