9 de agosto de 2010

Rápida e Imortal

Nota: Este texto foi escrito em 1997, quando eu era aluna de Comunicação Social-Jornalismo na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (Fafich-UFMG).

Imagem da fórmula do DDT, por Benjah-bmm27
Acendi a luz e ela estava lá. Marrom, achatada, enorme. As antenas compridas, que mexiam sensivelmente – como a captar sinais de satélites, vindos de lugar nenhum. A barata e eu. Cara a cara. Nunca uma criatura tão pequena e insignificante causou tanta ameaça a um ser potente, soberano na sua racionalidade. Um ser humano.

Eu podia tê-la matado. Com uma chinelada de havaianas. Mas fiquei estática no meu horror. E também pela sua ousadia de invadir a minha casa e permanecer tranqüila, parada no meio da cozinha. Fiquei a fitá-la, desejando que o Baygon estivesse à mão. Fui, então, à área de serviço pegá-lo. A passos pequenos e de marcha ré: nunca se sabe quando o inimigo poderá surpreendê-lo. Peguei. Voltei. Ela ainda estava lá. Atirei. Ela fugiu. Óbvio.

Resolvi fazer um cerco com os jatos de espuma venenosos. Em torno do fogão, da geladeira, do armário embaixo da pia – onde, afinal, ela foi se esconder. Cada vez que imaginava a possibilidade de ela me estrangular de madrugada, na cama, mais intensos eles eram.

Fui dormir. Pus a lata do Baygon no chão: se o veneno não funcionasse, ela ao menos poderia se intimidar com a embalagem. Apaguei a luz; pus o avental da minha mãe entre a porta fechada e o piso da sala: dali a barata não passaria.

Acordei. Na esperança de encontrá-la com as perninhas para cima, rendida e desmantelada pelo meu cerco. Mãe, você viu a barata? Pai, você viu? Andréa, você... "Quem sumiu com a droga da barata?" – gritei, vencida.

Das três, uma: ou ela escapuliu incólume ou decidiu, enfraquecida, morrer no cemitério das baratas (como fazem os elefantes africanos) ou – a pior hipótese – ainda está em algum lugar entre a cozinha e a área de serviço. Só de imaginar que ela possa estar debaixo da última prateleira da despensa, rindo às minhas custas!...

Fico me perguntando por que tanto pânico. Uma revista científica esclareceu que as mulheres se espelham na barata: o inseto representaria tudo de asqueroso que existe na gente. Explicação esdrúxula. Eu e a barata: cara a cara com os meus vícios? Não, não. Metafísico demais.

Ah, se eu tivesse tido a coragem de dar por morta e encerrada a questão, com uma simples e certeira chinelada!... Neste momento eu estaria com paz de espírito, em vez de escrever esta crônica para aliviar a tensão. A tensão da possibilidade de ela ainda estar por aí, circulando com a sua existência infecta e nociva, podendo me surpreender no quarto de televisão ou no banheiro. Argh!

Se uma bomba atômica explodisse, dizem que só as baratas sobreviveriam. Os escorpiões também. E eu tentando eliminar uma delas com jatos de Baygon!

Está certo: não é qualquer coisa que as derruba. Baratas são criaturas que resistem bravamente, cumprindo a sua missão no ecossistema. Além de rápidas, imortais. (...). Pensando melhor, talvez o que eu sinta não seja medo. Mas uma baita inveja delas.

~Ana Paula~A Católica
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