23 de outubro de 2014

Alma Gêmea

Tela: The Toilet of Venus ("The Rokeby Venus") - 1647-51 - Diego Velázquez

Tenho uma irmã
que me aparece
sempre que olho
no espelho.

Sincera, não faz rodeios:
escancara.

Que meus ossos
sopitam,
que minha pele
dobra,
que o tempo
passa e a minha
massa
escapole da forma.

Minhas feridas
e picadas,
reflete
sem meias verdades.

A gente se parece,
mas só na aparência:
é o meu inverso.

Ela tem coração
grande,
salta obstáculos,
não usa correntes,
não se embaraça.
Se embriaga:
vê graça em tudo.

Tira de letra
abatimentos.
Segue afora.
Reza muito.

Já propus -
parecemos tanto -
que trocasse de lugar
comigo.

Cheia de defeitos,
eu
que merecia o armário.
Ela,
a amplidão do mundo.


22 de outubro de 2014

A semente

Tela: Descent from the Cross - Detail women (left) - Rogier van der Weyden (1399/1400-64)

Vem de dentro margeando
até desaguar
única
pelo canto –
joia de sal
que acarinha o rosto.

Eis a lágrima:
prenúncio do pranto
que embarga a voz
embaça os olhos
e não lava.

Antes
revolve a poeira,
que fica suspensa –
pra depois resolver
o que fazer com ela.

Gota que entorna
de um corpo aflito,
monólogo conciso
pra plateia errada:
quem deveria acolhê-la
está longe.

Mas tem esperança
de semear compaixão,
empatia
ou um abraço –
florescendo
em quem está ao lado.


21 de outubro de 2014

A areia

Tela: Niños en la playa, Valencia (1919), Joaquín Sorolla y Bastida

Fértil -
gera sombrinhas
(re)colhidas à noite.

Cúmplice -
acoberta algozes:
pés, espetos, bitucas.

Indiscreta -
revela tesouros:
ovos, tatuís, conchas.

Volúvel -
muda de lado
ao labor do vento.

Inoportuna -
gruda
onde não é bem-vinda.

Mas dedicada -
cerceia com desvelo
todo um oceano,
pra ele não derramar.


20 de outubro de 2014

Negligente

Photo: Thomas Bresson

Onde se meteu?
Não há nuvens,
encostas nem muros.
À exceção de umas luzinhas,
o breu desvestiu tudo.

Dos olhos e dos sonhos,
despontam taras
e medos.
No lado de cá
do mundo,
é a hora da verdade.
Todos se mostram:
que é de você?

Não sabe
que a dona triste,
o velho torto,
a moça só,
o homem louco
contam consigo?

Não sabe
que prum punhado de gente
é dia
e você, o único sol?

Não se furte de ser
norte
de quem prefere a madrugada.

Não se furte de ser
face amigável
pra quem não tem mais nada.


Carcará

Foto de Wilfredo R. Rodríguez H.

Amanhã é o novo dia.
Vou partir o pão
no meio,
passar manteiga,
dar nove passos
até a cozinha
e beber água quente
(que a fria gripa).
Daí desço os lances,
olho pro céu,
dou um respiro.

Igual a hoje.
Igual a ontem.
Qual a diferença?

Um carcará
que pousará na antena
vizinha.
Vou escapar de fininho:
capaz de me atacar
a carcaça -
enroscada na rotina.


18 de outubro de 2014

Laços de Família

Tela: Cat and bird au MoMA (1928), Paul Klee

De um lado
a pantera:
não anda, desliza
quase muda
olhar fixo que não
pisca:
encara a presa
e o inimigo.

De outro
o passarinho:
salta desengonçado
solta pios
e como pisca!
Palpita até
com cochicho.

Nem parecem filhos
do mesmo Pai.


17 de outubro de 2014

O milagre

Tela: The Birth of Venus (detail) - 1485 - Sandro Botticelli

O vento dá vida
ao que é morto.

A porta aberta
decreta sigilo,
as cordas da cortina
ensaiam uma canção,
o pano se levanta
e a mesa ruboriza,
as páginas do livro
apressam a conclusão.

Uma lufada
e de repente
minha casa povoada.


O espetáculo

Tela: In the box (1879), Mary Cassatt

Se o alarido dos vizinhos
fosse rádio,
ajustaria a frequência
pra ouvir bem
um bocado.

Riem de quê?
O que debatem?

Massa de vozes
que me chega em uníssono
ou com barítono
em destaque.

No cômodo exíguo,
sou plateia improvisada:
louca pra distinguir
o enredo,
pra também poder
dar risada.


16 de outubro de 2014

Santa Joana

Tela: Jeanne d'Arc, ou Jeune Bretonne au rouet (1889), Paul Gauguin

Ali, uma massa:
plena e brilhante
na bacia.
Tão tranquila!

Nem se diz que foi
salpicada,
apertada,
enrolada.
Golpeada.

Plácida
sob o algoz das mãos
untadas,
ela agora descansava.

Sob um pano
tirava um cochilo
sem sonhar
que um forno quente
completaria o martírio.


15 de outubro de 2014

Manual Poético

Imagem: Board of Tourist Industry poster, Japanese Government Railways cropped (Sem Data)

Atrás da torre de tijolos
o sol -
cera quente e vermelha -
selava o fim da tarde.

Encarei o círculo
imenso,
desejando que se achegasse
à Terra
prum chamego ardente.

Mas o rubi encrustado
no céu de névoas
pálido
não reluziu apocalipse.

Foi apenas um fenômeno
estupendo e raro
explicado
em algum livro científico
chato.

Sou mais meu Manual Poético:
a estrela
só vestiu um quimono
escarlate
pra chegar ao Japão
a caráter.


13 de outubro de 2014

Entre espinhos

Tela: Roses. Marie Krøyer seated in the deckchair in the garden by Mrs Bendsen's house
(1893), Peder Severin Krøyer

Quando menina
vivia de perna arranhada:
"Olhe as roseiras!",
mamãe alertava.

Pra mim, aviso inútil.

Agora é a alma
que trago lanhada.
Paga
por circular neste mundo -
grande jardim hostil.