23 de abril de 2014

Sentença

Imagem de Craig Sunter from Manchester, UK

O aroma do tempo
se desdobra na
sala,
entre as costas
e a caixa torácica
do homem galante
de chapéu preto
e outros mais
que não posso ver.

Uma linha
de lã
que Deus puxou,
que se desenrola
entre campos,
bosques e espaços,
amarrando pelo
pescoço
o velho, o moço,
a criança.

O tempo estraga
cabelos,
lambe as faces,
deixando-as
rugosas, ásperas,
por mais que
tentem despistar com
injeções, fios
e máscaras.

O tempo resseca
madeiras e tábuas,
enferruja e torce
corrimões e escadas,
amarela livros, paredes,
nos rouba
avós, amigos, doentes.

O tempo não é
irmão:
é um senhor
indiferente,
muito gordo e onipresente,
que sem desculpa
ou permissão
leva memória e viço,
torna o presente, passado;
o futuro, parte da história.
Para todo o sempre.

Imagem de Peter Forster


20 de abril de 2014

Pergunta que não cala

Tela: Au Moulin de la Galette (1892), Ramon Casas i Carbó


Hoje saí pra procurar
você.
Bom andar sem olhar
pra ninguém.
Queria reconhecê-lo
pelas costas,
o cheiro,
a voz.
Claro que ia dar errado.
Claro que encontros
sonhados, ao acaso,
só na ficção.
Fui assim mesmo.
À direita, à esquerda,
olhei pro escarpim
de tachinhas douradas
e pensei: "Ele viajou.
Está longe. E eu
aqui".
Desci frustrada
na tarde de sol
meio fria.
Estiquei o braço arroxeado
pro carro branco
me pegar.
Entrei. Fui aos trancos
- sinais abrindo e fechando.
Cheguei um farrapo.
Peguei o livro de Rimbaud
que comprei,
pra matar minha sede
de beleza.
Todos os dias pergunto
ao bom Deus:
"Quando, quando, quando
vou vê-lo outra vez?".

Tela: Dans le bleu (1894), Amélie Beaury-Saurel


17 de abril de 2014

As Folhas Liberadas

Tela: Woman with Autumn Leaves (1994), Andrew Stevovich - Fonte: Andr.V.S.


É possível
gostar das folhas
no chão
mais que na copa
das árvores?

Amarelas, secas,
gastas, manchadas,
enroladas, ao
alcance das mãos?

Salve o outono,
quando se precipitam
nas ruas, nos quintais,
dançando e cantando
juntas
que nem moças de coral!

Um viva às folhas
soltas,
sem lenço nem
documento,
que estalam com a
pisada
e escapam com o
vento!

Salve a renúncia
empreendida,
num salto mortal,
definitivo,
pra dar lugar
às que virão em seguida!

Um viva
às folhas liberadas,
que sujam jardins,
escondem gramados!

Pois evocam transição
e me recordam do meu fim.

Tela: Park in autumn (circa 1900), Michał Gorstkin-Wywiórski