16 de setembro de 2014

Em brasa

Tela: Auf dem Rücken liegende Frau (1914), Egon Schiele

Baixei as defesas:
a seiva está pouca.
Preciso dela pra dobrar
os joelhos,
ao menos os braços
na altura dos ombros
e pra olhar de soslaio
se ouço um barulho
novo.

Sou maria vai com as
outras:
quando seca cá fora,
deserto em mim.
E não saio de perto
do filtro
pra minimizar o estrago
de lábios e pés
rachados.

No calor,
mostro um tanto de pele
assim.
Que pena:
meu ascendente
na cadeia alimentar
está na praia -
não vai me engolir.

E tenra e quente
vou carregando
feito trouxa de retirante
minh'alma ardente
de gozo
pela baixa umidade
absoluta dos tempos.


Onipresente

Foto de Larisa Koshkina

Precisava ser tão dura?
Dar galo,
quebrar vidro,
fechar sepultura?

Sozinha, faz tropeçar.
Em grupo, vira estrutura.
Lançada com arte,
faz aros no lago.
À custa de esforço,
se muda em cascalho.

Não deixa papel voar
nem porta bater de frente.
Margeia jardim
açula a navalha.
É chapéu do penitente.

Prima-irmã da realidade,
por mais que se sonhe
(e eu sonho muito)
é feito um cisco:
a retina sempre topa com ela -
ainda que no meio-fio.


15 de setembro de 2014

Frágil

Foto de Vlieg

Caiu do olho, da nuvem
ou de um copo suado?
Toldo perfeito
que reflete dentes, fios,
galhos, paredes
e um Reino acima de mim.

Um tanto de calor
e evapora.
Um toque
e vira rasto de água
na folha bruta.

Você se desfaz
mas enquanto dura
vou perscrutar
na sua borda molhada
a ponta do meu nariz,
as tensões do mundo,
a placidez dos destinos
que um a um
têm o mesmo fim.


Esboço

Tela: Paar in der Bibliothek (1930), Ernst Ludwig Kirchner

Também sou arquiteta.
Tenho tudo no papel
pra erguer na realidade.

Onde o sol vai bater;
onde não.
Onde o espaço fica reto
pro vento fazer curva.

Pé-direito nas alturas
colunas dobradas.
Tijolo escancarado
em lugar de pintura.

Pensei aço, vidro, verde
cal, madeira, concreto.
Tudo disposto e harmonizado
pro nosso lance dar certo.


12 de setembro de 2014

O baile

Foto de Huw Williams (Huwmanbeing)

O vento é grande coreógrafo.
Pelas lâminas da persiana
um milharal pequeno
valsa lânguido.

Vai e vem,
para e retoma
tão juntinho -
não é o sonho
do bailarino
curvar-se
e prumar-se a tempo?

Assim, sob o sol,
é um grupo de Isadoras:
pés no chão.

Num bailado verde e dourado
que deleita meus olhos
e os do Pai da criação.

Foto de Karakai András


11 de setembro de 2014

O ditado

Tela: In a Roman Osteria (1866), Carl Bloch

Filés de merluza
estirados no tempero.
O apressado come cru.
Codornas com pezinhos
enlaçados com barbante.
O apressado come cru.
O bacon tricolor
suando frio ali no canto.
O apressado come cru.
Arroz solto no caldinho
muito antes de ferver.
O apressado come cru.
Massa na bacia
com fermento e sem calor.
O apressado come cru.
Acabei de conhecê-lo
e cutuquei a minha amiga:
"É o amor da minha vida!".
Deu no que deu.


10 de setembro de 2014

Introdução de um Romance

Tela: Paolo and Francesca da Rimini (1866), Dante Gabriel Rossetti

Por onde devo começar a história?
Ah, sim: por aquela tarde chuvosa
onde você se assentava rente à janela
(fechada) e algumas gotas de água
pendiam da sua franja.

Você estava meio de costas pra mim
com sua regata branca e seu jeans claro
e eu em pé, parada,
observava atenta seu ombro se erguer
e abaixar
com a dança da respiração.

Não eram apenas alguns passos
que nos separavam.
Havia décadas, usos, costumes e siso.

De repente, por um instante,
a tarde se travestiu de cena de filme noir
e uma luz vermelha
vinda da rua refletia na parede: "Perigo".

Eu dei atenção. Quem nota
sutilezas da respiração
há de reparar em alertas explícitos.
E obedeci.

Mesmo tendo aprendido que a mãe morre
se você anda de costas,
qual curupira urbana
tomei distância dos seus braços,
das suas coxas, do seu pescoço,
dos seus cachos
e fiquei me perguntando como era possível
tanta fome caber em mim.

Tropecei num banco
(você olhou)
e tive a certeza:
naquela noite, eu não iria dormir.


Sedução

Tela: Painting lips (1794), Utamaro Kitagawa

Não sei qual foi
o critério,
mas a intenção sobeja.

Não é visível
o que toca.
Contemple o quadro:
certo ou torto
a maravilha
está além da moldura.

A força magnética
não é concreta -
mas quem a nega?

Rota ou bela
não é a cor do batom
que fascina.
É a aura do lábio
que imana: "Vem".


9 de setembro de 2014

Consolo

Tela: Abendlandschaft bei Mondaufgang (1889), Van Gogh

Não é interessante
que a mesma lua
no céu
enfeita a sua noite
e a minha?

Que você, também sendo
poeta,
com sua cerveja
na mão,
foi à janela aberta
e deu um suspiro?

E que com seus chinelos
de tiras
andou até a escrivaninha
pra escrever
umas linhas?

Sobre face enjeitada,
círculo bem feito,
halo dourado
e dois enamorados?

Não lerei seu poema -
tampouco você, o meu.

Mas pensar
que a mesma abóbada
nos abriga
por ora basta
pr'eu esboçar um sorriso.


Orações

Tela: Devotion (1857), Charles Chaplin

Haveria 300 mil Miss Brasil
Vinte líderes na tabela
Em toda garagem
um Porsche
Em todo pulso
um Rolex.

Toda casa, um brinco
Geladeira abarrotada
Jardim cortado
Mesa de carrara.

Mãe e filha feito
as pazes
Pai e filho de barba
feita
Hospitais vazios
Fome zerada
Necrotérios
com alma viva.

Trânsito fluindo
feito nascente de rio.
E você...
Me faria contato.
Se todo pedido (aos Céus)
fosse atendido de fato.


8 de setembro de 2014

Limonada

Foto de newleaf01

De hora em hora
o cuco lembra
que a meia-noite
está perto.
Ave agourenta:
não me deixa sorrir
inteira.
Vou que vou e ela:
"A festa há de acabar!".

Cinderela deu sorte:
um príncipe inconformado
quis porque quis
lhe devolver o sapato.

De pé no chão,
todo dia recomeço
a minha dança -
sem esquilos nem ratos
nem passarinhos
solfejando.

O príncipe tá na TV;
a madrinha, na África.

Não entrego os pontos:
futuro não cabe
no presente, cuco.
Se a carruagem sumir,
abóbora bem feitinha
é um estouro.