22 de junho de 2017

Resignação 2

Tela: Deux jeunes Filles à l'Étoile de Mer, Paul Émile Chabas (1869-1937)

Lição molesta, de grande valia:
saber à desventura se amoldar.

Nem todos estão onde deveriam -
é o que atesta a estrela no mar.


Remorso

Foto de Dirk Vorderstraße

Fosse eu como a Manhã,
a quem não pudesse evitar,
passaria por mim sem ver nada
com algo melhor pra cuidar?

E suspiraria contrito com afã
quando a Tarde viesse me levar
junto à Noite - mancomunadas -
fazendo, essa falta, aumentar?


Outono 3

Tela: Monna Rosa (1867), Dante Gabriel Rossetti

Inútil, a primavera ser ágil
em levar sumiço das frentes:
qualquer ramalhete é hábil
em saber que a flor tem mais viço
quando ela resta na mente.


17 de junho de 2017

Dissimulada

Foto de Tobias "ToMar" Maier

Das máscaras que conheci,
as da pedra são um caso a estudar.
Por trás da feição indolente
ou de um coração aparente,
queda uma disposição pra partir
que o vidro e outro coração (inocentes)
não tardam a adivinhar.


Prognóstico

Tela: The Reluctant Bride (1866), Auguste Toulmouche

Não balançar com um baque
não denota que o partiu em dois.
A dor, como noiva no enlace,
perde a hora, mas é certa depois.


Souvenirs

Imagem: Early Autumn - 13th century - Qian Xuan

Às borboletas, a sorte de guardar rostos.
Às joaninhas, palmas e mais um pouco:
pulsos, ombros, pescoços.
Às moscas, todo o desgosto
de ver tanto pé, em fuga, posto:
só têm recordações de dorsos!


A operária

Photo by and (c)2007 Derek Ramsey (Ram-Man)

Julgam: "Quanta rudeza!",
porque ela faz muita zoeira
e ainda porta um aguilhão?

E quanto à delicadeza
que vota a rainha e flor rasteira
sem ver, nas classes, distinção?


10 de junho de 2017

Esconde-esconde

Tela: Hide-and-seek (cerca de 1893), Sergei Gribkov

O Amor é um menino esquivo.
É só oferecer um regaço
que dá no pé, não é mais visto...
Um milagre tê-lo nos braços!


Duração

Tela: Fishing cutters in the moonlit night (1888), Carl Locher

"Pra sempre" é frase lisonjeira
- não mais -
que só diz a alma cheia de afã.
A impressão que a lua deixa
- no mar -
não significa nada de manhã.


1 de junho de 2017

Uma tarde

Tela: L'Après-midi à Naples (1875), Paul Cézanne

Para S. A.

Vamos desperdiçar o nosso tempo.
Ver, numa tarde, seu desfolhamento
sobre um rio cheio de açodamento
que o leva ao forçoso recolhimento.

E abençoados, com menos tempo,
nos restará apenas o desfrutamento
deste quinhão grande, mas avarento
que passa aqui agora: Este Momento.


27 de maio de 2017

Selvagem

Tela: Brüllender Löwe (1919), Geza Vastagh

Oculta o coração, uma fera
a bramir cheia de espera.
No covil (crêem) há eras,
nada a doma ou admoesta:
por alvo, uma presa incerta;
por marca, a fome que cega.


23 de maio de 2017

Às cegas

Tela: A noite acompanhada dos gênios do estudo e do amor
(1883), Pedro Américo

É na treva que se nota
com clareza o caminho:
quando a luz vai embora,
leva as sombras consigo.