29 de janeiro de 2018

Lázaros

Tela: Echo and Narcissus,
Louis-Jean-François Lagrenée (1725-1805)

A privação reserva as suas graças
só às almas que nunca se fartam:
nacos da paisagem que escapam
dos dentes da persiana mal-fechada
e a migalha, que a festim se equipara,
pra habitué de quem não dá nada.


Memorabilia 2

Tela: The Old Letters (1865), Marcus Stone

Na mente, há um museu revisitado
onde as entradas são disputadas
e lembranças vivem lustradas.
Tem ainda um depósito trancado
de coisas esquecidas, intocadas -
onde é um risco, após adentrado,
levar ao museu (mesmo ao acaso)
o que não devia ter vindo à baila.


Delicado

Tela: Cupid and Psyche (circa 1880),
John Roddam Spencer Stanhope

O amor entra pé ante pé
pra não ranger o assoalho
e o cético perceber.

Dispensa outras manhas ou arma:
acha alarmes no off
toda porta escancarada
lençol disposto na cama -

sua ação é tão esperada,
que nunca chega arrombando.


O silêncio

Tela: Lyndra by the Blue Pool, Dorset (1913), Derwent Lees

Dedo a cutucar costelas, pescoço e nuca.
Mãos que cortam o ar -
estripador sem assinatura.
O perigo está em todo lugar:
sala, cozinha e quarto,
onde chega a violar
(de luz apagada, tortura).
Qualquer coisa para contê-lo:
dose, bagulho, encontro às escuras.
A calma não faz companhia
pra quem se enche de falta:
é presença obtusa.
Ao redor, tudo cala:
motor, rojão, abelha miúda.
Só uma coisa toca
sem intervalo, regente nem partitura.
Com notas inaudíveis, porém agudas.


Ichthys

Tela: The Fisherman and the Syren (1856-58),
Frederic Leighton, 1st Baron Leighton

O peixe de que falam, ignoro.
Minha mira captura o que convém:
olhos inquietos,
escamas lanhadas,
barbatanas rudes.
Miúdos que escapam das vistas grossas,
mas que têm seu valor de mercado:
são iguarias também.
O peixe de que falam salta,
rabeia no ar, tem a carne nobre.
Eu preparo isca, anzol e vara
pra um feito de pormenores:
não fartam e me mantêm.


28 de janeiro de 2018

O santo

Tela: Standing male model Carl Frørup (1837),
Christoffer Wilhelm Eckersberg

Conheço alguém com um quê de pluma: paira sem cair.
Retém o pasmo infantil no rosto: lhe passa batido o porvir.
Sempre que o vejo, eu o toco, pra só depois prosseguir -
a hora mais abençoada do dia, a poucos segundos, cingir.


A Súdita

Imagem: Heures à l'usage de Tours (BnF Ms Lat. 1202 086r) David et Béthsabée
Autor: Anonyme, peut-être Maître de Jean Charpentier XVe siècle

Adiante de quem eu amo
vai um tapete desenrolado
e assoberbado ele passa
de segunda a sexta, reinando.

Sobre os cachos, uma coroa
na mão, rijo, um cajado
do ombro um manto se arrasta
e um cortejo o segue, adulando.

Inclinada numa sacada
qual Betsabé a Davi, entediado
me exponho (é tudo ou nada!)
mas ele protela o comando.


Disparate

Tela: The Awakening of Adonis (1899-1900),
John William Waterhouse

Quanto mais avanço, menor fica.
Quando saio do encalço, se acomprida.
Que mundo é este:
em vez de esfera, é planta lisa?
Que amor é este?
Não tem fomento, e é sem medida.


O espólio

Tela: Noli me tangere - 17th century -
Daniel Seiter or Simone Cantarini

Olhar em que me risco
e me inflamo às cinzas.
Mãos em que me desfio
até me darem por finda.
Me reduz ao que importa -
e há quem se pergunte
por que permaneço ainda!


Ligada

Foto: U.S. Department of Agriculture U.S. Forest Service/USDA

Queima o lote perto de casa -
e a vista fica embaçada.
Da janela, carros levitam
postes se partem
telhados são chapéus sem cabeça
e árvores ganham uma anágua.
O sol é ofuscado -
quem toma não se bronzeia:
sua luz desce filtrada.
Brancos assim e a tarde passa...
... Carros, postes, telhados e árvores
embarcam nessa lânguida barca.
Queima o lote: o fumo é esparso. Eu não puxo,
mas não posso evitar o barato.


23 de janeiro de 2018

Silêncio

Tela: Jeune fille au papillon, Guillaume Seignac (1870-1924)

Nas suas asas de éter
há um recado de chumbo
(qual a saúva que ergue
mais que seu peso bruto).


Página virada

Tela: Femme se promenant
- Woman Walking in an Exotic Forest
(1905), Henri Rousseau

Esquecimento é mato encristado
que tão logo cobre uma trilha
nunca mais um coração denodado
ousa achar o que descaminha.