15 de abril de 2014

Tarde de Outono

Tela: Caféterasse bei Nacht (1888), Vincent van Gogh

Penso em você,
nas conversas que teríamos
em volta da mesa
escura,
onde o verniz descasca
e ninguém arruma.

Entre nós
a garrafa de cerveja
na qual não ouso
tocar.
E tudo, tudo o que
você diz
é mais saboroso
que o tira-gosto
premiado.

Não gosto de cigarro,
mas ali, ali
a fumaça branca
raleada se espraiando
entre as cabeças
faz um fundo
bonito
pro seu sorriso farto.

Seria a noite perfeita -
apesar do som alto -,
se não fossem
a noite, o bar,
as cabeças
se desfazerem
ante os gritos
da mãe, da criança,
na tarde quente de outono.

Tela: The garden of Saint Paul's Hospital (The fall of the leaves) - 1889 - Vincent van Gogh


11 de abril de 2014

Partido

Tela: Approaching Thunderstorm (The Large Poplar II) - 1903 - Gustav Klimt

Interrupções
são como o susto
de estar no oceano
fundo
e subir depressa
à superfície.

Como balão de festa
que estoura na madrugada.

A vassoura
escorada no canto
que se cansa e cai.
O celular que vibra,
um espirro alto,
o canal errado na TV
que chia.
Alguém que fecha
o livro grosso
de repente.

Há quem pense: "Estorvo!".
Não, eu.

Tudo o que cinde
a linha contínua no meio
é bem-vindo.

Porque tudo o que estala
traz à vida de novo
o absorto, o dormente.
(Não obstante as palpitações.)

Tela: Beech Grove I (1902), Gustav Klimt



10 de abril de 2014

Página de Diário

Tela: Lunia Czechowska with her left hand on her cheek (1918), Amedeo Modigliani

Meu ouvido coça
às vezes.
Em vão aliviar
com ponta do indicador -
parto pra cotonete.

Aperto a haste azul,
roço o algodão
bem no ponto que pinica.
(Gostoso.)

Li que ouvido e garganta
se ligam.
Talvez me coce a boca,
em vez da orelha. Talvez.

Resolve tocar
no ouvido.

Como se lhe fizesse
um carinho,
pelo que sofre
de noite, de dia.

Meu ouvido escuta
o que não merece:
torpezas, vilanias.
Não há Chopin
que desoprima.

Eu devia seguir Pinóquio:
ter um grilo
ao pé do ouvido,
pra me soprar
canção amiga;
pra me beijar
ossinhos que vibram;
pra me passar
qualquer esperança
e valer a vida.

Apesar dos ruídos,
do que entra pelo ouvido,
e não sai pelo outro.
Tudo o que fica, espeta.
E causa dor.

Tela: Woman with Black Cravat (Sem Data), Amedeo Modigliani (1884-1920)