30 de setembro de 2010

Minha revista de estimação: NOVA (Cosmopolitan), Julho-1988

Folhear uma revista antiga traz à tona quem éramos na data da publicação.
Esse mergulho no tempo não é melancólico: nos faz rir, nos revigora...

Guardo com todo o carinho, como uma concha esconde a sua pérola, uma revista NOVA velha. “NOVA” é como a mundialmente conhecida revista Cosmopolitan é chamada aqui no Brasil. E “velha”, porque é de 1988, ou seja, quando eu tinha 11 anos de idade.

Minha madrinha, Suzana, a assinava ou a comprava todo mês (não sei ao certo). Sei que, ao visitá-la, naquele edifício imenso, 11º andar, cujas janelas davam para a Via Expressa, eu corria até o seu quartinho de despensa a fim de catar a mais nova edição de NOVA ou Manchete ou Elle (outras duas revistas que ela adquiria).

Vez ou outra, eu folheio esta NOVA – de “Julho 1988 nº 178”. Que cheirinho gostoso ela tem!

(Aliás, quem me surpreender em uma livraria pode se assustar: eu cheiro livros! Adoro cheiro de livros novinhos. Para mim, a experiência com o livro não é só visual, é tátil e olfativa também. E a depender da qualidade do conteúdo, eu o comparo a um MANJAR! Hum...)

Nessa edição, a ex-atriz, ex-modelo, ex-esposa de milionário (ou bilionário) Luma de Oliveira estampa a capa com uma roupa dourada, colada ao corpo, e um enorme brinco do mesmo tom, que imita uma serpentina e desce da orelha esquerda até a metade do braço.

Na página três, no índice, destaquei com caneta azul (anos atrás, veja bem, quando eu era uma criança!): Página 50 Vou Fazer Essa Relação Dar Certo e Página 106 Paixão – Como Reacendê-la. Desde novinha, uma romântica!...

Quando arranjei meu 1º emprego, aos 17 anos, reservava sempre um trocadinho para garantir a NOVA do mês. Minha coleção ficou imensa e só a desmanchei três ou quatro anos atrás.

Costumava ler na seção “NOVA Lê Sua Carta” que o sonho das leitoras – ou ao menos de algumas delas - era se parecerem com as mulheres da capa da revista: lindas e poderosas!

Engraçado: nunca me impressionei com as capas.

Aquelas atrizes ou modelos extremamente bem penteadas, cuidadosamente maquiadas e sensualmente vestidas nunca me seduziram, quero dizer, nunca a ponto de querer, num dia, me parecer com elas. O que me atraía mesmo eram as letrinhas: o conteúdo...

... E os anúncios.

Ao contrário de 99,9% dos leitores que detestam a vasta publicidade nas revistas, eu adorava os anúncios de NOVA. Na edição de 1988, a que me referi, tem um da Marisa (loja de departamentos feminina) com a mesma Luma de Oliveira. Ele ocupa duas páginas.

Na da esquerda, a ex-atriz, ex-modelo, ex-esposa de mi(bi)lionário foi fotografada da cintura para cima. Vestida de “Short Doll” branco com detalhes pretos, ela tem gel no cabelo, para simular que acabou de sair do banho, e segura a ponta de um virol branco.

O que me atrai é o reflexo da luz do sol em seu corpo, do pescoço para baixo. Passa uma ideia de frescor, suavidade... Felicidade. Como eu gostaria de estar sob aquele virol, no lugar dela, pronta para um novo dia, cheia de expectativas e lindos sonhos para o futuro!

Falando em gel, há também o anúncio do Studio Line, da L’Oreal. Gel Wet Look. Em bom português: Gel Efeito Molhado. Deve ser o mesmo que usaram na Luma, para parecer que saiu do banho!... Creme para modelar. Spray para Fixar. Como usei Studio Lines na minha vida!

Vou folheando e (re)vendo as “novidades”.

Na página 17, o lançamento da trilha sonora do filme Feitiço da Lua, que rendeu o Oscar de melhor atriz de 1988 a Cher. Na 20, a então “nova editora de texto” assinava a coluna Em Defesa do Seu Cruzado. Garotas mais novas: Cruzado era a moeda corrente do Brasil, beeem antes do atual Real.

Na 21, que ironia! “Por que as CPIs [Comissões Parlamentares de Inquérito] nunca vencem a corrupção”. Tânia Nogueira explica do que se tratam:

Instituídas pela Constituição de 1946, com base no modelo americano, as CPIs são teoricamente um instrumento de controle do Legislativo sobre os outros poderes. Não têm poder de punir os culpados. Sua função é investigar as irregularidades e colher provas para que a Justiça se encarregue da punição. São um exército sem armas.

Já aprendi muito com NOVA.

Noutro dia, numa conversa entre mãe e filhas, Mamãe Gali veio dizer a mim e a minha irmã, Andréa Cristina, que é bom fazer xixi antes de uma relação. Sexual. Minha irmã e eu respondemos em uníssono: “Depois também, mamãe!”.

