21 de novembro de 2014

Meu grilhão

Tela: The Gilded Cage - Unknown date - George Hare (1857-1933)

O xadrez marca
os punhos
mas não encerra
o pulso
nem o pensamento -
fortuna do presidiário.

Quanto a mim,
leve e solta
vou da direita
à esquerda,
cruzo viadutos
margeio asfaltos
trago a poeira
sob o sol quente
na estrada,
onde as aves planam
e grasnam.

Nem o vento brando
que muda de lugar
as mechas
nem a chuva rala
que me molha
os braços
me consolam
do peso que arrasto
e me restringe os passos:
meu pensamento
não decola.
Voa raso.
Volteia até a sua altura
(cerca de 1 metro e 80)
e daí não passa.


19 de novembro de 2014

Ébria

Tela: Bailaora (1914), Joaquín Sorolla y Bastida

Certas são as bailarinas
flamencas
de tapar as pernas:
as passadas denunciam.

Eu, por exemplo:
neste dias pardos
troco a direita
pela esquerda -
desconjuntada feito girafa.

Só que sem o pescoço
comprido
pra alcançar
a melhor parte.

A mim, as jabuticabas
estateladas.
Sobras da árvore
que recolho pra sobrevivência -
sem o bônus do céu
que garantiram a Lázaro.

Triste é cambalear
embriagada de realidade -
se ainda fosse pelo vinho
estaria confortada.

Por isto optei pelo banquinho:
melhor parada na calçada,
que sair por aí
enviesada
inspirando a pena
ou as pedras
de quem passa.

Sim: uma saia comprida
bastava.
Mas não há pano
que chegue
pra ocultar a realidade.



17 de novembro de 2014

Os inconfidentes

Tela: Symposion (1894), Akseli Gallen-Kallela

Tem uns estudantes morando
no prédio ao lado.
As janelas mais altas
que as minhas -
não me deixam ver
sua identidade.

Vez em quando há vultos,
braços que passam
rápido.
Nucas, cabelos aparados.
Quadros, portas de
armários.
Também um crucifixo
na entrada.

Quando se debruçam
pra olhar a paisagem,
não estou perto.
Quando me aproximo,
já deram as costas.

Um aroma de livros
abertos e expectativas
escapa diariamente
de lá
e entra na minha casa.

Gosto
quando suas luzes
seguem acesas
e as minhas
já estão apagadas.

Parecem inconfidentes
tramando um motim
pela madrugada:
"Jamais os grilhões da idade!".

Uma conjuração
pra qual não fui convidada.
(Eu, pela corrente do tempo,
envergada.)
Mas que me contento
em testemunhar de longe,
bem acordada.


15 de novembro de 2014

Let it Go

Tela: Mutterliebe (1911), Lovis Corinth

A cada dia me despeço
do meu filho.
Constantemente
ele está de partida.
Cada vez que sai
a paranoia pergunta: "Será
que ele vai retornar?".

Mas há despedidas
que acontecem
sob meu nariz
e minhas asas:
manhas
dobras
balbucios,
que ele deixou lá trás.

Os pelos se espraiam
se estica
e deixa de ser
meu bebê
para virar um rapaz.

Moço feito,
muito antes de partir
o coração de alguém
todo dia
enquanto parte aos pouquinhos,
vai partindo o meu também.


14 de novembro de 2014

Persistente

Tela: Тачыльшчык (1928), Siarhiej Kaŭroŭski

O que dá regularidade
à vida
são as coisas.

As páginas mudam,
ficamos diferentes:
o filho e pai vira avô
a filha e neta, mãe
e quem nem existia
surge na história filho.

Não nos reconheceríamos,
se não fossem
as coisas.

Como a pedra de amolar
que revi hoje.

Redondinha
com furo no meio -
páginas atrás -
era um volante
ou o anel
de um dedo imenso.

Depois descobri:
cinza e dura,
só servia pra apurar
o corte
das facas cegas da mamãe.

