24 de abril de 2015

Apego

Tela: Modern Magdalen (1888), William Merritt Chase

A ave se livra das penas.
O galho não liga pra seca.
As pedras rolam da serra.
O leito reparte no curso.

A terra abre mão do fruto.
A flor não esconde o doce.
Cigarra se gasta no canto.
Estrela finda (ainda) dá luz.

Só eu guardo:
um amor que não rende graça,
mas pranto.


23 de abril de 2015

O vento

Tela: Ejiri in Suruga Province - Part of the series Thirty-six Views of
Mount Fuji, no. 35 (1830), Katsushika Hokusai

Vento forte
que empurra e sopra
a vela
vira a folha
balança a relva
descabela a copa
incita a chama
esfria a sopa
agride a porta
enxuga a roupa
dispersa nuvens...

Vento forte
que leva a semente
traz o cisco
bagunça a vista
revolve os fios
sustenta a pipa
descobre as pernas
acorda a poeira
espalha as penas
modela as dunas
carrega o cheiro...

Vento forte
que altera o tempo,
agita as águas,
arrasta as frentes...

Varra este amor
do meu pensamento!


22 de abril de 2015

2 ânimos

Tela: Terrace with Oak, Sorrento (1834), Thomas Fearnley

Dependendo da luz,
é florzinha amarela -
decifrada num instante:
um miolo, pétalas, haste
folhas com orvalho do jardim.

Mas tem seus dias de carvalho:
profunda, serena
cheia de sombra e história -
torça pra encontrá-la assim.


21 de abril de 2015

O perigo

Tela: In the waves or Ondine (1889), Paul Gauguin

Lá na ponta, lar
dos monstros marinhos,
é onde vou me equilibrar.

Passagem pra caravela,
há três luas,
mandei providenciar.

Aqui, o feudo foi definido:
não me interessa ficar.

Abismo
não é o fim do mundo:
é este quinhão
onde é certo naufragar.


De guarda

Tela: In the Skerries (1894), Anders Zorn

Na paixão, vivo exausta:
não me afasto um instante.
Nem no sono:
vai que me leva
a terras distantes?


20 de abril de 2015

Silhuetas

Tela: Starry Night (1893), Edvard Munch

Mesmo no escuro
as curvas da montanha
se insinuam.

Se o banho de lua
é fraco,
a ventania revela a mata.

As estrelas são tantas,
que deixam a abóbada
rebuscada.

Um único pirilampo
realça a linha da estrada.

A paisagem provoca,
mas meus olhos se embaçam:
só fixam o seu dorso
partindo de casa.


19 de abril de 2015

Estações

Tela: Women walking in the snow, Utagawa Kuniyoshi (1797-1861)

Se uma alma está no inverno
e a outra, no verão
como vão se encontrar?
Há um outono com mil folhas
pela frente
e uma primavera de malmequeres
pelo chão.

Se decidirem topar pelo caminho,
resistirá a alma alegre
a tanta seca?
Estimará zumbido e cor
quem tem frio, o coração?


18 de abril de 2015

A crise

Tela: The Snowstorm (Winter) - 1786-87 - Francisco de Goya y Lucientes

Tempos hostis exigem
carapuças densas.
A delicadeza só veste bem
a lembrança.
Sob a crosta espessa,
substâncias tênues
que não se revelam -
mas balançam.

Quando a aridez sair de cena
e a armadura,
puser num canto
espero
não ter perdido o jeito pra dança.


Marta apaixonada

Tela: Cristo en casa de Marta y María (1620), Diego Velázquez

Seu silêncio me legou
a incumbência
de preencher meu tempo
com tarefas.

Nem a paz do Redentor
me aquieta:
de um lado a outro vou
para cobrir a sua ausência.


O Samaritano

Tela: Girl in a yellow drape (1901), John William Godward

Se só de me olhar
fez o bem:
me corou a pele,
espantou o breu;

Que salvação não viria
do corpo dele
enroscado no meu?


17 de abril de 2015

Enjoying it

Tela: Plum Brandy (1877), Édouard Manet

Não curto o momento -
deixo pra mais tarde:
fica melhor o que passou.

O presente é oferenda
que não bebo:
só desfruto na saudade.