Eu prossegui: “Li numa NOVA que fazer xixi depois é bom, porque junto com o xixi vai embora um monte de bactérias...”. “Nossa...”, mamãe respondeu com aquela cara de que, apesar dos muitos anos de vida, acabava de aprender algo inédito.

E vou folheando a minha revista de 1988. Folheando e cheirando. Cheiro de passado, de uma infância cheia de metas, de planos, de delírios (como Vovô Raul intitulou um poema).

Há também um anúncio do filtro para café Melitta: “Parabéns Dona da Casa”.

Quem diria que eu, euzinha, me tornaria uma delas?? Aos 11 anos de idade, aos 17, aos 22, achava que nem me casar eu me casaria!... “Hoje, graças à Melitta, as donas de casa transformaram-se em donas da casa”. A publicidade e sua literatura...

A reportagem “Vou Fazer Essa Relação Dar Certo” está toda grifada de caneta fluorescente amarela. Vai ver que aí, ainda sem saber, eu já prenunciava o meu “destino” de dedicar-me à vida a dois. À vida de dona de (e da) casa.

“Se não há pessoa mais importante para você do que ele, por que não tratá-lo com o máximo de carinho?” – aconselhava o texto de Paula Martins.

Mas o meu xodó nesta (velha) edição de NOVA é “PAIXÃO – Como Reacendê-la”, de Connell Cowan e Melvyn Kinder: “Quem tem paixão quer viver a vida ao máximo, procura o que é novo, excitante, e se permite responder aos apelos da vida sem inibições, como fazem as crianças”.

Mais à frente: “Amar outra pessoa significa também ter ciúme, raiva, insegurança, e que esses sentimentos são naturais”.

Na página 109: “Indivíduos apaixonados são aqueles que ou não se deixaram dominar pelas repressões do mundo adulto, ou perceberam o que estava acontecendo e lutaram para se libertar”.

Na mesma página: “O caminho para se tornar mais apaixonada passa pela sinceridade, pela coragem de se assumir como é e acreditar que deve ser amada assim mesmo”.

E eis o trecho que considero o ápice da matéria:

Todos são tímidos, mas vencem aqueles que, apesar da timidez, demonstram seus sentimentos. [...] O comportamento modifica nossos sentimentos. Ao se comportar como uma mulher ousada, você se tornará realmente ousada. E os homens respondem não só aos sentimentos mas também ao comportamento. E você logo sentirá a relação que existe entre causa e efeito.

Enquanto folheio minha velha NOVA, e digito este Post, a capa está – literalmente – esfarelando sobre o teclado!... O que resiste, meu Deus, ao passar dos anos?

Vejo que a cada nova REVISTA da revista, mais fortes as lembranças ficam, mas mais um pouquinho ela se desfaz também... Esfarelando nas minhas mãos, enquanto rememoro meus tempos de menina, cheios de sonhos de conquistar o mundo. Ou, ao menos, de viver num mundo onde conquistaria os meus sonhos.

Naqueles idos de 1988, não havia toda esta perplexidade com a maldade – minha e dos outros.

Tinha alguém que cuidava de mim – minha mãe – e outra para satisfazer os meus anseios todos – minha madrinha –; várias com quem brincar – Andréa Cristina, tantos primos e minhas vizinhas de prédio: Cristina e Michele – e rostos enrugados e doces para beijar: Mãe-Ita, Vovô João e Vovô Raul. (Agora, só restou Vovó Antonieta.)

E eis-me no fim da edição 178 de NOVA.

Ai, como eu queria voltar no tempo!...

Enfiar-me sob o cobertor laranja, logo depois de acordar, tornando-o um manto imaginário, que fazia de mim uma princesa! Naqueles tempos, eu também era a “Xuxa”, a “Dona Bêja”, a “Miss Brasil”, a “professora”, a “mãe” das minhas bonecas...

... Era tudo tão mais fácil, mais mágico, mais bonito! Ninguém (que eu me lembre) me ofendia, nem muito menos me desprezava. Eu era recebida com sorrisos, era elogiada pelo meu rendimento escolar. Montava teatrinhos nas festas de aniversário. Era aplaudida. Era amada.

Meus dias agora, muitas vezes, são de imensas vaias: UUUUUHHHHH, como a que o cantor Wilson Simonal recebeu e que o calou até a sua morte, em 2002. UUUHHH

Ainda bem que temos , não é mesmo? E ela é tudo o que nos resta – já alertava Padre Léo em sua última palestra, Buscai as Coisas do Alto. Sei que Deus não me despreza. E nunca me ofende. Ele me aceita, porque está lá no livro do Gênesis, o primeiro da Bíblia: sou Sua imagem e semelhança (Gn 1, 26-27). Se há gente que me vaia, estou certa: Deus me apoia! Como Padre Cleidimar canta:

Só em Deus encontro refúgio
Só em Deus encontro a paz
Só em Deus...

Deus me acolhe
Deus me abraça
Deus me ama

Não sou feliz em 2010 como fui em 1988. Mas ao menos aprendi que Deus me abraça. É uma lição maravilhosa, concorda? (Peço licença agora pra guardar, com todo o carinho, a minha velha NOVA.) Saúde e Paz!!

~Ana Paula~A Católica
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