30 de maio de 2016

Sincronia

Foto de Richard Spencer

Acordamos feridas: eu e a paisagem.
Minha vista se enche de névoa;
a da janela se cobre de gaze.


28 de maio de 2016

Dolce far niente

Tela: Dolce Far Niente (1897), John William Godward

Pra se safar, mãos ocupadas:
o amor passa sem ócio.
Parar em alma vaga,
pra ele é o grande negócio.


25 de maio de 2016

A urdidura

Foto de Steve Gibson

Veja que apurada:
tramada com o requinte dos apelos.
Se, contudo, a presa escapa
do mais irresistível dos meios,
não se aflija aquela que caça:
armação disposta com jeito
num dia, cativa quem passa.


24 de maio de 2016

O moço

Tela: A young Man dressed as an Arcadian Shepherd,
François-Xavier Fabre (1766-1837)

O estio à frente dele se demora -
mas em plena primavera
dá de ombros, ignora.

Será que um dia chega a hora
em que o broto amadurece
antes do outono ir embora?


23 de maio de 2016

Ex-amor

Tela: Night (no. 2) - 1907 - William Orpen

Oh, funeral custoso:
não se olvida de quem tem rosto!
Diverso dos que perdem o sopro,
seu espectro ressurge em carne e osso.


22 de maio de 2016

O Adeus

Imagem: Seichu gishi den - between 1847 and 1848 (late Edo) -
Ebiya Rinnosuke

Depois que deixa a cintura e corta o ar,
sua mão precisa - nunca mais -
esse mesmo golpe, precisa dar.


Gafieira

Imagem: Moulin Rouge - La Goulue (1891),
Henri de Toulouse-Lautrec

Mesmo de brilho débil, emprestado,
a Lua não se intimida:
toma a frente das noitadas.
Se empina, gira... E sempre tomba nos lagos!


20 de maio de 2016

Feminino

Tela: Danae (1907), Gustav Klimt

Toda flor tem alma errante:
não nasce pra perecer num capão.
Exagera no perfume e na cor
pelo prazer de desfalecer numa mão.


19 de maio de 2016

O amor em 2 tempos

Tela: Jeune fille résistant à Eros (1880),
William-Adolphe Bouguereau

Quando um convite entrega,
sou presta em me esquivar.
Quando de ameias se cerca,
quero invadir e me assenhorar.


Camuflagem

Imagem: A face expressing hatred or jealousy.
Etching in the crayon manner by W. Hebert, c. 1770,
after C. Le Brun. Fonte: Wellcome Images

Debaixo da terra,
lençol d'água;
dentro da casca,
o invertebrado;
atrás da carranca,
coração em brasa.


18 de maio de 2016

Mata fechada

Tela: Le Rêve (1910), Henri Rousseau

Cansei de pegar no facão pra abrir uma trilha -
não deixar ao acaso.
Agora, as ervas crescidas cobrem a vista
enredam o passo.
Sonho que pelo perfume reconhece a pista
até os meus braços.


Ubiquidade

Tela: Summer night (1894), Elin Danielson-Gambogi

Sem se mexer nem se molhar,
a lua boia no rio e em todo lugar.
Sem escafandro nem perda de ar,
ele vive sorvido em qualquer olhar.