1 de fevereiro de 2015

Suspense

Tela: Grace reading at Howth Bay, William Orpen (1878-1931)

Não teria me apegado
à primeira página,
se soubesse
o que a próxima continha.

Meu mal é acreditar
que tudo de mais belo
só o sol ilumina,
quando o brocado da noite
também veste surpresas lindas.

Você estava num fim de tarde,
quando eu já me recolhia -
uma troca de olhares
e se acendeu minha rotina.

Agora, o presente me amofina:
conterão as páginas seguintes
o seu beijo, que me desatina?


31 de janeiro de 2015

Florações

Tela: Algarrobo (1899), Joaquín Sorolla y Bastida

O cajueiro sabe
que a primavera
levará seu fardo.

A quaresmeira pranteia
Cristo
duas vezes no ano.

A sumaúma
termina o calendário
de consciência leve.

Sou como alfarrobeira:
espero por ti
sem "quando".


29 de janeiro de 2015

Meu RAPAZ faz 3 anos!

Foto: o aniversariante Jaime Augusto na Grande BH - Janeiro de 2015

Querido Jaime Augusto,

Este é o Post que mamãe preparou para celebrar o seu 3º Ano de Vida e dar as Boas-Vindas ao 4º. As fotos foram tiradas entre junho de 2014 e janeiro de 2015 na Grande BH e em São Paulo - cidade que visitamos com frequência e amamos (quase) tanto quanto a nossa Belo Horizonte!

Além da sua figura adorável, meu filho, nas fotos aparecem algumas das pessoas que foram importantes pra você neste 3º Ano de Vida e que marcaram presença através de cuidados (Vovó Gali), e-mails, telefonemas sem-fim (viu, Dinda Dedeia?), presentes, partidas de futebol com você e muito Amor!

As fotografias vêm "embaladas" pelos versos da canção MAIS PRA VOCÊ da compositora Roberta Castro, que a cantora Eliana Ribeiro (uma das favoritas da mamãe), da comunidade Canção Nova, gravou e que está em seu maravilhoso CD Saudade de Ti.

Que, na Graça de Deus e sob o manto de Nossa Senhora, você siga crescendo com Saúde!

Cheio dessa adoração linda pelo FUTEBOL e por marcas de carros, que você tem!...

E que a paixão por BH, pelo Atlético Mineiro e pelo Brasil - a ponto de já cantar o Hino Nacional - inflame seu coração. Porque quem se orgulha das próprias raízes está preparado pra se colocar no mundo!...

De uma mãe cansada (ufa!), mas que também se diverte muito em educar você,

Ana Paula~a Católica

P.S. Todas as fotos, sem exceção, foram tiradas por sua Mamãe.


Que loucura: a vida virou pelo avesso
Não imaginava o que estava por vir

Endless Love

Tela: Liebespaar (1909), Ernst Ludwig Kirchner

O futuro é branco
e em câmera lenta -
não se sabe
se a moça que mostra
os dentes
está rindo ou chorando.
Nem se o arco
que a bola faz
acaba num pote de gol.
Nem se o azarão
ou o favorito
cruza a reta primeiro.

Quem corre
pisa em ovos,
quem anda
levita
e Buzz Aldrin
parece parado.

Eis-me lá:
lânguida.

No dorso,
sua pegada de urso.
Nossas línguas macias
se entendem.
E se confundem.

O futuro, branco
e em câmera lenta.
A moça dos dentes?
Sou eu.
Rindo pra sempre.


28 de janeiro de 2015

O leque

Tela: Der rote Fächer (1892), Eugene de Blaas

Gostei tanto de você,
que virei leque fechado.

Sem expor a minha estampa,
não me arrisco a desagrado.

Vai que é minimalista?
Meu desenho é rebuscado.

Vai que gosta de rendado?
Meu arremate é laminado.

Ligeireza e golpe acústico
no abrir e no fechar?
Ts. Ts.
O meu corpo é delicado.

Reservada em minhas
dobras
no calor de fevereiro,
seu toque rústico
é uma miragem
que só agita a minha sede.


27 de janeiro de 2015

Alvorecer

Tela: Green Field (1889), Vincent van Gogh

Troncos reluzentes se estufam,
safiras ornam a grama,
o pomar se veste de filó.
Ao redor, uma saia farfalha.

Dentro, a faísca
que despertou a paisagem:
o amor me visitou.


25 de janeiro de 2015

Paixão

Tela: El Jaleo (1882), John Singer Sargent

Como pode passar
tão rápido,
e deixar pegada funda?

Sair há horas
da água,
e ela continuar
se agitando?

Que vento é esse
que soprou há dias,
e a copa fica balançando?

As pedras sossegaram,
mas a poeira
segue levantando.

Recolheram as brasas
apagadas,
e aqui dentro
elas estão inflamando.

A festa acabou,
mas depois que ele me viu
ainda ouço a guitarra:
vivo dançando.


A Paquera

Tela: Boating Couple (said to be Aline Charigot and Renoir) - about 1881 - Pierre-Auguste Renoir

Pus uma pedra
sobre a página -
mas pra ela não virar.

E todo momento,
como quem abre a Bíblia
no Salmo 90
e a põe pra enfeitar,

Releio as linhas
daquela tarde
em que nos pusemos
a conversar.

Suas palavras
tramaram uma rede
da qual não quero
me levantar.

Descanso (ou me inquieto?)
nos olhos que se cruzavam
e nas bocas
que não se punham a beijar.


Virgem

Tela: Flora (1889),
John Roddam Spencer Stanhope

Não sei quando vou revê-lo:
virei muro,
pra poder me reconhecer.

Diverso da flor que seca,
da árvore que desfolha,
do pássaro que depena,
do gato que foge -
o muro se aquieta, inerte.

Assim eu pensava
até me ver brotar musgos,
grafites, descascados.

Sim: as estações, em todos,
deixam suas marcas.

Você vindo ou não,
seguirei intacta.

22 de janeiro de 2015

Embriaguez

Tela: The way you hear it, is the way you sing it (1665), Jan Steen

O álcool faz suas vítimas.
A mais óbvia,
o embriagado:
rouba-lhe o senso,
o nexo
e as coordenadas.

Mas não a única.

Mais tarde,
suspira
quem ouviu juras de amor
de quem não se lembra
de nada.


Volátil

Foto de Alex Valavanis

Uma bala
é a duração da felicidade.
(Na boca, um rasto de menta.)

E vamos em busca,
mesmo sabendo que o sabor
fica na lembrança,
e não na realidade.