16 de dezembro de 2014

A Perspectiva

Tela: Lise cousant (1866), Pierre-Auguste Renoir
Como não aspirar
às coisas gaseificadas?

Que fortuna a da fumaça
que parte modesta
pela fresta na panela
e a do vapor
que sai com alarde da chaleira!

Diferente de nós,
que mal arriscamos
uma ponta de pé,
sobem sem fardo
rumo ao ápice do teto,
da pitangueira
e mais além.

De onde avistam
nossas cabeças -
alfinetes coloridos
que a costureira dispôs
sobre o azul do vestido.

E também nossos problemas:
pontos ínfimos,
tecidos fragilmente,
que desmanchariam
com um peteleco negligente.


15 de dezembro de 2014

Cavalo arisco

Tela: Whistlejacket (cerca de 1762), George Stubbs

Deus me leva na rédea curta.
Em vão:
abuso do trato Dele comigo.

Passo a trote
pelo Samaritano,
refugo talentos,
peixes e pães se deterioram
no coche -
são galopantes, as dívidas.

Na cabeça,
os antolhos do padre:
"A conversão é já!".
Mas sou brasileira -
protelo a quitação
pro dia seguinte.

Da cruz,
o Condutor me observa triste:
a marcha da minha existência
nega que Ele existe.


11 de dezembro de 2014

O Tubérculo

Foto: Graffiti del Che Guevara - Autor: Joanbanjo

Se os alimentos tivessem
partido,
o cará seria de esquerda.

Barbudo, despenteado
sisudo -
camuflado na terra
numa guerrilha iminente.

Apanhado,
lhe arrancam o couro.
Tenaz a seco;
molhado, não amolece:
escorrega resistente.

Estigmatizado,
passa batido no mercado -
nem todo mundo leva:
ignoram seus nutrientes.

Na minha mesa, diferente,
há sempre lugar pro tubérculo
de essência alva, coesa
e coerente.

Foto de ProjectManhattan


10 de dezembro de 2014

A Camisa Azul

Tela: Knienende Frau in blauer Bluse (1914), Egon Schiele

Hoje
levei minha camisa
azul
pra passear.

Quase não o fiz:
tão bonita
(sem vinco)
suspensa no arame!

Os botões
dentro das casas;
os dos pulsos,
livres.

A gola firme
dobraria
um pescoço hesitante.

Sem mácula,
enxuta,
dócil
à marcha do vento.

Quem dera as roupas
vestissem
os temperamentos!

Em vez disso,
a camisa é que me
sorveu:
voltou cheia de
marcas,
precisando de alento.


9 de dezembro de 2014

Alice


Imagem: Illustration from "The Nursery Alice",
containing twenty coloured enlargements from John Tenniel's illustrations to
"Alice's Adventures in Wonderland" by Lewis Carroll. (London: Macmillan and Co. 1890)

Eu ia junto a mamãe
quando ela comprava
botões
na Galeria Ouvidor.

Havia amostras
na frente das caixas
indicando os modelos
que vinham dentro.

Enormes;
imitando cristal;
estampados;
de formas diversas
que não o círculo -
mas mamãe optava
pelos caretas.

E torrava
a paciência infantil
catando os de madre-
pérola:
"Este não, tá lascado".

Lá ia a vendedora
colher novo montinho
pra recomeçar a escolha.

Em casa, depois de
pregá-los,
comentava orgulhosa:
"Não disse que combinavam?".

Combinavam sempre,
mamãe.

E eu lamento
não me ajustar mais
nem nas roupas
que você fazia
nem no mundo
que a gente tinha.


7 de dezembro de 2014

Bicho do Mato

Tela: Summer and autumn flower plants - 19th century - Sakai Hōitsu

Barulho persistente,
verde nos dois lados,
seixos no fundo -
eis a nascente.

Era lá que meu avô ia
(baldes em punho)
colher água pro sítio
sem luz
nem encanação.

E dá-lhe banhos
de cuia
e luz de lampião!

Quando as torneiras
germinaram,
minha avó se foi
meus padrinhos viajaram
e meus primos
nunca mais apareceram.

Até hoje
olho com desconfiança
pra civilização.


4 de dezembro de 2014

Os violões

Tela: Sentimental Song (1904), Bertha Worms

As pessoas são como
violão.

Às vezes
estão como o do meu pai:
sob uma capa,
recolhidas num canto,
vez em quando lembradas.

Noutras
não lhes dão paz:
arrastadas de situação
a situação,
suportando todo ritmo
até a corda arrebentar.

Tem as reprimidas:
apenas compõem o ambiente,
silenciadas
contra a parede.

Muitas, operárias anônimas:
bases de aço
pra alguma voz poderosa.

Novas,
de braço quebrado,
fora do tom,
harmonizadas -

Como o violão,
só se dão a conhecer
a quem se achega
cheio de dedos.

Tela: Gitarzystka (1887), Franz Russ


2 de dezembro de 2014

O Descobrimento

Tela: Göran i gröngräset (1897), Georg Pauli

A criança salta
sobre tudo:
a varanda, a garagem
o quintal e a rua.
Entre suor e risos,
conclui:
"O mundo
é de quem circula!".

Quando cresce e descobre
- "Tá tudo esquadrinhado
e possuído" -
se volta
prum outro território
imenso.
Que todo mundo desconhece
e que vai dentro.


29 de novembro de 2014

Volúvel

Tela: The Girl I Left Behind Me (1870-75), Eastman Johnson

Os devotos caminham
no mundo
como quem atravessa
rio
a uma corda rente.
Não há quem os desvie
da rota -
nem cheia, nem corrente.

Eu estou no outro
grupo:
que dança ao capricho
do vento.
Tudo me interessa,
me arrasta
e eu me deixo levar -
contente.

Não é um grupo feliz:
flertamos com a margem,
beijamos a borda
e seguimos adiante -
indiferentes.

Não há um dia
em que não reze
por natureza de estaca
(constante, profunda) -
devotamente.


26 de novembro de 2014

Os papagaios

Tela: Drachensteigen (1880-5), Carl Spitzweg

Pipas nos fios
elétricos:
sonhos frustrados
de céu.

Tenho uma porção:
derrotas
de toda uma vida.

Tão lindos
papagaios pendentes
à mercê da tensão
e do tempo!

Quiçá os meus
também sirvam
pra soltar um sorriso -
ao menos em Deus.


24 de novembro de 2014

A Esperança

Tela: Young Woman in a Shirt (1918), Amedeo Modigliani

Vira e mexe
a vizinha deixa um cheiro
forte
escapar.
Nessas horas,
eu me afasto da janela.
É como uma echarpe
de gás
que quer sufocá-la
e também tenta me apertar.

Concordo com ela:
a vida
é uma blusa de poliéster
num dia quente.
Uma angústia
pra quem respira com a barriga
(como eu).

Mas quando chega
a chance
de fazer livre
o ventre,
lá fora refresca,
meu time ganha
e a saudade
do amor
que nunca provou meu bolo
se transmuta
em esperança estranha.

Não sei a vizinha -
eu
continuo de blusa
só porque ele vem.