22 de maio de 2015

Papaizinho

Tela: God the Father - 1635-40 - Guercino (Giovanni Francesco Barbieri)

Deus, me dê Sua mão.
Não ligo que ela esteja tão alta,
que eu tenha que andar pendurada
com o sutiã saindo do lugar
até dar cãibra e eu ficar cansada.

Deus, me dê Sua mão.
Senão tomo o caminho errado:
passo na frente dos carros,
beijo homens casados.

Deus, me dê Sua mão.
Me leve pra onde haja sentido -
não gosto de barcos sumidos
nem de balões a hélio,
que ficam da vista perdidos.

Deus, me dê Sua mão.
Não sei o que fazer com as minhas:
afago o gato?
Afasto a galinha?
Me dê Sua paz
pra eu tocar minhas rinhas.
Não quero arrostar o Nada -
longe
de onde a Trindade reina sozinha.

Vai, Pai:
me dê Sua mão.

Não vou suportar as passadas.
Vai ter hora em que vou ser
arrastada -
joelhos e pés esfolados.
Não é assim com quem vai a Seu lado?
Aprendi menininha:
machuca menos que o mundo,
Sua mão etérea e pesada.


21 de maio de 2015

Lembranças

Foto de Petr Kratochvil

Fomos pelo meio do dia
até o sol
completar seu percurso.

Desse passeio imprevisto
recolhi como conchinhas
seu olhar e o seu discurso.

Quando enfim o revi
e toquei nos souvenirs
que guardei sem nenhum custo,

O dia, seu olhar, o que disse -
pra você, só vestígios
que a maré apagou no seu curso.


Refém

Foto: Grande sauterelle verte (Tettigonia viridissima Linnaeus, 1758) - Autor: Didier Descouens

Ia tranquila pela vida,
mal derrapando nas curvas,
amar me pinçou dessa avenida
e me cravou numa trilha escura.

Como inseto recolhido d'onde estava
e colocado com alfinete no isopor,
fui ferida e enredada
quando olhei pro meu amor.

Num novo plano cativa
choro, mas não soluço:
na paixão não há enigma -
só o tempo liberta do jugo.


17 de maio de 2015

Sonhos

Tela: The Nightmare (1781), John Henry Fuseli

Você comigo,
e o sol risca rápido o céu.

Num piscar deixa a ribalta,
pra lua tocar seu papel.

De dia, conduzo as cenas:
o palco a meu bel-prazer.

À noite durmo e vem o meu drama:
meus medos assumem - fico à mercê.


A falta

Tela: La Blanchisseuse (1761), Jean-Baptiste Greuze

Na área, roupa encharcada
aguarda a torcida.
Mas as mãos saíram de campo:
por ora, driblam o pranto -
ressentem os toques do capitão.


13 de maio de 2015

Quase 40

Foto de Ren West

Os fios rareiam
o ventre se adensa -
quanto mais as luas
te alteram a figura,
mais me apeteço.

Por te tomarem a vaidade
e a prosódia vãs,
te ajustam ao meu gosto:
lhano feito ovo.
Sem arestas nem adereços.


12 de maio de 2015

Aves

Foto de Dnalor 01 (CC-BY-SA 3.0)

Mais uma vez pousa a noite.
Aos afortunados, traz nas asas
o sono.
Outros, como eu, digerem suas penas.

E da janela a vemos delicadamente planar,
pra dar a vez à manhã:
gaivota soberana
sem compaixão com os insones.


Onomatopeias

Tela: Intérieur maison et chat (2007), JM Brugeille

Casa cheia:
Tim-tim Cof cof
Nhac Zupt Plof
Smack Blam
Tchibum!

Casa vazia:
Tum tum
Tum tum
Tum tum...


Chorona

Tela: Nature morte de fleurs aux lys (1934), François Barraud

Penso nele
e giro em meu eixo -
sou jarro de lírio
em que deram esbarrão.
Tanta água
e a manga é curta:
o pranto não seca sozinho
e perfuma os insetos no chão.


8 de maio de 2015

Tensão

Foto de George Hodan

O céu inteiro cabe numa poça.
Sustento o pé
e ele segue o mesmo,
abaixo
e é o fim das constelações.


7 de maio de 2015

Pragmática

Tela: La Partie carrée, James Tissot (1836-1902)

Só o vi ébrio -
não sei como é sóbrio.
Se precisa beber
pra me olhar desse jeito,
erga o braço:
encherei outra vez sua taça.