9 de agosto de 2010

Amor mal resolvido: meu texto e eu

Fotografia de Ildar Sagdejev (Specious)
Nota: Esta crônica foi escrita em dezembro de 2003, antes do meu retorno à Igreja Católica. Considero-a importante, porque fala da Vocação de escrever.


Este é o texto que ninguém vai ler e pra ele vai toda a minha afeição. O texto que não deu certo, porque não vai se comunicar e somente eu saberei (saberei?) o que ele tenta dizer. Como meu texto é um segredo – entre mim e ele –, posso escrever o que bem entender: não será chato, porque só falarei daquilo que me interessar. Será choroso, será alegre, será cheio de esperança. Eu bem queria que ele fosse uma psicografia – ao menos assim me seria uma novidade: uma mensagem inspirada do Além. Mas ele vem do fundo de mim mesma mesmo: talvez eu até já o conheça bem.

Ele quer exprimir o que deixa de caber, a cada toque do ponteiro que passa. Quer contar os segundos e falar do céu que resplandece num azul pálido atrás de mim. Quer viajar milhares de léguas – terrestres e marinhas – e voltar para onde nunca esteve. Meu texto não foi nem vai e tem inveja de quem chegou – essa é a verdade.

Diz respeito a uma vontade infinita que vaza de um peito cheio de êxtase (e nenhuma coerência). Uma vontade de, mais que ser, existir. Mais que existir, sobreviver. Meu texto é o canto mal ritmado pela minha respiração, a minha manutenção, a minha ordem e o meu progresso. Socorro! Ele não pode aspirar a tanto: nasceu humilde, vai viver cabreiro, arrastar-se tímido e morrer ligeiro, anônimo, autônomo. Como um bicho assustado no meio da mata escura à beira de um brejo alagado onde os sapos assobiam.

Meu texto nasceu órfão de pai – é meio largado. Só não manca, porque se sustenta nas palavras e acredita em mim. Ele jura que é mais do que aparenta ter, só não consegue... Será que tenho vergonha dele? O que ele quer dizer, afinal? Que se dá por vencido, que entregou os pontos, que está à espera de salvação, de redenção, da adoção? Ele não ousa me dizer a que vem: vogais e consoantes, juntas ou em separado, não são suficientes para expressá-lo.

Meu texto é misto de aceitação e perplexidade. De indagação e conformidade. Tem o gosto azedo das frutas cítricas e o fel do chocolate amargo. Dói sem querer doer, encanta por descuido e arte. Trama que teço, sustém-me e envolve-me num abraço branco, solar e esburacado. Eu escrevo o meu texto – ou apenas serei uma marionete pendendo dos fios? Não sei. Nós dois, em silêncio e com força, sustentamo-nos: eu por ele; ele por mim.

Mas nunca daremos certo: sou assexuada, ele é bissexual. Nossa ligação é platônica. Reconheço que ele me quer mais do que eu o quero. Ele me cerca como a cheeta mirando o veado. E eu fujo, esquivo-me, finjo que não é comigo. Não adianta: ele sabe me seduzir. Aproveita-se daqueles momentos em que estamos a sós para me enfeitiçar, convencer-me de que preciso dele para acontecer na vida. É: eu o amo (isso é um fato). Por fim, ele vence e faz-me ver que estamos no mesmo time – adversários são os outros, o mundo.

Texto que te quero texto, apenas me deixe em paz: volte para o começo! Não adianta: ele quer se fazer entender, mas não consigo decifrá-lo. Ele quer ser a mola para o meu grande salto, mas é um segredo: só posso pular baixo, bem baixo.

Meu texto e eu somos desentendidos. Comungados com a inércia e a plataforma estática, de onde vemos os carros que passam, a árvore que cresce, o fruto que cai. Nossos rostos não sorriem: estão congelados. Deus nos colocou de castigo: estamos atados. Eu quero ir, e não posso. Ele quer me levar, mas não lhe tenho fé: por isso, está magoado. Ele me acha a mais fraca entre os fracos. Por minha vez, acho-o fingido, traiçoeiro e louco: faz-me perder o meu tempo e o dele também (aliás, que “tempo”, se estou parada?).

Só quero correr de sandálias havaianas na estrada empoeirada e ficar tão suja de vermelho, que serei a própria “pobre diaba”. Assim, mais brava, talvez, ele me possua e juntos façamos um filho pra eu parir uma coerência ou algo que o valha.

Estou verde e podre: quero morrer, nascer de novo e desaprender as besteiras que decorei. Assim, virgem, meu texto não encontrará resistência e levar-me-á para onde quiser. Quero ser branquinha, então, como a renda daquele vestido de bolinhas e a pétala brilhante da margarida. Quero me (...). Tombar no rio gelado e comer uma melancia inteira. De lá, avistarei o meu texto, enterrado como a mandioca, à espera da colheita para, enfim, ver a luz do sol, arder no fogo da panela e cair no meu estômago. O meu texto me ama: só a mim, ele quer pertencer.

~Ana Paula~A Católica
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