8 de agosto de 2010

Supremacia Branca (ou sobre negros forasteiros)

Imagem: Internet

Nota: Esta crônica foi escrita em 2002. No final, acrescentei um parágrafo que escrevi em 2005.


Muitas coisas me incomodam na vida. O fato de os novos síndicos do meu prédio não trocarem as lâmpadas queimadas nem mandarem aparar a grama do jardim. Barulho de motor de carro velho. Gente que entra na fila do caixa “somente até dez volumes” com o carrinho abarrotado. Fumaça. De qualquer tipo: cigarro, caminhão, fogueira. Tirando a de incenso: adoro. Gente folgada, que pede a você um vale-transporte (diz que vai repor, e não repõe), depois, o batom, depois, um real, depois, o celular, depois, dez reais, num ciclo vicioso e infindável, como se você fosse um saco sem fundo de dádivas (ou um otário). Mulher fora de forma que acha que, só porque está na moda, a calça saint-tropez lhe cai muitíssimo bem.

Caixa eletrônico que emperra, não solta o dinheiro, mas acusa no extrato que você sacou. Garçonete de cara amarrada. Colega de trabalho com a cara amarrada. Choro de criança, a qualquer hora, em qualquer tom, por qualquer motivo. Ônibus lotado com gente, digamos, “precisando de um banho”. Engarrafamento ao meio-dia e às dezoito horas. Um torra injusto da chefe. Mentira descarada. Gente que fala alto. Cisco no olho, quando se está com lentes de contato. Espirrar em público. Palitar os dentes em público. Flores murchas. Sandálias em dia de chuva. Carro que passa sobre um buraco repleto de água, molhando quem está na calçada.

Cachorro Pit Bull. A cara do José Serra. A cara do Jader Barbalho. A cara do George W. Bush. A cara do Elias Maluco. A voz da Sandy. O Júnior. Exibicionismo. Marmelada. Carnaval na Bahia. Acidente ecológico. Baratas pequenas. Baratas médias... Calor insuportável. Entretanto, nada, nada, absolutamente nada se compara ao mal-estar que sinto em todo ambiente em que as gradações da cor da pele correspondem à importância do cargo da pessoa.

Eu não fiz pesquisas nem uso o último censo para ratificar o que digo. Minha colocação se baseia simplesmente no que os meus olhos vêem e o meu coração sente. No que os meus ouvidos ouvem também: noutro dia, na cantina de uma universidade, escutei uma (suposta) aluna chamar o balconista: “Ei, moreninho...”.

Quis voar no pescoço dela, apertá-lo, ou – mais elegante – perguntar-lhe se gostaria que lhe dirigissem a palavra assim: “Oi, bunduda...” ou “Oi, branquelinha...”. Desisti. Porque eu teria que agir da mesma forma com milhões de cidadãs e cidadãos brasileiros que, como aquela moça, não percebem que situar uma pessoa ou defini-la principalmente em razão da cor da pele é lembrar-lhe de que ela não é igual a você.

Se a pessoa apontada (discriminada) como “moreninha” está numa posição, então, de prestar-lhe um serviço, isto fica ainda mais destacado: “moreninha” = “diferente de mim” = “inferior”. E, assim, pela boca de quem não se supõe “moreninho”, que se junta ao coro de outros que também não se julgam “moreninhos”, vai sendo delineada a fronteira social entre quem serve e quem deve ser servido; quem manda e quem deve obedecer.

Agora mesmo, enquanto escrevo esta crônica – que deveria ser divertida ou ácida, mas que é apenas... Nem sei –, bem, nesta biblioteca de um Tribunal de Justiça, cem por cento dos rapazes que recolhem os livros sobre as mesas são “moreninhos” ou, como os meus olhos os vêem, negros.

De vez em quando aparecem um ou outro rapaz, para entregar um documento a uma funcionária, que também são negros. As funcionárias que fazem os empréstimos dos livros são brancas (duas são loiras, uma, de olhos azuis). De uma sala, em cuja porta se lê “Diretoria”, só saem pessoas “clarinhas” ou brancas. É tão gritante. É tão escandaloso. Será que só eu estou vendo isso?...

E não é só uma questão de hierarquia no ambiente de trabalho, mas de volume de pessoas também. Em seu livro, As Barbas do Imperador, a historiadora Lilia Moritz Schwarcz cita o comentário de um estrangeiro que esteve no País por volta de 1860:

Se não soubesse que ela [a corte] fica no Brasil poder-se-ia tomá-la sem muita imaginação como uma capital africana, residência de poderoso príncipe negro, na qual passa inteiramente despercebida uma população de forasteiros brancos puros. Tudo parece negro...

Nos dias que correm, esse quadro se inverteu: no mundo em que vivo, nos lugares em que circulo, o que vejo é um mar de gente branca inundando os cinemas, os teatros, os shopping centers, as bibliotecas, os congressos, os seminários... São os negros que se tornaram forasteiros.

Durante os meus oito anos de universidade, passei por cinco cursos diferentes e tive quatro colegas negros: um era de Cabo Verde; uma, de Moçambique e os outros dois nem me lembro de que país africano eram. Enquanto isso, os jovens negros brasileiros estavam em salas diminutas, lidando com as máquinas de xerox.

E, aqui, voltamos à discussão hierárquica: no meu trabalho mesmo, os moços responsáveis pela limpeza das janelas e a poda das plantas, assim como os office-boys e a mulher da enceradeira – ou “do pesado”, como ela própria gosta de se referir –, são negros. As recepcionistas, brancas.

A julgar pelo que vejo na maioria dos ambientes a que vou, os serviçais são essencialmente negros e, à medida que se sobe na “importância” do cargo, a cor da pele vai clareando, clareando, os cabelos vão clareando, embranquecendo (é a chefia), até chegarmos aos píncaros da presidência da República (o presidente é branco e o próximo também vai ser), ao Vaticano (o Papa não só é branco, como veste branco) e... Fico imaginando se não seria Deus transparente, quase invisível. (Êpa: mas Ele não é?...) Está aí: isso me irrita profundamente. Acaba com o meu humor.


Este texto foi escrito no final de 2002, às vésperas da eleição presidencial. Hoje, mais de dois anos depois [2005], sentei-me em frente à TV para tomar meu café da manhã e deparei-me com a sempre bonita e elegante Ana Maria Braga. Um das pautas do programa era a insegurança nos condomínios, os chamados “arrastões”, assaltantes que despistam o porteiro – dizendo que precisam subir para entregar uma pizza ou providenciar um conserto –, e dão brecha para que um bando de marginais entrem para assaltar todos os apartamentos.

Pois bem. Havia três convidados no estúdio. Dois porteiros e um “consultor de segurança”. Este era branco. Quanto aos porteiros, mulatos.

A certo momento, Ana Maria Braga questiona o consultor branco sobre a formação que teve, a faculdade que cursou. Ela não fez a mesma pergunta aos porteiros. Pensei no que levou aquelas duas pessoas a serem porteiros: vocação ou falta de oportunidade mesmo? Por que o consultor, formado em engenharia civil, era branco? Para mim, diante da televisão, o que estava em pauta ia muito além da insegurança de quem vive num condomínio...

~Ana Paula~A Católica
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