29 de outubro de 2014

Por quem o sino dobra

Tela: Mädchen als Glöcknerin (1875), Otto Piltz

O sino da matriz
soava ao meio-dia
desde meus 12 anos.
Saudava Maria,
a mãe do Senhor,
e as mudanças no meu
corpo.

Uma solteirona o tocava.

Por anos,
dividiu ao meio o dia:
dava "Até logo"
pra manhã;
dizia "Bem-vinda"
à tarde.

Estava tão acostumada,
que o frenesi da juventude
me fez surda à novidade:
o sino calou.

Hoje,
qualquer dobre me embarga.

Não sei se choro,
porque a solteirona morreu
porque ela não viu o amor
ou porque o silêncio renitente
bate
que a nossa fé apagou.


28 de outubro de 2014

Artifícios

Tela: Het meisje met de parel (Girl with a Pearl Earring) - circa 1665 - Johannes Vermeer

Ao bonito
basta existir.
Sua forma
é eloquente
pra pôr o mundo
a seu dispor.

O mínimo gesto
excede.
E o que era simples
e acabado
vira Rococó.

Ao comum,
o trabalho:
brocados barrocos,
volteios Art Nouveau.

Brilho, drama
e movimento
pra cativar os olhares
por mais tempo.


27 de outubro de 2014

Fred Astaire

Pôster do filme Nasci para Bailar (Let's Dance, em inglês) - 1950 - Reprodução-Internet

Como gosto de ouvir
passos -
sobretudo atrás de mim.
Parecem vir
de um mensageiro.
Meu impulso é perguntar:
"O que é?".
Nada:
uma pessoa caminhando.

Por mim,
o mundo inteiro
seria sintecado.
E nós, peregrinos,
entoando com os pés
nossa marcha.

Melhor: bailarinos.

Só assim,
batucando o chão,
daria meu recado
Tânatos:
tô de passagem,
mas vou dançando.


A boa educação

Foto: Wasselonne, une classe d’enfants de l'école catholique en 1925 - Unknown

Quando nos corpos franzinos
não se distinguia o sexo
e o ar era preenchido de
risadas, gritos e passinhos
e os cabelos se desgrenhavam
sem ânsia por um espelho,
um leque se abria
bem diante das pupilas.

Quando meninos e meninas
se definiram
e o medo de dizer bobagem
calava
e o esmero em se ajeitar
dominava,
ele se fechou.

Feliz quem furtou uma haste:
garantiu um pouco de
ar fresco
pela vida afora.


24 de outubro de 2014

Ira santa

Foto de Hansueli Krapf

Não dou as costas
quando Deus zanga:
fico de frente
pra ouvir Seu sermão.

Bota carranca,
tosse, pigarreia, bufa.
Rasga o céu
com espadas.

Chuta o balde
e molha tudo:
curvas, becos, atalhos.

Como é linda
a ira santa!

Torço em segredo
pra elevar o tom:
merecemos,
aprontamos tanto!

Sei
que depois do castigo
sob marquises e lajes,
Pai arrependido,
nos consola
com presentinhos caros:

Veludo negro, brilhantes
e um imenso broche de prata.


23 de outubro de 2014

Alma Gêmea

Tela: The Toilet of Venus ("The Rokeby Venus") - 1647-51 - Diego Velázquez

Tenho uma irmã
que me aparece
sempre que olho
no espelho.

Sincera, não faz rodeios:
escancara.

Que meus ossos
sopitam,
que minha pele
dobra,
que o tempo
passa e a minha
massa
escapole da forma.

Minhas feridas
e picadas,
reflete
sem meias verdades.

A gente se parece,
mas só na aparência:
é o meu inverso.

Ela tem coração
grande,
salta obstáculos,
não usa correntes,
não se embaraça.
Se embriaga:
vê graça em tudo.

Tira de letra
abatimentos.
Segue afora.
Reza muito.

Já propus -
parecemos tanto -
que trocasse de lugar
comigo.

Cheia de defeitos,
eu
que merecia o armário.
Ela,
a amplidão do mundo.


22 de outubro de 2014

A semente

Tela: Descent from the Cross - Detail women (left) - Rogier van der Weyden (1399/1400-64)

Vem de dentro margeando
até desaguar
única
pelo canto –
joia de sal
que acarinha o rosto.

Eis a lágrima:
prenúncio do pranto
que embarga a voz
embaça os olhos
e não lava.

Antes
revolve a poeira,
que fica suspensa –
pra depois resolver
o que fazer com ela.

Gota que entorna
de um corpo aflito,
monólogo conciso
pra plateia errada:
quem deveria acolhê-la
está longe.

Mas tem esperança
de semear compaixão,
empatia
ou um abraço –
florescendo
em quem está ao lado.


21 de outubro de 2014

A areia

Tela: Niños en la playa, Valencia (1919), Joaquín Sorolla y Bastida

Fértil -
gera sombrinhas
(re)colhidas à noite.

Cúmplice -
acoberta algozes:
pés, espetos, bitucas.

Indiscreta -
revela tesouros:
ovos, tatuís, conchas.

Volúvel -
muda de lado
ao labor do vento.

Inoportuna -
gruda
onde não é bem-vinda.

Mas dedicada -
cerceia com desvelo
todo um oceano,
pra ele não derramar.


20 de outubro de 2014

Negligente

Photo: Thomas Bresson

Onde se meteu?
Não há nuvens,
encostas nem muros.
À exceção de umas luzinhas,
o breu desvestiu tudo.

Dos olhos e dos sonhos,
despontam taras
e medos.
No lado de cá
do mundo,
é a hora da verdade.
Todos se mostram:
que é de você?

Não sabe
que a dona triste,
o velho torto,
a moça só,
o homem louco
contam consigo?

Não sabe
que prum punhado de gente
é dia
e você, o único sol?

Não se furte de ser
norte
de quem prefere a madrugada.

Você é a face amigável
pra quem não tem mais nada.


Carcará

Foto de Wilfredo R. Rodríguez H.

Amanhã é o novo dia.
Vou partir o pão
no meio,
passar manteiga,
dar nove passos
até a cozinha
e beber água quente
(que a fria gripa).
Daí desço os lances,
olho pro céu,
dou um respiro.

Igual a hoje.
Igual a ontem.
Qual a diferença?

Um carcará
que pousará na antena
vizinha.
Vou escapar de fininho:
capaz de me atacar
a carcaça -
enroscada na rotina.


18 de outubro de 2014

Laços de Família

Tela: Cat and bird au MoMA (1928), Paul Klee

De um lado
a pantera:
não anda, desliza
quase muda
olhar fixo que não
pisca:
encara a presa
e o inimigo.

De outro
o passarinho:
salta desengonçado
solta pios
e como pisca!
Palpita até
com cochicho.

Nem parecem filhos
do mesmo Pai.