27 de agosto de 2015

O cinzel

Foto: Camille Claudel - sculptrice française.
Sur cette photo, elle est âgée de 20 ans - 1884 - Unknown

Eu lasco, lixo, gravo
boto um pouco de mim
no que não é meu.

Às vezes os braços estão pra cima;
às vezes fica melhor sem eles.
Me esmero nos cachos, no pescoço esguio;
suo pra deixar altivos, dois olhos tristes.

Ferramenta única é a paixão:
talha o outro a nossa imagem,
mas quem se fere é o escultor!


25 de agosto de 2015

O redentor

Tela: The Broken Pitcher (1891), William-Adolphe Bouguereau

Meu amor é Mestre
e caminha atento no mundo,
sem sonhar que o alcei
acima de tudo.
Ele fala coisas difíceis,
gosta do que é estranho
e não tem respostas a oferecer -
apenas perguntas.

Sentada à beira do poço
eu não lhe dirijo a palavra,
não lhe rogo coisa alguma.
Sou eu quem o guarda,
sou eu quem o vela,
quem o perfuma.
Dou tanto e vivo na falta
(rede rasgada, cesto vazio),
mas Glória aos Céus:
só de amá-lo, estou salva.


24 de agosto de 2015

A toilette

Tela: Yokugo no onna (1915), Goyō Hashiguchi

Não dá pra ver no escuro
o pedacinho do prédio em frente.
Nem a linha da Serra
nem as árvores da rua
nem o quintal vizinho.
Os gatos não cruzam
gatunos não bolem
cães não ladram nem correm.
Saio do banho, semblante sombrio:
pra quê espelho?
Lá fora reflete bem meu feitio.


19 de agosto de 2015

A presa

Imagem: Aigle et Lapin (1897), Léon Bonnat

Sua indiferença é ave de rapina:
meu desejo infante, rapta e elimina.
Sob suas garras, ele se amofina -
quem vê, julga que aceitou a sina.
Está ofegante, mas ainda me anima:
é assim que vira o jogo e a assassina.


18 de agosto de 2015

Curto

Foto de Dick Rowan (NARA record: 2406259) -
U.S. National Archives and Records Administration - 1972

Mirante inútil:
pra quê me ajusta
toda a borda da paisagem,
se não me serve
uma linha do futuro?


17 de agosto de 2015

Platônico

Tela: Looking shy - the appearance of a young girl of the Meiji era (1888), Tsukioka Yoshitoshi

Quando desperto,
ele já está a meu lado:
sorrio, levantamos
comemos, vemos TV
descansamos.
Meu amor toma o meu peito,
se aninha em meu colo
e o encho de afagos.
Vamos assim,
mas se o vejo de frente,
meus olhos abaixo -
talvez por recato
ou (o carrego o dia inteiro)
simplesmente cansaço.


16 de agosto de 2015

A florista

Tela: Chloris - A Summer Rose (1902), John William Godward

Todos os dias ele abre o portão
e meu sorriso vermelho é uma flor que cultivo
com todo o cuidado.
E ele a recebe, mas não sei o que faz:
coloca num jarro? A deixa de lado?
Meu dever é a entrega, conforme o patrão:
meu coração enlevado
que não aceita desculpas, muito menos atrasos.
Todos os dias a meta é a mesma:
a flor desmanchar num beijo roubado.


A fuga

Tela: Home Dreams (1869), Charles West Cope

Às vezes pisco e os olhos embaçam -
sobretudo o direito.
A catarata chegou? O glaucoma?
Fecho os olhos de novo,
bem devagar,
como quem passa um pano
com cuidado
pro cisco escapar.
E é uma piscada tão lenta
que por um minuto, uma hora
vou pra outro lugar.
Deus! Como é bom!
Lá é como um grande sofá branco
que me engole sem machucar
ou um jardim sem cerca
onde eu corro, corro e corro
e a grama me roça sem eu coçar.
Então, meus olhos se abrem:
não é glaucoma.
Não é catarata.
Não foi nada.
Não foi dessa vez que fiquei por lá.


14 de agosto de 2015

Amor Não Correspondido

Tela: L'Etoile Perdue (1884), William-Adolphe Bouguereau

Sou fã de alongamento.
Me estiro toda:
braços, pulsos, dedos
pernas, tendões, plantas.
Nada estala:
natural pro meu corpo
colher uma maçã,
trocar uma lâmpada.

Mas às vezes ele se empolga:
acha que uma estrela, alcança
e que faz cafuné em Deus -
pretensão tamanha!

Então uma nuvem anda
e sob sua sombra, se acanha.
Joelhos tocam no peito:
o coração reclama.
Um amor tão alto
(ele já devia saber)
não é qualquer um que apanha.


13 de agosto de 2015

O desejo

Tela: Frau im Kimono mit Fächer und Blumen (1900),
Max Nonnenbruch

Pra quem tem um metro e noventa,
é fácil a cabeça fria.
Lá vem ele bonachão,
alheio ao que esquenta o chão:
cricris, quiproquós e quiçás.
Ele passa sorridente
esmagando naturalmente
o que é pequeno.
Um homem assim desperta na gente
o que há de mais casto!
Por que então quando o vejo
só penso em bobagem?


12 de agosto de 2015

Paquera

Tela: Barcelona (2007), Andrew Stevovich

O que me inebria não exala:
só tem sabor.
Se me acusa de sóbria
e quer companhia pro copo,
meu fígado virgem é forte.
Mas minhas pestanas, não:
quando eu chegar ao quarto gole,
sem muita conversa mole,
confesse logo o seu amor.