22 de setembro de 2017

A resistência

Tela: Les saintes femmes au tombeau - The Three Marys at the Tomb
(1876), William-Adolphe Bouguereau

Quem sai de cena na certa
deixa um vazio perpétuo
que contudo não exaspera.

Cultiva no peito, a terra
não obstante o inverno
disposição pra primavera.


21 de setembro de 2017

Silêncio

Tela: Married (1896), Walter Dendy Sadler

Dos muros já erguidos,
faz-se o mais eficiente:
é tênue, sem granito,
e isola 2 solenemente.


20 de setembro de 2017

Recados

Tela: Die schwimmende Arche Noahs
- between 1350 and 1375 - Anonymous (Meister 1)

Assegura-se, num bom arrimo,
a eloquência da mensagem:
um ramo no bico, estiagem
um coro de anjinhos, natividade
mas em poucas coisas me fio
como no silêncio da contraparte.


19 de setembro de 2017

Frívola

Tela: Mädchen am Strand (1820), Max Nonnenbruch

Distendi meus tentáculos,
e não consegui tocá-la:
tua alma sem porquê claro
de ponta a ponta, vaga.


18 de setembro de 2017

Danos

Tela: Old History (1892), Alexander Jakesch

Desengano é a ruína
- assim que sucedida -
de uma afeição decidida.

Descaso é uma avaria
só aos poucos percebida
pela alma, de amor, perdida.


15 de setembro de 2017

O Mago

Tela: Nordic summer's evening (1899-1900), Richard Bergh

Cumprindo uma vocação,
o olhar às vezes reconfigura:
aquela nuvem, um esturjão;
migalhas, nutrição
e num feito de envergadura
nossa distância, diminuta.


14 de setembro de 2017

Intuitos

Tela: Preparing for the Matinee (1907), Edmund Charles Tarbell

Uma alma se afadiga em retoques
pelo lampejo do que quer muito.
Como cego não liga pra berloques
o esmero da paisagem é gratuito.


13 de setembro de 2017

Desfecho

Tela: At the door (1901), Albert Edelfelt

A porta que ao partir batem
- sem sequer olhar pra trás -
como um féretro, ela soa.

Se voltam, que não reparem:
pra quem ficou, tanto faz
se são espectros ou pessoas.


11 de setembro de 2017

Intermitente

Tela: Petites Mendiantes (1880), William-Adolphe Bouguereau

Para P. L.

Há quem seja caridoso
com aceno ou sorriso:
se vêm pro meu bolso,
mais um dia sobrevivo.

Dá-se assim, generoso,
e mesmo sem o risco
de se ver só com pouco
tantas vezes é omisso!


10 de setembro de 2017

Eficaz

Imagem: Médée (1898), Alphonse Mucha

Que o pasmo rouba as palavras
é amplamente alarmado.
E o desenganado, quando cala,
a elegia vem embalá-lo.
Porém como o desprezo, nada
pra cerrar bem os lábios.


Quase

Tela: Träumerei (1900), Oreste Pizio

Para P. L.

Se lhe ficasse evidente
que nos dedos enrosca
cada fio que me anima,
que bom deus não daria:
além de ser onipotente,
tão pouco ele se mostra!


9 de setembro de 2017

Delicadeza

Tela: Sunset on the Plains (1887), Albert Biertadt

O sol nunca sai à francesa:
já com as asas sem firmeza
sem saltar um ser que seja
nos afaga a crista e as penas
(no escuro, mais extensas)
então pousa em outra cena.