25 de setembro de 2010

Moralidade x Misericórdia

Houve um tempo em que filhos fora do casamento eram chamados de “ilegítimos”.
E não eram só eles que sofriam com o preconceito: seus descendentes, também.
No quadro, um patriarca expulsa a filha e o filho "ilegítimo" dela para fora de casa

NOTA: Escrevi esta crônica em 7 de outubro de 1999, baseando-me na história verídica que a mãe de uma colega de Faculdade me contou. Todos os nomes foram alterados em respeito à privacidade dos envolvidos.


Minha avó não foi filha legítima. João Q. de A., dono da fazenda ao lado, fez amor com minha bisavó, que naquela altura era viúva, e então nasceu minha avó. As filhas mais velhas da bisa eram morenas, moreninhas, praticamente negras. Minha avó era loirinha. Todo mundo a chamava de "milho". João Q. de A. ficou sabendo da gravidez e do parto. Mas não quis reconhecer: "Vai dar problema com a herança", e de si, deixou que a pequena levasse o primeiro nome. Joana.

Joana se casou e entre os filhos que deu à luz, estava minha mãe. Luzia. Nós todos éramos conhecidos como os filhos de Luzia: "Lá vem os filhos de Luzia". Éramos nós. Os netinhos do "milho". Desde cedo fomos estigmatizados. As freiras de Santana dos Ferros, onde nascemos, recebiam a mala (pacotes e suprimentos vindos do Rio e de São Paulo) cheia de roupas e brinquedos. Minhas primas e primos eram os primeiros da fila: "Vocês aí, filhos de Luzia, para trás. Fiquem lá atrás na fila".

Eu via minhas primas receberem aquelas lindas blusas de lã, fofas, bordadas com flores. Havia panelinhas e chaleirinhas que eram o meu sonho. Mas, quando chegava a nossa vez de receber algum presente da mala, o melhor já havia sido levado. E ficávamos com o restolho. Retalhos e era só. A cada mala, a história era a mesma. Retalhos. E só.

Os filhos de Luzia. A tia Edna, uma das irmãs mais velhas da minha avó, foi das primeiras a adquirir televisão. Ficávamos loucos! Os filhos de Luzia não se assentavam na poltrona. Mas no chão. Cruzávamos ainda no ar as perninhas e puf! nos assentávamos no chão.

Chegava visita, ficava em pé na frente da TV, ouviam as nossas vozinhas de criança vindas lá de trás: "Dá licença, dá licença. Cê tá na frente! Queremos ver o Rin Tin Tin!". E nós ouvíamos o retorno: "Ih... Essas vozinhas! Aposto que são os filhos de Luzia...". E éramos nós mesmo. Lá atrás, no chão. Tentando ver o Rin Tin Tin (seriado de TV, cuja estrela era um cachorro Pastor Alemão).

Na hora do café, os filhos de Luzia recebiam as xícaras velhas, com as asas quebradas. E de novo, comiam no chão. Se pegávamos um ônibus e por coincidência um parente também, se nos via, fazia que não nos viu. Os filhos de Luzia. Tudo porque éramos netos de uma mulher que o pai não quis reconhecer. Joana, o "milho": a que não foi uma Q. de A.

Nos aniversários, os filhos de Luzia eram "delicadamente" advertidos para se afastarem: "Dá licença, que vocês vão estragar a foto com essas roupas de chita!". Num dos retratos, a cabecinha do meu irmão aparece no canto de uma porta, na altura da maçaneta. Uma das tias pediu que se escondesse, porque a roupa era mal ajambrada. E assim ele fez. Na fotografia, saiu só a cara.

Até hoje, quando a família se reúne, ainda escuto a censura: "Você se lembra, Eunice, quando tinha aniversário e você fazia questão de ficar na frente na hora do retrato, com a cara amuada e o seu vestido de chita?... Estragava a foto!". Fazia questão. Criança não faz questão de nada. Apenas de ser amada e feliz.

Muitos anos se passaram. Os filhos de Luzia cresceram. Na época do meu casamento, a tia Edna fez questão de mandar fazer o meu vestido completo (só faltava a grinalda), assim como de me emprestar o seu rosário de madrepérola. "Obrigada", mas eu não aceitei. Entrei na igreja com um vestido simples como eu era. Como eu sempre fui. E uma rosa vermelha na mão. Parecia que tia Edna tentava compensar todo o desprezo com que tratou a mim e a meus irmãos ao longo da vida.

Hoje, com quase cinquenta anos de idade, fico pensando no quanto toda aquela discriminação repercute em mim. Jovenzinha ainda, voltei à Santana dos Ferros (cidade mineira), tentando conhecer meus parentes, os Q. de A.; tentando ver uma foto que fosse do meu avô, pra poder dizer aos meus filhos: "Olhe, Fernanda, você tem o nariz de seu avô". Eu queria ter essa satisfação. Mas não quiseram nos receber. E Joana ficou Joana dos Anjos. Luzia, Luzia dos Anjos Pereira. E nós, netinhos do "milho", éramos os filhos de Luzia. Até hoje somos. Netinhos da avó ilegítima. Marcados pela ignorância da moralidade.


Imagem: The Outcast (1851), Richard Redgrave

~Ana Paula~A Católica
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Um comentário:

  1. Salve Maria!

    Interessante este texto... mas como estaria a esposa traída, a mulher do João??? E como sentiam-se os filhos do João??? Será que acolhendo com tanta misericórdia a filha Joana, o "Milho", não estariam também massacrando aqueles que por direito eram esposa e filhos deste João???
    Não sei... o que sei é que colhemos o que plantamos. E fruto de pecado é SEMPRE sofrimento.
    E estas crianças... onde estava esta Luzia para protegê-los???

    Fica aqui a máxima desta frase:
    Quem planta vento, colhe tempestade!

    Este texto é muito unilateral... pq crianças deveriam ter também na família legítima do João. E o que elas sentiam quando apontavam para o "Milho" e diziam... olha lá sua irmã ilegítima, do caso do seu pai, da traição a sua mãe???

    Eu vivi na pele isto.

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