6 de novembro de 2010

BEBA CORA CORALINA!

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As pedras que a poeta colheu para construir seus poemas e sua trajetória
me fizeram querer conhecê-la e apreciar a sua obra mais e mais e mais...

Meu marido me presenteou, nessa quinta-feira, com um livro há muito, muito acalentado: Cora Coralina - Coleção Melhores Poemas (global Editora, 2008). Sou rata de livrarias - meus lugares favoritos em todo o mundo. Se tiver uma cafeteria dentro então... - e sempre acorria à seção POESIAS para pegar algum livro dessa poeta a fim de ler e aprender a apreciá-la.

Tenho a mania de fazer que nem oriental: começo revistas e livros pelo final - um comportamento, talvez, resultante da minha imensa ansiedade. Pois então: em vez de cair mergulhando na obra, nos "Melhores Poemas", decidi saber primeiro: Quem é Cora Coralina?

Seu próprio nome já me atraía, um poema em si: Cora Coralina. Mas, lendo "Traços Biográficos", que começam na página 337, descobri que é minha (quase) xará! Seu nome: Anna Lins dos Guimarães Peixoto Brêtas, nascida na cidade de Goiás, em 1889 - sim: o ano da Proclamação da República do Brasil.

Participei uma vez, em junho de 1999, de uma oficina sobre a obra de Cecília Meireles (1901-1964), promovida pela Prefeitura de Belo Horizonte e que ocorreu na Biblioteca Pública Infantil e Juvenil, na Rua Carangola. A professora (xi... Esqueci seu nome!) afirmou que é uma tremenda bobagem achar que é preciso saber da vida de um escritor para só então analisar ou interpretar a sua obra.

Fiquei pasma! É que fiz dois anos do curso de Letras e lá aprendi que a obra reflete a vida do autor ou a vida do autor se reflete na obra!... É óbvio que uma e outra coisa se interpenetram.

Bem, preferi ignorar a opinião daquela professora para todo o sempre e comecei o Cora Coralina - Melhores Poemas por detrás, onde estão "Traços Biográficos". Sua mãe, que sempre lhe fora indiferente e vivia fechada em seu mundinho de muitas leituras, era 43 anos mais nova do que seu pai, um desembargador que morreu quando ela tinha apenas 2 meses de vida. Para ele, escreveu o poema Meu Pai:

Meu pai se foi com sua toga de juiz.
Nem sei quem lha vestiu.
Eu era tão pequena,
mal nascida.
Ninguém me predizia - vida.

Nada lhe dei nas mãos.
Nem um beijo,
uma oração, um triste ai.
Eu era tão pequena!...
E fiquei sempre pequenina na grande
falta que me fez meu pai.


(Ai, que lindo!... LINDO.)

Conforme a poeta (ou poetisa, como preferir) Darcy França Denófrio, que selecionou os poemas do livro, Cora Coralina fez apenas a escola primária e toda a vida foi autodidata: "ávida leitora de jornais", mais tarde, "pôde ler também o acervo do marido, que tinha o hábito de frequentar bons livros: clássicos franceses, russos e portugueses". Aliás, sua história com o marido merece um aparte.

Advogado de São Paulo, Cantídio Tolentino de Figueiredo Brêtas estava na cidade de Goiás para servir como Chefe de Polícia. Apaixonaram-se. Como ele vinha de um primeiro casamento, a mãe de Cora Coralina opôs-se ao namoro. E o que fizeram os pombinhos? Fugiram. Ela, já grávida, galopou durante 14 dias em cima de um cavalo até Araguari, onde pegou um trem rumo à capital paulista. Tiveram seis filhos e Cora ainda criou uma menina que o marido teve com uma índia, antes de fugirem.

Cantídio morreu em 1934 e só depois de 45 anos a poeta, finalmente, retornou (sem os filhos) ao Estado de Goiás. Publicou seu primeiro livro aos 76 anos de idade e assistiu, já na casa dos 90, a sua consagração. De acordo com as palavras de Darcy França Denófrio, que exemplificam o seu prestígio:

Na Universidade de Brasília, há um recente movimento [nos idos de 2004] de valorização e divulgação de sua obra, observando-se em camisetas de estudantes, em recurso gráfico semelhante à inconfundível logotipia da Coca Cola, uma espécie de trocadilho: Leia Cora Coralina.

Anna Lins dos Guimarães Peixoto Brêtas, ou Aninha, ou Cora Coralina partiu em 1985 e, como queria, seus restos mortais foram colocados ao lado do pai em um cemitério na cidade de Goiás. Deixou pérolas nas entrevistas que dava, como esta, que destaquei dos "Traços Biográficos":

O casamento é uma garantia para os filhos e para a família, o alicerce aceito pela sociedade no passado e no presente. Por que a fuga dele? [...] Me perguntam: o que a senhora acha do casamento? E eu digo: a melhor coisa da vida. [...] Acredito que a grande felicidade da mulher ainda é realizada através do casamento e da maternidade. E isto vai para o futuro.

A poeta afirmava que tinha paz e "uma grande tranquilidade dentro de si", a qual atribuía a um dom do Espírito Santo e que queria repartir com todos que a conhecessem: "E lhe digo que o sentimento mais profundo, religiosamente falando em mim, ainda é o Divino Espírito Santo".

O primeiro poema que li de Cora, diante de uma estante em uma livraria no Shopping Cidade, ainda me é o mais impactante: Das Pedras. Metáfora perfeita da minha, da sua, da vida de todos nós. Quem me dera, quem dera à Aninha de cá, de Minas, ter a habilidade que a Aninha de lá, de Goiás, teve de fazer com a própria trajetória o que diz haver feito nos versos deste poema:

Ajuntei todas as pedras
que vieram sobre mim.
Levantei uma escada muito alta
e no alto subi.
Teci um tapete floreado
e no sonho me perdi.

Uma estrada,
um leito,
uma casa,
um companheiro.
Tudo de pedra.

Entre pedras
cresceu a minha poesia.
Minha vida...
Quebrando pedras
e plantando flores.

Entre pedras que me esmagavam
levantei a pedra rude
dos meus versos.


Nas próximas semanas, pretendo beber bastante Cora Coralina. Beba nessa fonte você também! Fico por aqui. Ótimo final de semana! Saúde e Paz!!

P.S. Visite a Casa de Cora Coralina!


Ilustração de Frits Ahlefeldt

~Ana Paula~A Católica
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