22 de agosto de 2014

Dança dos Números

Imagem de Marina Shemesh

Nunca acreditei na sorte.
Na última vez que me pediram
pra colorir quadrado
no papelzinho,
recusei.

Não sou boa com números:
sorteiam 45, marquei 37.
O endereço é 420, guardei 240.
O preço dizia 49 e 90,
paguei 69 por engano.

Datas passam batido.
Meus parabéns
chegam sem graça.
Minhas primaveras,
mais que reconheço.

Não acumulo acertos,
não junto amigos.
Sofro muito:
conheço 8 ou 80.

Pecado, sei.
Não há uma noite
em que não sonhe
em acertar o cálculo
do Mestre:
"setenta vezes sete".


21 de agosto de 2014

Sombra atômica

Left picture: Atomic bomb on Hiroshima, 6 August 1945,
by Enola Gay Tail Gunner S/Sgt. George R. (Bob) Caron -
Right picture: Atomic bombing of Nagasaki on August 9, 1945 by Charles Levy

Não era de coqueiro.
Não era de guarda-sol.
Quando o clarão foi embora
na parede, no cimento do muro
quedou.

O soldado sumiu.
A menina evaporou.
A vovó com a sacola
nunca mais voltou.

No lugar do vaso
de flor, da prata
do corrimão
desenhos escuros
pelo chão.

Vieram homens
com réguas e óculos
medir raios, distâncias
das marcas
que o clarão deixou.

Houve sobreviventes:
falam das labaredas,
das queimaduras,
da saudade no coração.

Só não houve quem
os convencesse:
pra quê as sombras?
Por que a luz da destruição?


19 de agosto de 2014

Penitência

Saint Teresa of Avila's vision of the dove (circa 1612-14), Peter Paul Rubens

Olho pros santos
de igual pra igual:
a vida é o meu
cilício.

A vizinha de baixo
bate bifes toda
noite -
na dor
também vejo se amacio.

Se a pedra não tá
no rio,
mais árduo
é o seu destino.

Não rolo pra lá
por vaidade:
pra não chegar aos Céus
de dedo enrugado.


18 de agosto de 2014

Pop Art

Imagem de Karen Arnold  

Brastemp -
esfregou na minha cara.
A publicidade
invade mais
que mosquitinho
de banana.

Não era isso
o que eu queria:
a empregada da novela
pondo amaciante
na tampa.

Mas pra provar
do beijo do galã
tenho que suportar
o reclame.

Se pudesse, faria greve:
até na hora do devaneio
me vendem máquina,
peixe, pão e salame.


17 de agosto de 2014

Estima no alto

Foto: Stars Gather in 'Downtown' Milky Way - 2011 - NASA/JPL-Caltech

Do que me importa
ser um cisco
se como o sol
também giro
sem cabo
na escuridão?

O destino da estrela
fria,
daquela quente,
de toda estrela
está escrito:
fenecer como eu.

Os anéis de Saturno
(aros brilhantes)
não passam de pedras
que rolam -
de perto, tudo é banal.

Igual aos cometas,
corro.
Qual asteroides,
caio.
A rotina da gravidade
traga
os satélites e eu.

Olho pro céu e suspiro:
estou à vontade
e integrada
como qualquer habitante
do espaço sideral.

Foto: Center of the Milky Way Galaxy III – Chandra (X-ray) - 2009 -
NASA/JPL-Caltech/ESA/CXC/STScI - NASA JPL


16 de agosto de 2014

A Visita

Saint Henry Catholic Church (St. Henry, Ohio) -
stained glass detail, nave, Christ as the Good Samaritan - Foto de Nheyob

Os irmãos
a quem mandou
chamar de Próximos
não têm paciência
comigo.

Pra não acamar
de solidão,
turbino a certeza
de que existe.

Quando vem,
faço cerimônia -
mas me desarma
com um sorriso.

Não liga
pra conversa fiada,
ouve abobrinhas
sem olhar para o lado.

Toma o café que esfria,
morde o biscoito mole
e come tudo,
que eu insisto.

Mostro todos
meus machucados:
Ele assopra, beija
e põe curativo.

As horas passam,
eu bocejo -
me dá licença
pr'eu ir deitando.

Tão cansado
também Se estira,
sonhando com quem
num dia
faça Suas vezes
de Samaritano.


14 de agosto de 2014

Dura na queda

Foto de nuzrath nuzree

Admiro a Torre de Pisa
e as mocinhas do cinema:
tem quem as segure.
Eu não.

Desde cedo
engoli cabo de vassoura -
não me cabe
o luxo da inclinação.

Pobre moça no espelho.
Tem destino de bambu
(enfrentar a força dos ventos)
mas não pode envergar:
cai logo no chão.


Os preferidos

Tela: The Old Musician (1862), Édouard Manet

Os mendigos me intrigam.

Sei que andam,
mas vivem sentados.
Há os imberbes,
mas distingo os barbados.
Carregam a casa
feito caracóis
ou apenas doses
de uma garrafa.
Sei que são tristes,
mas sorriem quando passo.
Sentem frio,
mas não tremem.
Faz calor,
e se cobrem de casacos.
Pensam: "São sós!",
mas dormem lado a lado.
Parecem tranquilos,
porém olham pro chão.

Do próximo
não escondem nada
almejam muito...
Mas só pedem trocados.


13 de agosto de 2014

Maus modos

Foto de Camila Zanon

Na frente de todo mundo,
pode ficar cinza.

Tirar os fios
que agarram na orelha,
levantar as costas
que arqueiam,
passar a língua
nos dentes
depois de sorrir,
ficar estátua
sem jogar o quadril,
olhar pros lados
antes de tocar
no nariz.

Atrás de todos,
por favor,
enlouqueça.

Fure o meu olho,
queime a minha língua,
empurre com a barriga,
me pese as costas,
leve nas coxas
e use essa boca
pra qualquer coisa -
menos pra falar
baixo,
menos pra (se) dizer
obrigada.


Peut-être

Foto de MALIZ ONG

Peut-être.
Talvez em francês.
O dia em que aprendi, bingo:
palavra difícil
pra algo bem complicado.

Em português, talvez soa claro.
Mas deixar alguém em suspenso,
entre o sim e o não,
sem saber... Intrincado.

Peut-être chova.
Peut-être eu vá à missa.
Peut-être eu ache a fé
que escapou
quando entrei na sua casa.

E reveja a graça no sol
quando ele corta
a linha do horizonte,
desmanchando a tarde
e mostrando fora
o escuro que faz aqui.


11 de agosto de 2014

Último impulso

Foto de alex grichenko

Se arrependimento matasse,
não teria ficado
tão brava
no último dia da minha vida.
Na hora em que o freio
rangeu
soube
que me restava um momento.
A vida
- mesmo a minha,
abreviada -
custa tanto.
A meia idade
é quase inteira.
Anos de sangue
quente
me anestesiaram
pra verdade suprema:
"Pra quê?".
No impulso final
rezei o que aprendi
naquele último momento:
"Eu me conformo agora
e sempre Amém".