1 de outubro de 2014

A Cama

Tela: Le lit (1893), Henri de Toulouse-Lautrec

Uma cama
não é só
uma cama.

É trampolim.
Barca.
Banco de praça.
Mesa de restaurante.
Leito nupcial.

E gente:
fala em hora imprópria,
sai do lugar
e troca de roupa
constantemente.

Mulher vaidosa,
domina o centro
do cômodo
com 2 pepinos
nos olhos:
os travesseiros.

Magnânima,
é quem recolhe
no colo largo
os corpos cansados
de um dia inteiro.


Apelo

Tela: Madame Kisling (ca.1917), Amedeo Modigliani

Venha me ver de novo:
tô quase pronta.
Mudei muito.
O que viu
foi obra mal-acabada:
evoluí.
Segui o destino
das criaturas de Darwin:
perdi as fraquezas,
me soergui.

Baixei guarda, tom
crista, volume.
Caminho sem estalar
tacos,
discuto sem apontar
dedo.
Virei rainha da leveza.
Da lisura, embaixatriz.

(Tô pela metade -
tenho que admitir.)

Venha me ver de novo.
Você vai se sentir
à vontade:
a vida me achatou
de verdade -
como faz
com quem inda tá por aí.


29 de setembro de 2014

O perdedor

Tela: Regatta at Sainte-Adresse (1867), Claude Monet

Foi correndo na frente
e cansou.
Reduziu pra respirar
um momento
e todo mundo ultrapassou.

É o último lugar.

Os barcos atracados
secando
e o dele ainda
molhado
no esforço de chegar.

Ao longe salvas
palmas, foguetes
e bandeiras
no mastro
pra celebrar os primeiros.

Todos de costas
pra quem ofegante
ajunta cacos
e solta lágrimas no mar.


28 de setembro de 2014

Costuras

Tela: Syende fiskerpige (1890), Anna Ancher

Para minha mãe, Magali

Mamãe é modista
e a vida toda
suspirou
que eu não seguisse
essa trilha.

Cresci
entre réguas e moldes
panos, aviamentos
zíperes invisíveis
e o som da máquina
batendo.

Hoje,
tanto tempo
transcorrido
vejo que mamãe
se enganou.

O que é um poema
senão linhas pendentes
que a inspiração
costurou?


A lagarta

Tela: Alice in Wonderland - Advice from a Caterpillar (1906) by Arthur Rackham

Que bela figura
a lagarta preta
cruzando o cimento
que nem tartaruga.

Seu corpo peludo
se estica e enruga
em passos curtinhos
que perduram.

Me admira a calma
dessa criatura
que alheia às pisadas
arrisca a coluna.

Não importa a que
custo:
pra ela a sepultura
ou a corrida ganha,
por ser dura.


25 de setembro de 2014

O Pote

Tela: Young Girl Going to the Spring (1885),
William-Adolphe Bouguereau
Meu potinho
cheio de dias
carrego com todo o
carinho
para não dissipar.

Dou passo de bailarina
salto, galopo
e me arrasto -
faço de tudo
um pouquinho
pra água não derramar.

Às vezes ergo
meu braço,
o sol vem e bate -
faz um tanto
evaporar.

E mesmo quando
há chuva -
ai de mim -
não posso mirar
o meu pote
pra umas gotas
ajuntar.

Cada noite que passa
é um a menos
comigo,
mais pobre eu fico -
e menos viva também.

Às vezes me pego
chorando:
não adianta
tanto cuidado.

Num dia
que eu não espero
um sopro
na minha nuca
deixa meu pote virado.


A passagem do amor

Tela: Cupid as Victor (1601), Caravaggio

O que é plano
se amarfanha
depois do amor.

O amor entorta.

Dá-se importância
ao pequeno,
o que é imenso
se amiúda.

Um só rosto
é o mundo.
No meio de muitos
sem ele
não há nenhum.

O vocabulário
se reduz:
um nome amado
adjetiva
e complementa tudo.

E quando as palavras
sobram
e o leito desenruga,
o amor foi embora:
a paisagem se ajeitou.


24 de setembro de 2014

Diante do trono

Imagem: Study of King David (1865), by Julia Margaret Cameron

Estamos sempre indo.
Somos dunas
precariamente instaladas:
um sopro
e quem reconheceria?

Ponteiros delgados
nos afagam
o rosto
e deixam linhas.
Uma coroa branca
é o que recebemos
por resistir tantos dias.

Inoportuna monarquia:
não podemos correr
pra desfrutar
das campinas -
nossos ossos se afilam.


22 de setembro de 2014

Tarde branca

Tela: Wanderer above the sea of fog (1817), Caspar David Friedrich

Tarde branca
chapa sem imagem
nem moldura
folha não revelada
que esgazeia a paisagem.

Tarde branca
neblina que revela
ânsias acesas
de fumaças débeis
que jamais queimarão.

Tarde branca
arma sem cabo nem gume
que ao olhar
é inofensiva,
mas corta fundo.


21 de setembro de 2014

Insônia

Original etching by French artist Fabien Fabiano (1950)

Um corredor comprido
separa a orelha
da torneira que pinga.
Acurada, recolhe
os segredos
que não a deixam dormir.

Se fossem pérolas,
guardava.
Mas se desfazem
ao cair.

Frágeis pingentes
indelicados:
não enfeitam
e fazem alarde ao partir.


Maria da Penha

Tela: Totes Mädchen (1910), Egon Schiele

Começa muito pequena.
Suporta tempo ruim.
É ponte pra formiga
abrigo pro caramujo
pote de seiva
trampolim pra coruja.
A olhos vistos
atinge um porte
que supera o muro.
E mesmo roliça
de folhagens amplas
é vulnerável
ao facão do dono
que num dia de porre
sem razão aparente
simplesmente a derruba.