Partida ao meio, dois meio-
círculos:
eis como a encontro
na página deste dia.

Confortei-me em saber
que a pedra dura
ainda está por aqui.


13 de novembro de 2014

Sentinelas

Tela: Blue and Green Bottles and Oranges (1914), Spencer Frederick Gore

Reunidas no canto
da mesa,
gargalos sem tampa,
vistas do alto
parecem colmeia.
Ou senhoras indefesas,
acuadas.

Enquadradas num engradado
pra se partirem em pedaços,
não são frágeis
mas sentinelas valentes,
as garrafas.

Muito antes da cerca
elétrica
e mesmo uns cacos,
ei-las altivas
em cima dos muros:
unha afiada
pra intimidar os gatunos.

A postos à luz do sol
(e da lua),
ficaram assim
na lembrança:
circundando castelos
que protegeram
minha infância.


12 de novembro de 2014

A salvação

Tela: Zonnebloemen (Sunflowers) - 1888 - Vincent van Gogh

Não é justo receber tanto
castigo.
Eu seria boa menina
se o Manual de Instrução
viesse mais mastigado.

Sempre achei importante
unir o ser ao sentir.
Ser, sem palpitar,
desde cedo, não assenti.

Mas chego ao meio da vida
confusa e inadequada -
vontade de desistir.

O que não me precipita
me pôr à parte
não é o pôr do sol (magnífico):
são os girassóis de Van Gogh.
É a arte.


A Ostra

Tela: The Oyster Girl (1882), Karl Gussow

O que me mantém firme
é a lágrima
que vai saltar pros meus
cílios,
embaçar a vista
e embargar meu verbo.
Você vai querer retirá-la
e eu vou permitir.

Por isso
aguento este lodo,
esta água turva
e o céu cinza
acima de mim.

E estes pássaros
que não cantam -
azucrinam.

E esta cidade sem mar,
que parece um porto:
nômades;
meretrizes com banca
de santa
e capitães
que compensam no grito
e no tapa
a falta de grana no bolso.

Eu cultivo a minha
lágrima
no meio do burburinho,
mas no fundo de mim.

E não a revelo em vão:
meu pranto sentido
só vai reluzir
quando seu desembarque
me encorajar a me abrir.


10 de novembro de 2014

Expectativa

Tela: Mädchen am Fenster (1890), Ferdinand Hodler
O vento empurra os aromas
vizinhos,
que chegam novidadeiros:
peixe na panela,
cera no chão,
cigarro aceso.

Ele percorre o espaço
e também viaja
no tempo.

Por isso, busco a janela.

O peixe, a cera e o cigarro
vêm fortes e rápidos,
porque estão perto.

Os aromas da minha avó,
que ficou no passado,
também hão de chegar -
embora leves e lentos.


8 de novembro de 2014

A aula de Anatomia

Tela: The Anatomy Lesson of Dr. Nicolaes Tulp (1632), Rembrandt

Ali
estirados em camas
frias
descansam
os indigentes.

Antes ignorados,
na aula de Anatomia
viraram astros.

Quando andavam,
repeliam.
Agora, são cutucados.

A sua volta
alunos alinhados
ávidos
pelas entranhas reveladas.

Estranha sina:
a existência errante
ganhar sentido,
quando a vida
está acabada.


7 de novembro de 2014

Os Mandrakes

Tela: Zan Zig performing with rabbit and roses,
including hat trick and levitation.
Advertising poster for the magician (1899)
Autor: Strobridge Litho. Co., Cincinnati & New York

O que mais gosto
nas cidades
são as ruas:
extensas, cinzas e lisas.

Menina desarmada,
não podia enfrentá-las -
somente observar.

E do alto via dentes,
braços, garras -
tudo rápido e agudo,
apto a devorar.

À medida que cresci,
as bestas
ficaram gentis -
viraram tapetes estendidos
da porta da minha casa
ao cursinho de inglês.

Mas ainda me intimidam:
mesmo planas,
ruas são Mandrakes
com algum susto na manga.