6 de julho de 2015

Clarividência

Tela: Night (1870), Edward Burne-Jones
Noite em que não se distingue
coisa alguma:
só joias em cima,
bijouterias embaixo.
Brilhantes que não esclarecem:
pura firula.

Quanto mais escura,
maior minha desenvoltura:
dispenso o cão e a bengala
pra não topar nos muros
e tomar estradas.
A rua toda, de noite,
é como o quintal de casa.

E de pé no alpendre,
bacia em punho,
separo o joio e o trigo
apenas no tato.
Em hora nenhuma
meu amor por ele é tão claro
como na noite sem lua
em que não vejo nada.


4 de julho de 2015

Resistente

Foto: Seoul Skyline - Autor: Jimmy McIntyre - Editor HDR One Magazine

São as primeiras luzes acesas
que sinalizam a última do dia.
Não o céu:
deixa às claras o horizonte
em plena hora escurecida.

A sucessão de anoiteceres
empurra a mim e o calendário mais à frente -
ainda que (na verdade) eu permaneça lá atrás
de coração e mente.


3 de julho de 2015

Manequim

Foto de Anna Langova

O pôr do sol, mesmo da janela embaçada,
é tão lindo.
Desfila rápido: uma entrada na passarela
e já vai indo.
Nunca entendi: o dia põe seu melhor traje
quando está findo.


27 de junho de 2015

Bilhete

Tela: A Woman Writing (between 1764-1768), Suzuki Harunobu

Êita, vida:
longo caminho de mesa
com prazo curto pra percorrê-lo.
A pressa não come mosca:
se deita, levanta cedo.
Sei da correria brava
(por que excedi na prosa?),
meu recado é breve: um beijo.


26 de junho de 2015

Matizes

Tela: A Rose (1907), Thomas Pollock Anshutz

O dia é verde;
a esperança, vermelha.
Você vem de amarelo;
eu abri mão do preto.
A tarde em branco passa;
a noite chega sem vinho -
a perda veste neon.
"Minha cor não te cai bem agora",
acusa uma cálida rosa
sobre a mesa, sem meio-tom.


25 de junho de 2015

Dois

Tela: Meisje in witte kimono (Geesje Kwak) - 1894 - George Hendrik Breitner

Mais um sonho apaga.
A alma acompanha o corpo
na noite que já vai alta.
Abatidos, um dorme,
a outra soluça
sem coberta nem calma.
Pra um,
a manhã vem depressa.
Pra outra,
a alvorada é promessa
que espera cheia de falta.


22 de junho de 2015

Impaciência

Tela: "Know all men by these presents" (1911), Coles Phillips

Tantas horas separam meus dedos
do seu cabelo.
Se tivessem lábios, assobiavam.
Mas tamborilam a mesa.

Improvisam uma sevilhana
depois tocam o Paso Doble,
que vira um galope louco
aflito pra superar o tempo.

Pobres carnes nuas:
logo se estiram exaustas
se perguntando quando - Quando? -
vão se cobrir com seus pelos.


A quimera

Tela: Arrangement in Grey and Black Nº 1 or Portrait of the Artist's Mother (1871),
James Abbott McNeill Whistler

Tem raízes longas
os acontecimentos,
e a que píncaros
vai a quimera!

Quanto mais afundo
meus pés na terra,
mais se empina
meu pensamento!

Nesse embate entre o que é
e o que pudera
só me faz bem, o tempo.

Quando a lucidez, aos poucos,
me deixar na mão
não vou distinguir:
o que sucedeu?
O que foi ilusão?

E assim
numa cadeira de balanço
sob um xale rendado,
cumprirei meu prazo
de pés juntos jurando:
pela vida afora
você e eu
de mãos dadas, fomos andando.


*Com este poema, a Católica concorreu, pela 1ª vez, ao Prêmio Off Flip de Literatura.

20 de junho de 2015

Coração

Tela: De trommelaarster (1890-1910), Isaac Israëls

Um surdo soa mais alto
quando sola na noite escura.
Tom baixo que vela os ouvidos
pra qualquer outra música.

Não consigo abafar
o compasso sentido
que toca tão fundo.

Batida apressada
que me enche de vida,
mas como ela é fúnebre!


19 de junho de 2015

Adoradora

Tela: Lovers (1914-15), Egon Schiele

Cedo ou tarde, o estado é um:
perpétua adoração.
De prontidão, meus olhos velam:
coxas, barba e as suas mãos.

Nenhum pedaço escapava
- assim eu acreditava -
da minha inteira devoção.

Até que um dia, sol a pino
- eu que não fazia isto
nem com santo de procissão -
baixei meu corpo e cobri de beijos
seus pés sem meias no chão.


17 de junho de 2015

Encontros

Tela: Ten Thousand Riplets on the Yangzi - Water Album, Ma Yuan (1160-1225)

Corre o rio pra se soltar:
de braços abertos, o mar.

Também me apresso
mas o abraço, incerto:
não sei se ele vai me agarrar.


6 de junho de 2015

Velhos Amigos

Tela: Diesen Kuss der ganzen Welt (1902), Gustav Klimt

Há tanto tempo
nossos corpos se entendem
aqui comigo,
que quando enfim se conhecerem
"Muito Prazer" - pressinto -
vai ser garantido.